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[CONTO] SE UM PENSAMENTO EM UMA NOITE DE INVERNO


O domingo chegou como sempre e o sol que há muitos dias não brilhava despontou no céu como se tivesse estado ali por todo o tempo que o inverno permaneceu. Mas não foi assim; quando o outono se aproximou ele saiu de cena e deixou o céu escuro, com nuvens negras de chuva e frio. Agora, estava de volta e brilhava festeiro.

A cidade dormiu preguiçosamente e acordou com um dia matreiro de verão. Era domingo de sol e dia de parque, de encontrar a família, macarronada, vinho, amigos em casa, sorrisos, alegria, futebol na TV e de ir dormir cedo para trabalhar na manhã seguinte. Contudo, antes mesmo era domingo de sol, dia de parque.

Você desperta, olha ao seu lado e nota um estranho agarrado ao seu tronco como se tivesse ele nascido grudado ali, e pensa na estranheza do fato, magistralmente sua consciência a desilude de tal estranheza pois a verdade é que ele não tinha sido de fato estranho, pois na noite anterior, que seu corpo tremia de frio e suas mãos estavam geladas, no momento em que seu sangue parecia que iria congelar, ele permaneceu contigo como se fosse seu cobertor lhe aquecendo, segurando sua mão, acariciando vez em quando seu rosto e olhando para você com aqueles olhos castanhos claro ou escuros, pois você não soube definir pois o frio intenso digladiava com seu corpo. Porém nada muda o fato que você estava gostando de ele estar ali. 

Uma taça de vinho aqui e outra ali, você o convida para que possam caminhar pela rua gelada da estranha cidade, que tem se tornado para você um monstro suburbano de prédios.  Suas paredes cheias de outdoors, ruas demarcadas por grande quantidade de placas e sinais, fervilhando pessoas de todos os cantos do país e quem sabe mundo. Bancos espalhados pela calçada, nas entradas de condomínios e algumas praças que ainda conservavam os antigos bancos de madeira, árvores tão antigas quanto alguns prédios, cachorros perdidos, lixo espalhados pelas calçadas, ratos...

Ele o segue pelas ruas ou você o segue tentando entender o que aquela simples pessoa está querendo lhe mostrar. Gesticula de maneira peculiar, seus dedos estirados para o ar apontam o céu escuro; de repente a torre de alguma estação de TV, outra hora um condomínio ou um prédio qualquer pela rua que estão passando e que ali morou alguém muito importante para a democracia do país.
Quem era esse mesmo?  Você pergunta. Ele explica pacientemente sorrindo por pensar que você gosta de ouvi-lo falar e não de sua ignorância.

Verbo ad verbum tenta entender o que ele fala, ainda assim tudo o que ele diz de alguma maneira te soa estranho. Pode ser o frio que a consome ou a vontade que tem de devorá-lo, quem sabe esteja ainda entrando em algum jogo sádico e sedutor que ele está fazendo? Às vezes ele para de falar e fixa em você com aquele olhar de bandido, ou de contemplação, e sorri – Ele gosta muito de sorrir. Você nota que ele lhe deseja de maneira real, natural e simples. Em seguida volta a falar sobre as rodas do mundo e sobre anseios que não consegue entender.

Por ventura percebe que não é tão ruim estar com ele, pois o tempo passa de maneira peculiar e o Taedium Vitae que leva, torna-se melhor, suportável. 
Assim as esquinas vão passando cada vez mais depressa; em contraponto o tempo não se afoba a gosto de passar. As pessoas em seus carros ilusoriamente almejam a velocidade da luz a fim de chegar a seus destinos. Passam por vocês tão rápidos e tão desembestados para uma noite de inverno. A última noite de inverno.

Ser o que ele deseja que você seja tornar-se algo que nem mesmo você quer, intimamente é sabido por ambos que o tempo é senhor da razão e a emoção não se faz tão relevante quando existe uma redoma em torno de si. Foi assim que você conduziu sua vida, em uma redoma, logo que decidiu terminar seu relacionamento anterior. 
O pobre diabo de seu ex-namorado, vivia a te encher de carinho, mimos e presentes para que você não necessitasse buscar na rua o que estava ao seu lado. O sexo com era maravilhoso e te fazia bem. O jeito que ele tocava seu corpo e beijava seu pescoço fazendo com que você entrasse em êxtase era diferente todas as vezes que vocês faziam.

Ele levava aos melhores restaurantes, viam as melhores peças teatrais - ele adorava teatro - viagens maravilhosas nas praias do Norte, nas ilhas do Sul, para os Andes, Argentina, Paris e Amsterdã. 
Já havia se passados alguns anos, verdadeiramente três anos que estavam juntos e tudo parecia que tinha começado naquele dia. Ele era sagaz em fazer com que você se apaixonasse por ele todos os dias. E vocês eram apaixonados um pelo outro, sempre foram.
Entretanto, você não se contenta com o que lhe dão e não sabe viver sem querer sempre mais. É conhecida do Ser Humano a ganancia sórdida que acaba por destruir ao invés de construir.  Não importa qual seja a situação, você sempre deseja viver e ter muito mais. 

Procurou em todos os lugares algo que lhe satisfizesse e o traiu. Traiu não por estar traindo alguém que lhe fazia mal, mas porque sentiu desejo de ser desleal, infiel, sem compaixão, desfavorecido de empatia e frívola. 
O antagonismo de sua história e castigo por sua crueldade é que para o bem de todas as verdades existentes entre ambos e todas as mentiras criadas por você, ainda o amava e post factum , você passará a amá-lo ainda mais.
 Todavia nada muda o fato de que você o traiu. 

Por escolha própria sem que ele soubesse o verdadeiro motivo, o convida para jantar em um desses locais agradáveis para se ter uma conversa triste de pessoas adultas e não serem incomodadas. No decorrer da refeição em meio a uma taça e outra de vinho branco, acompanhado de salada, você o informa sobre o fim do relacionamento. Lista mil e um problema que ele tem ou que transpareça existir entre vocês e termina – o golpe final, você diz que são de mundos diferentes e que não poderia mais dar certo. 
Todos os dias assim que acordamos nos é ofertado o retrato da vida - dispomos nossa lousa perante o reflexo do espelho, pois são em nossos olhos que os sentimentos podem ser observados e compreendidos - os olhos dele – no momento em que você dizia toda aquela enxurrada de palavras desconexas – estavam marejados, demonstrando claramente que a magia estava se rompendo.

Você se movimenta para sair, mas ele insiste para que concluam ao menos o jantar, lutando para manter o olhar firme e não demonstrar nenhuma tristeza, vocês comem, em seguida ele paga a conta e se vão.
No caminho da sua casa; você vai pensando em quantas vezes aquela pessoa que agora nada mais é que um amigo, te fez sorrir naquele trajeto. Quando ele estaciona e sorri, você o beija no rosto e antes de sair olha nos olhos a tristeza e percebe a decepção estampada. Ele chora por você, por sua insensibilidade de não perceber que ele queria muito te fazer feliz e por não entender que ele te ama de qualquer maneira e por mais que tenha demonstrado para todos sem omitir, você se vai. Uma última olhada para ele que engole em seco qualquer que fossem as palavras que te diria e ainda sorri com o gosto amargo de angústia e desilusão e sem pestanejar segue.

Não era para ser assim, você tenta se iludir, mas a verdade latente é que foi assim que aconteceu. Jogaste fora o seu amor verdadeiro – amor verdadeiro, essas duas palavras perseguem a humanidade por toda a sua existência, faz com as pessoas o busque durante todos os dias de suas vidas, uns os encontram, outros apenas sonham e jamais saberão como o é, outros encontram e o desmerecem -  por uma aventura de uma tarde de março que não supriu suas expectativas. 

Ele te encontrou no shopping com aquela cara lavada que tinha -  afinal você não o viu mais então não poderá dizer que ele tem mesmo a cara lavada - com aqueles olhos sedutores e a boca que lhe dava desejo enorme. No fim das contas, ele te leva à um motel barato, paga uma bebida e uma hora depois vocês saem de lá satisfeitos. Ele com a mesma cara lavada, só que dessa vez de cara lavada feliz e você se sentindo-se suja, puída, horrenda, desenganada por si mesma e traidora. Você estava sendo o que pensava em ser, uma traidora.
Vocês param para beber alguma coisa enquanto você silenciosamente faz seu desencargo de consciência.

Ele te deixa na porta de sua casa, você desce apressada do Ford preto – ao menos era esse o modelo do carro e a cor, que você viu – não guarda a placa dele, pois poderia parecer que você necessitava dele pela segunda vez, o que não era verdade. Você não ousaria encontra-lo nunca mais; primeiro porque ele beijava muito mal; segundo o sexo com ele não podia se comparar com o outro, que lhe amava e que você iria dispensar da sua vida logo mais.
Pensamentos que te assolam no meio da madrugada em uma noite de inverno.
Agora está andando pelas ruas outra vez, com outro estranho ao seu lado lhe falando coisas que você nunca fez questão de saber e nem fará questão de entender. 

Pergunta a si mesmo se está ficando velha ou feia demais para estar com alguém assim. Por certo, é sabido que se não for ele não será ninguém. Sim, não será, pois sempre se lembrará dele e de tudo o fez por você. Isso se chama consciência pesada e em seu coração um sentimento desconhecido irá florescer, criar raízes tão profunda que quando chegar seu tempo de morte, ele irá definhar contigo levando-a como iguais. Terá por codinomes, tristeza, desengano, solidão, amargura, mas seu nome será saudade
Tal será seu destino devido a uma desafortunada escolha que fez não poder tornar ao passado e resgatar tal amor pois, na semana que se segue o viu entrar em um restaurante semelhante ao que ele te levava, com outra. Ela não era bonita e nitidamente destoava dele. Aparentavam felicidade, sorria muito para ela e a gracejava. 
Ao vê-los, orgulhosamente se fez de forte, passou por eles e nem ao menos olhou para trás, para ver se ele havia reconhecido. Se tivesses tornado a olhar perceberia que ele estacou na porta do restaurante e te seguiu com o mesmo olhar de sempre. Ora, você saberia dizer que olhar era aquele, apaixonado, desejoso e cheio de saudades como sempre foi. Ele ficou ressabiado de ir atrás – pois você não olhou para ele – afim de saber como estava ou se entrava no restaurante com a outra. 

Mas é claro, isso você não poderia saber mesmo se desejasse. Você não se virou para olhar, ele saiu e lhe deixou. 
Como se tivesse sido acordada de um sonho ruim, você volta a si e olha para seu lado; ele está ali ainda, falando, gesticulando e mostrando a você, seu prédio. Educadamente o convida para entrar e ele aceita. Era para não aceitar, pensa. Mas ele aceitou. Vocês sobem as escadas e chegam ao primeiro andar, porque seu prédio não tem elevador. Você procura na bolsa sua chave e entra, ele lhe segue. Se lembra de quantas vezes subiu aquelas escadas com ele e quantas vezes ele lhe carregava no colo para que não cansasse na subida. Ele chegava ao primeiro andar morto de cansado e ainda assim fazia amor com você por várias horas; mesmo depois de um dia intenso de trabalho e de muito estresse; ele realmente te amava do jeito que você era. Sim, do jeito que você era. 

Agora têm esse estranho na sua casa, que irá dormir contigo para não ficar sozinha já que tem medo de seus próprios fantasmas de sábado à noite, pois era aos sábados que ele chegava cedo para ficar contigo a noite toda e te fazer a pessoa mais feliz do mundo.
Vocês se deitam e ele te abraça. Logo pensas, “amanhã será domingo, dia de parque.”
A noite transcorre e quando você acorda, percebe que o domingo chegou como sempre e o sol que há muitos dias não brilhava despontou no céu como se tivesse estado ali por todo o tempo que, entretanto, talvez você não vá ao parque, pois o sol não está tão bom quanto gostaria que estivesse ao menos para você ele brilha muito fraco, porque sua vida tornou-se um inverno sem fim, banhado de vermelho com sangue inocente. Volente nun fit injuria .

@Jander Gomes

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