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[RESENHA] Liturgia do fim - Marília Arnaud

Inácio, escritor e professor universitário, um homem assombrado pela memória e pelos fantasmas de um segredo familiar, abandona a mulher e a filha, as salas de aula e a literatura para voltar a Perdição, lugar onde nasceu e viveu até os 18 anos. Com essa idade foi expulso de casa pelo pai, um homem rude e autoritário que educou os filhos com rigor e frieza. Numa narrativa descontinuada e sinuosa, em que presente e passado se alternam e se misturam, Inácio narra a infância e a adolescência em Perdição, a vida em família, a relação difícil com o pai, o terno entendimento com a mãe, a obsessão pela tia louca, os medos noturnos, o primeiro e único amor, a paixão pelos livros.

Autor(a): Marília Arnaud
Ano: 2016
Editora: Tordesilhas
ISBN: 9788584190430
Onde comprar: Saraiva | Travessa
Avaliação: 09/10





Liturgia do fim é o início da revolução da escrita por parte de uma autora com incríveis poderes de domínio de acontecimentos, fatos e sucessões em seus contextos, Marília Arnaud lança seu primeiro livro através do selo Tordesilhas da Alaúde Editora, o que promete muita mudança para todos os que leram seu romance Suíte de Silêncios, publicado pela editora Rocco.

Em "Liturgia do fim" você poderá acompanhar a evolução da autora em vários termos relacionados ao seu poder de escrita, ou melhor dizendo, poderá acompanha-los. O contexto do livro narra a vida de Inácio, que a princípio é um homem como qualquer outro, mas com segredos que você se quer possa se quer decifrar. 

Em meio à problemas e sequelas de um passado que ele prefere esquecer, volta e meia se pega pensando alto nos aspectos que ainda lhe corroem à fundo. A narrativa forte de Marília transita entre o "eu" naturalista e conservador do personagem principal e o seu lado marcado pela expulsão de casa desde cedo por consta do pai, e por sua história extremamente depressiva.

Inácio, como muitas outras pessoas em todo o mundo é uma pessoa solitária que vive perdida em pensamentos e que busca refúgio em livros, em personagens e pessoas que não lhe suprem por completo, mas que o ajudam à esquecer um pouco do paralelo da realidade. 

Toda uma vida, que poderia ser a nossa. Traumas, medos, tristeza, incerteza, problemas, solidão - E pensamentos que volta e meia retrocedem e nos fazem pensar no que somos, como somos e o que será de nós se continuarmos na dependência e vivência do passado. Como em todas as famílias, o responsável por parte dos traumas é o pai (triste realidade), ficando assim tendo apenas como apoio emocional e familiar sua mãe.

O trecho a seguir marca toda a obra, e boa parte de um dos segredos escondidos da família de Inácio:

Queria que me insultasse, e me amaldiçoasse, e me mandasse embora, teria sido justo, mas não agia assim. Longe dos ouvidos de Isabel, escorava sua mágoa contra contra mim num tom de voz desvanecido que destoava da Ieda que eu conhecia, por quê, Inácio, por que tornas as coisas tão difíceis, o que te leva a buscar lá fora o que tens em casa, por acaso eu te falto? Achas que eu mereço essa dor, essa humilhação?, um poço de egoísmo Inácio, é o que tu és - não se enganava; sou um homem na contemplação obsessiva da própria dor. (pag 81)

Marília Arnaud possui um poder indescritível sobre a forma de relatar acontecimentos do dia-a-dia de sua personagem que foi construída minuciosamente a cada folhear.

Um livro reflexivo que não deve ser lido as pressas, nem no desespero para finaliza-lo, cada linha é uma reflexão e exige um certo cuidado com as interpretações.

Um contexto louvável, diria eu que, o melhor de Marília Arnaud desde Suite de Silêncios



A obra recebeu um cuidado e carinho especial por parte do selo Tordesilhas. A capa é em brochura com um acabamento uniforme e fácil de manuseio. O papel usado é o Lux Cream, 70g. Impecável em todos os sentidos, como todas as publicações por parte da editora. 

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