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    sábado, fevereiro 11, 2017

    [ENTREVISTA] Cínthia Zagatto — Autora de "Sake"

    Cínthia Zagatto | Divulgação

    A nossa entrevistada de hoje possui um histórico e tanto. Cínthia Zagatto (24) nasceu em São José dos Campos (SP), formou-se em jornalismo literário e atualmente trabalha com vários projetos para que o mundo possa compreender e respeitar a realidade dos fãs.

    1. Como nasceu o seu relacionamento com a escrita?

    R: Existe uma história entre a minha família que eu costumava escrever livrinhos, quando criança, e vendê-los para a minha avó. Eu não sei se me lembro bem disso ou se é uma memória inserida, de tanto que ouvi sobre ela. O que eu me lembro é que uma autora adolescente veio à minha escola para uma sessão de autógrafos quando eu tinha uns oito anos e que eu achei o máximo e queria ter o meu livro também. Mas eu me lembro de ter começado a escrever de verdade com 13 anos, quando descobri as fanfics. Eu era fã de uma banda e estava pesquisando a biografia dela quando caí em umas histórias esquisitas. Quando vi, já estava apaixonada por elas e começando a escrever as minhas também.

    SAKE 
    2. Qual foi o primeiro livro que você escreveu? E como surgiu a ideia de escrever um livro?

    R: Meu primeiro livro escrito e publicado é “Sake – Nossa história oficial”. Em 2013, enquanto escrevia meu TCC na faculdade, fui de São Paulo ao Rio de Janeiro para entrevistar a autora Babi Dewet (“Sábado à Noite”, “Um Ano Inesquecível”, etc.). Eu estava me formando em jornalismo e escrevi um livro-reportagem com histórias de 5 fãs – para quem não sabe, a trilogia “Sábado à Noite” da Babi começou como uma fanfic da banda McFly na internet. Eu conheci bastante sobre o processo dela como autora independente até chegar a uma editora e, embora eu já quisesse publicar um livro, isso quebrou bastante a ideia que eu tinha de que esse sonho era inalcançável. Contando para os meus pais sobre a história dela, ainda no Rio, meu pai me perguntou quando eu lançaria, então, o meu próprio livro. E aquela coceira que me deu na hora só foi aumentando. O resto está completamente relacionado com o que contei na primeira pergunta: depois que decidi que queria sair das fanfics para publicar um livro, fiquei pensando em que história eu gostaria de escrever para sair da internet pela primeira vez. Eu logo soube que precisava ser uma história exatamente sobre esse mundo do qual eu estava vindo: fãs, fanfics e o mundo online. Assim surgiu “Sake”. 

    3. Quais suas principais inspirações literárias?

    R: Eu não sou muito fiel a um autor, verdade seja dita, mas acho que é dessa mistura que eu me formei: a “trilogia Garoto” da Meg Cabot, toda escrita em troca de e-mails, mensagens, memorandos, etc. Li quando era adolescente e foi grande parte da minha influência no gênero young-adult. Sou apaixonada pela escrita do Dan Brown, por como ele detalha os cenários de uma maneira que você visualiza bem e como o narrador dele sempre tem uma voz muito clara na minha cabeça. Dia desses fiquei horas me perguntando de qual filme era uma frase introdutória que estava grudada em mim e eu conseguia até mesmo escutar a voz do narrador falando. Descobri que era o início de “O Símbolo Perdido”, o único da sequência Robert Langdon que não virou filme. Ainda sobre uma voz autoral que me prende muito, preciso citar o Stieg Larsson. E mais recentemente, descobrindo os young-adults LGBT, especificamente o “Dois Garotos se Beijando” do David Levithan se tornou mais do que uma inspiração pra mim. 

    4. O que você considera mais difícil durante a escrita de uma história?

    R: Não sei se difícil, mas o mais desafiador é encontrar a carga emocional dos personagens, a personalidade deles, as sutilezas que fazem com que todos pareçam reais e as diferenças entre um e outro. Meus livros preferidos são livros em que eu consegui me conectar com os personagens, então eu tento sempre dar a maior atenção possível a isso. Acho que cheguei agora na palavra “difícil”: justamente por tentar fazer parecer real, o mais difícil para mim são os diálogos. Você pode escrever vinte páginas maravilhosas, mas uma frase robótica ou cheia de gírias demais que saia da boca de um personagem quebra toda a vibe que você construiu – pelo menos para mim.

    5. Quando decidiu se tornar escritor?
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    6. Qual de seus personagens você mais gosta?

    R: Tem uma garotinha em “Sake” que se chama Rachel. Ela mal aparece, então não vou falar muito sobre ela. Tudo o que posso dizer é que foi uma delícia escrever as poucas cenas em que ela estava.

    Cínthia Zagatto
    7. Como você sente quando recebe um comentário positivo acerca de sua obra?

    R: “Sake” está bem no começo das vendas, mas eu tive a sorte dele ter caído nas mãos de gente muito querida até agora. Eu também recebi alguns comentários muito legais na época das fanfics e acho que o que esses comentários mais me trazem é o sentimento de dever cumprido. Falando por mim, primeiro eu escrevo porque gosto e porque quero que algumas histórias que me vêm à cabeça não fiquem apenas dentro dela. Depois, quando você não quer que essas histórias fiquem na sua cabeça, é óbvio que você quer leitores. Saber que ao menos um desses leitores que confiaram em você e pegaram a sua história para ler está saindo dela de coração cheio, partido, emocionado, feliz, como quer que seja, é muito gratificante. Em um mercado tão competitivo, elogios são uma grande vitória pessoal e um incentivo a continuar lutando para que sua obra chegue a mais pessoas.

    8. Pretende escrever novos livros? Tem algum projeto em mente chegando?

    R: Sim! Vários projetos em mente, mas nenhum muito perto de chegar. “Sake” ainda está no comecinho da divulgação, mas a ideia é que haja uma continuação e um spin-off.

    9. Qual gênero literário você mais se identifica?

    R: Young-adult LGBT. Foram anos de fanfics nesse gênero. É muito difícil perder o gosto por histórias desse universo ou superá-las com qualquer outra.

    10. O que você diria para as pessoas que estão conhecendo tanto você, quanto a sua escrita agora?
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    11. O que as pessoas devem esperar da sua escrita?

    R: Eu não uso palavras difíceis, nem descrições muito complicadas. Lendo qualquer um dos meus textos, eu quero que você esteja na cabeça dos meus personagens e entenda como eles veem e sentem as situações pelas quais eles passam. Não sei o que as pessoas podem esperar da minha escrita, mas sei o que eu espero quando escrevo: espero que o leitor sinta e vibre com os personagens, que se apaixone por eles ou os odeie, que ria nos momentos bobos, que se chateie ou se irrite em outros. Em “Sake”, quero que todos se lembrem como é bom ser um fã, torcer por um artista, amá-lo, odiá-lo, ir atrás dele, se conectar com suas músicas, etc. Eu quero sempre que um leitor possa se sentir parte da história de alguma maneira.

    12. Qual passagem do seu livro te marcou mais? Existe um trecho que você goste mais que os outros?

    R: Tentando responder isso sem dar spoilers e fazendo um resumão bem breve de “Sake”, ele conta a história de dois artistas que se conhecem, começam a namorar e acabam virando um ship (um casal queridinho) entre os fãs na internet e a mídia. Com isso, o livro tem dois momentos: um primeiro em que eles estão se conhecendo e um segundo após a mídia descobrir. Essa virada para mim foi bastante importante; eu até escrevi cada uma dessas partes em lugares diferentes, por coincidência. Quando eu terminei de escrever essa cena, eu acreditei que tinha dado exatamente o tom da personalidade de um dos personagens e que isso era a chave para a história seguir adiante. Está lá no final do capítulo 25 e o livro termina no 57.

    13. Como foi a recepção do público com relação ao seu primeiro livro?

    R: Está sendo bastante boa. Acho que muitos leitores, blogueiros, booktubers têm apoiado a literatura LGBT. Eu não recebi nenhum comentário verdadeiramente desagradável e tem muita gente dando muita força.

    Cínthia Zagatto
    14. O que te inspira a continuar escrevendo?

    R: É meio caótico, às vezes. Não sei se dá para chamar de inspiração, mas é mais ou menos assim: se não escrevo, fico com todas as histórias entaladas na garganta. Se começo a escrever, tenho várias delas querendo passar na frente umas das outras.

    15. O que você diria para alguém que está iniciando a escrita do seu primeiro livro?

    R: Escreva sobre o que você gosta e faça com dedicação pelos motivos certos. Você nunca vai agradar a todos, mesmo que você queira bater o pé e ser o primeiro artista do mundo a fazer isso, então se preocupe com o público que você quer atingir com a sua obra e seja fiel a ele. Entregar um manuscrito para a sua tia de 40 anos ler, sendo que seu público são garotos de 15, provavelmente só vai te deixar frustrado com os comentários que ela fizer sobre o seu texto.

    16. Na sua opinião: Qual o pior erro que um autor pode cometer durante a escrita do seu primeiro livro?

    R: Não carregar leitores betas com ele. Não só no primeiro livro, a opinião de quem está em contato com a obra pela primeira vez é muito importante para ajudar um autor a corrigir erros, tampar buracos, ajustar falhas no enredo, nas personalidades dos personagens, em tudo. Para mim, estar rodeada de betas confiáveis é muito importante.

    17. Onde podemos encontrar seus livros para compra? Qual você indica que nossos leitores conheçam primeiro?

    R: Bom, como é apenas um, você pode encontrar “Sake” por encomenda nos sites da Livraria Cultura, Livraria Martins Fontes e Livraria da Travessa. Você também pode pedir os livros nas lojas físicas da Livraria Saraiva e Livrarias Curitiba. O ebook está à venda no site da Chiado Editora e os links estão todos na página do Facebook: /livrosake.

    Lançamento do livro "SAKE"
    18: Qual a sua opinião sobre a literatura nacional nos dias de hoje? Acha que é bem divulgada pelos blogs literários e editoras?

    R: Acho que existem nomes de peso no mercado e que muitos autores novos estão chegando com muita força. Ao mesmo tempo, o mercado é muito competitivo, tanto aqui quanto lá fora, então alguns autores terão mais divulgação que outros. Também existe um pouco de preconceito ainda em grande parte dos leitores – aquela inclinação a comprar o livro do autor gringo se estiverem entre dois títulos e um deles for nacional. Tudo precisa ser mais divulgado, até mesmo por causa disso. Quanto mais divulgação e mais críticas positivas sobre uma obra nacional, mais se evita esse pé atrás. 

    19. Se você pudesse dar um conselho para os seus amigos escritores por meio desta publicação, o que você diria a eles?

    R: Não sei se estou em posição de dar conselhos no momento, mas uma coisa um pouco feia que tenho visto são alguns autores criticando cada ação e decisão dos colegas de profissão. Não precisa disso, até porque não existe um modo mais certo ou melhor de fazer as coisas. Cada um deve fazer sua história, sua divulgação, sua capa, sua carreira do jeito que achar melhor e isso é bom.

    20. Obrigado pela oportunidade de conhecer um pouco mais de seu trabalho. Sucessos!

    R: Obrigada também por essa iniciativa tão importante pra literatura nacional.

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