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    domingo, janeiro 29, 2017

    [ENTREVISTA] Victhor Fabiano - Gritos políticos e suspiros poéticos

    Acervo pessoal do autor

    Victhor Fabiano é paulista de Pirituba, autor de diversos livros, tendo publicado dois deles em formato físico. Seu primeiro livro “O Lavrador e o Plebeu” teve o lançamento da sua primeira edição em 2012. O seu segundo livro “O Epitáfio” foi lançado em 2013. Sempre envolvido com questões sociais, os livros de Victhor nos levam a reflexões sobre comportamentos e convivência em sociedade, além de investigar sentimentos de poder e hipocrisia.



    Segue abaixo a sinopse do segundo livro do Victhor, “O Epitáfio”:



    Reprodução


    Sinopse:

    Arturo permanece forte até o momento em que é iminente o perigo de se contaminar com o poder daqueles que buscam sua queda; é momento de abandonar. Após seu próprio partido ser diluído por impostores políticos, há o perigo de uma seita tomar os caminhos do governo. Por trás de uma sólida base de governo, há um veneno puro traçando aqueles que não estão em vigia; quedas drásticas, uma crise social e econômica terrível e o pior: o engano diluído pelos sábios. A cadeira vaga de Arturo foi a maior arma dos infiltrados. Resta lutar, buscando levar a verdade a todos, até que haja a necessidade de armas. De qual lado você estará?


    ENTREVISTA



    Catraca Seletiva: Como nasce um romance?

    Victhor Fabiano: Dos conflitos e contradições da realidade. Até mesmo o mais ficcional dos enredos nasce da mais pura realidade e de suas limitações; exatamente destes pontos nascem as histórias mais simples às mais complexas. Imagine, por exemplo, um romance enquanto uma peça descolada da realidade, seja ele policial, político, romântico... As narrativas precisam atentar-se aos conflitos do real e deles mesmo se alimentam. Mas falando mais especificamente, dos devaneios e estalos que temos, um romance nasce de uma observação inesperada, muitas vezes de uma ideia cujo fio lógico possui vocação para uma aldeia de detalhes. Alguns nascem de observações banais, outros de observações mais atentas. Mas os processos mentais que levam ao romance são todos históricos e sociais.

    CS: Você prepara alguma espécie de roteiro, com descrição de personagens, cenas, pontos de convergência, ou apenas segue o instinto e escreve com a emoção? 

    VF: Escrever com a emoção pode ser um risco sem volta. Já escrevi, sim, com a emoção e em tais vezes o resultado foi bom. Mas, após amadurecer e escrever diversos enredos, passei a me ocupar inicialmente da construção mais específica dos lugares, personagens e sobretudo dos detalhes do espaço-tempo. Faz toda diferença no momento de construir a narrativa e com certeza o leitor também sente esta segurança. Por exemplo: estruturar o enredo em tópicos principais possibilita a visualização e a organização da história de modo mais maleável.

    CS: Numa de suas melhores frases Clarice Lispector nos disse que escrevia no intento de salvar a sua própria vida. E você Victor, por quê você escreve? 

    VF: Escrevo para transbordar mensagens. Em muitos momentos nos vemos avessos às contradições, às perversões, desigualdades e dominações, mas não sabemos para onde correr, sequer o que fazer - citaria aqui o texto de Lenin, revolucionário russo. Claro: não acredito que apenas a literatura seja capaz de transformar o mundo, mas pode instrumentaliza-lo e comunicar. Então, busco sempre escrever para transbordar mensagens. Sim, salvar minha vida também está em jogo (risos), mas existe a história da humanidade e ela precisa ser escrita pelos seres humanos. Tomemos então nas mãos a narrativa das lutas, penso eu. E vamos escrevendo ela. Por isso eu escrevo.

    CS: Você acha importante que exita uma literatura de representatividade?

    VF: Sim, a representatividade pode ser um eixo importante neste papal de lutas e transformações que tem a literatura e precisa cada dia mais ter. Mas não basta apenas termos a representatividade, é necessário que haja efetiva militância pela transformação geral. Mas é, sem dúvida, um grande passo.

    CS: Victhor, os seus dois romances que você tem publicados, um deles “O Lavrador e o Plebeu” é histórico, e o outro “O Epitáfio” um romance político, neles você além de trazer uma narrativa concisa e madura trata de temas sociais e políticos. Você acha importante isso, que a literatura além de ser um meio de entreter seja uma ferramenta de denúncia?

    VF: Na minha opinião este é e deve ser o principal papel da literatura: denunciar. Se não, torna-se receita de bolo, ou seja: apenas vomita informações. Nisso não há interesse. É interessante que haja força motriz na literatura para despertar curiosidades e anseios progressistas na consciência dos jovens, crianças e adultos. Não de propósito, mas por coincidência e interesse de escrita, os enredos dos meus dois livros publicados abarcam as temáticas de conflitos e transformações no seio de sociedades largamente desiguais. É uma mensagem didática ao leitor, para que busquemos uma construção nova do mundo. Nas escolas, por exemplo, dizendo aos estudantes que falar sobre política pode não ser simples, mas é possível e imprescindível. Os romances, contos, crônicas, poemas etc carregam em sua missão a possibilidade de falar aos mais desavisados sobre conflitos que a academia está um pouco longe de disseminar, ilustrando e tomando o conhecimento como arma da imaginação.

    CS: Como nasceu a história de “O Lavrador e o Plebeu”?

    VF: Após entregar um trabalho de duas páginas à professora Isabel Toledo - que hoje é minha grande amiga e parceira nos projetos de literatura - recebi um elogio da mesma, me encorajando a prosseguir aquela história. A redação é, hoje, o primeiro capítulo do livro. Os outros capítulos são os desafios que, à época, aceitei. Este ano fará cinco anos da publicação de O Lavrador e o Plebeu, que ganhou a terceira edição em dezembro passado.

    CS: Você costuma escutar alguma coisa enquanto escreve? 

    VF: Raramente. Às vezes escuto música clássica.

    CS: Ler clássicos é algo importante, tanto na formação do escritor, quanto para a valorização dos nossos tesouros nacionais. Resumindo tudo que tu já leu a vida até hoje, fala três autores nacionais clássicos que te influenciam.

    VF: Gosto muito de Jorge Amado, Machado, Carlos Drummond, mas particularmente indicarei apenas um: Machado de Assis. O único com quem possuo real afinidade na hora de ler e gostar. Mas o Drummond, também, mexe com meu coração.

    CS: E os contemporâneos, há algum que você indicaria como leitura para a gente?

    VF: Nos últimos anos poucos enredos e formas de escrita chamaram minha atenção. Me marcou muito uma leitura que fiz há anos. A adaptação de Tristão e Isolda feita por Helena Gomes. Cativante! Sérgio Vaz também é muito valente em sua escrita.

    CS: O que você acha que não pode faltar em um escritor, não apenas na sua escrita, mas na sua personalidade enquanto criador?

    VF: Curiosidade para conhecer novos caminhos e realidades. Esse fator é essencial. Mas outro desponta quando penso em sua pergunta, quando penso nos atributos de um escritor: sensibilidade. Um escritor sem sensibilidade é uma caneta morta, uma página sem vida.

    CS: Agora, pelo amor de deus, mate a nossa curiosidade e fale quem é Madame Morrá?

    VF: Mas tão cedo?! (risos) Bom, não sei se posso falar muito... Mas vamos lá: Madame Mórra representa, enquanto personagem, os aspectos mais intrigantes e profundos do que costumo chamar de decadência (quando alguém ou algum grupo decai social e economicamente por razões diversas). Tal decadência influi diretamente na vida de Mórra e em sua vida mental: por não ser mais quem era e por cair na miséria e solidão, desnuda aos leitores o mais profundo dos ódios e desejo de vingança, por mais que não haja um culpado se não a própria riqueza que se esvai. Pois bem, como havia dito a literatura necessita estar colada à realidade e às suas contradições. E é exatamente o que Guerra da Minha Rua busca fazer. A riqueza, advinda dos ciclos de desigualdade e exploração, dá aos exploradores a ideia de que são seres acima do real. Mas não são. Guerra da Minha Rua vem para ilustrar esse movimento; e Mórra é quem vai nos dar esse gosto ficcional ao causar a tão explícita guerra, como leva o título do livro. Envolve mistério, características do cotidiano da já senhora Mórra, análises históricas do passado de sua família, tão envolvida com a política e economia. Vai além de um enredo de suspense ou algo parecido.

    CS: Como surgiu a história de Guerra da Minha Rua?

    VF: De um momento de devaneio e observação. As palavras combinaram-se na minha mente e o enredo foi surgindo, até criar corpo criativo e uma sequência de fatos. Mas pesou bastante a necessidade de centrar a narrativa em três conceitos básicos: conflito, vingança e decadência.

    CS: O que a gente pode esperar desse romance?

    VF: Na verdade, Guerra da Minha Rua é um conto longo acompanhado de outros contos adicionais relacionados diretamente à história de Madame Mórra. O livro Guerra da Minha Rua leva o nome do conto principal mas possui outros textos, incluindo crônicas, microcontos e poesias.

    CS: Quando ele chega?

    VF: Ainda neste semestre, espero. Acho que em Abril.

    CS: Há mais alguma coisa sobre Madame Morrá que precisamos saber?

    VF: Ela pode estar dentro de todos nós. Precisamos analisar friamente.

    CS: O que você tem a dizer para os teus leitores e os do Catraca Seletiva?

    VF: Minha felicidade em estar aqui neste site é imensa, principalmente por conta de um convite tão querido. Aos meus leitores: obrigado pela força e pela confiança. Principalmente aos leitores que levam os livros às escolas e abrem caminho para o diálogo com estudantes que tanto prezo e gosto. Acreditar na literatura é uma força essencial. Às leitoras e leitores do Catraca Seletiva: obrigado a você que leu a entrevista até o fim. Costumo convidar as pessoas a cativar uma literatura de denúncia e de transformação; acho um convite sempre imprescindível, ainda mais em tempos tão difusos.

    CS: Respondendo a pergunta do Victhor. Bem, em se tratando de questões políticas tenho andado um pouco afastado. Já participei de movimentos, mas certa desilusão me tomou. Não digo que desisti, mas no dado momento não tenho forças nem para lutar, nem para projetar qualquer coisa que seja. No entanto, espero do fundo do meu coração que as coisas melhorem, não só no âmbito político, quanto no social. Que a corrupção seja extinta e que a liberdade de expressão não seja confundida com intolerância e autoritarismo.



    E ah não se esqueçam, essa senhora é responsável por um episódio gravíssimo conhecido como Guerra de Minha Rua, se a virem por aí por favor, ajudem!



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