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    domingo, fevereiro 12, 2017

    Homem não chora, nem lê romances

    Sobre o TABU dos adeptos masculinos ao gênero romance na literatura
    NÓS não estamos falando de você, estamos falando de um coletivo de homens que não procuram ter acesso ao gênero romance por pura pressão. Desde cedo nós homens somos ensinados pelos nossos pais que cor-de-rosa é exclusivo de meninas, novela é coisa de mulher, shopping é coisa para adolescentes e quem controla a casa, é o homem. Querer ensinar é uma coisa, porém, os tempos mudam e as pessoas aprendem com o evoluir dos anos que nada será como antes, e que as coisas hoje em dia não são as mesmas de onze ou vinte anos atrás.

    A literatura em si no Brasil tem se tornado precária. Vivemos em um século onde a evolução e a escrita avançam, enquanto o mérito, consideração e a admiração pelo trabalho do escritor é banalizado. As pessoas tendem a achar um horror entrar em uma livraria e pagar trinta reais por um livro novo, elas não entendem que aquele livro possui um alto custo de produção para todos os envolvidos na realização do mesmo. Ontem eu falei com uma amiga minha que me disse que não aceitaria de forma nenhuma o filho ler um romance, afinal, isso é coisa de menina, porém, a filha sempre vê muitos filmes da Disney na televisão da casa, e o filho? Era retirado e colocado para brincar do lado de fora com os vizinhos, por que carrinho era coisa de menino, romance, não.


    Eu não acho que existe um preconceito apenas com o romance, mas com a literatura como forma  de entretenimento em geral. Porém, a grande quantidade de leitores que tem se aberto aos diversos gêneros vem colocando esse pensamento ultrapassado de que a literatura de entretenimento é literatura de baixa qualidade em um patamar cada vez mais inferior e constrangedor. Esperemos que isso venha como um movimento de maior liberdade cultural e mentes mais abertas e receptivas — Ju Mendes

    Pensando em todos os problemas literários que circundam o nosso querido e amado país, eu convidei seis escritoras fantásticas do gênero romance para debater as questões mais simples, porém, reflexivas do universo editorial e da propagação do romance.


    Por isso temos homens perfeitamente construídos para satisfazer todos os desejos femininos (dentro do mito) e mulheres que permitem a todas uma identificação - Tatiana Mareto


    O homem é visto como uma figura que tem que ser programada, ele não pode ter conceitos próprios, eles tem que ser moldados pelos ensinamentos dos pais. É, algumas coisas realmente ninguém ensina melhor do que nossos pais, porém, existem coisas que a gente só aprende quando decide de fato se entregar aos momentos, a vida e as sensações proporcionadas naquele momento.

    Gabriel Ellan (autor, poeta e dramaturgo) diz-nos que: "O preconceito evita que o crescimento do romance seja maior. Algumas pessoas (na maior parte delas, homens) adoram ler, mas evitam o romance por causa do certo preconceito que pode sofrer. Isso diminui consideravelmente o público que é grande, mas poderia ser maior."

    Não devemos negar que o romance é uma utopia para os escritores, por isso, não é incomum encontrar pessoas que não leem romances pelo simples fato de ser clichê. Poxa, como não ser clichê, não é? A utopia é o pensamento que induz o escritor a uma completa felicidade e harmonia com todos ou com um coletivo em específico.

    De acordo com a romancista Tatiane Mareto "Quem arrisca sair do clichê acaba, também, saindo do mito do amor romântico".

    O mercado editorial brasileiro está em crescimento constante no Brasil, e isso é maravilhoso, porém, existe sempre um probleminha nas entrelinhas e aqui não é diferente. Existe um lado que concorda que homens não leem romances pelo fato de ser algo mais feminino, outros porém, concordam que existe uma certa pressão psicológica causada nos indivíduos em uma sociedade que é considerada completamente machista. Mas, existe aquele lado que que não vê como um preconceito literário. 

    De acordo com Juliana Leite, autora do livro "Cadu": Acho que quando se fala em romance, pensa-se logo em universo feminino, restringindo assim o público alvo, que seria para qualquer pessoa.

    O que os escritores do gênero tem a dizer a respeito? vejamos:

    1.O que você acha que impede o romance de crescer dentre os demais gêneros literários?


    O romance ainda é o gênero menos lido pelo sexo masculino

    Juliana Leite: Acho que quando se fala em romance, pensa-se logo em universo feminino, restringindo assim o público alvo, que seria para qualquer pessoa.

    Gisele Motta: Não gosto de chamar de preconceito, mas acredito que muitas vezes o que impede o romance de crescer e até mesmo se destacar no meio de outros gêneros conhecidos hoje, seja essa visão antecipada que alguns leitores têm de que: ‘’Ahh, é romance... nem vou ler’’. E o livro passa batido, fica de lado. E o romance vai além de casais e histórias de amor. E sim. Sinto diferença no público. Acredito que a atração dos leitores pelo livro dependa muito dos elementos inseridos dentro de próprio gênero romance. O gênero dentro do gênero, assim dizendo. Um universo de ficção e sobrenatural por exemplo, tem grandes chances de agradar a geração de geeks e nerds.

    Tatiana Mareto: Encontro preconceito no próprio meio literário. Consideram escritores e escritoras de romances sub escritores, inferiores aos de fantasia, horror, etc. É como se o escritor ou a escritora de romance fossem menos qualificados do que outros e outras por produzirem literatura menos qualificada que outros e outras.

    Andreia EvaristoEu não acho que tenha algo impedindo os romances de crescerem, pelo contrário. A maior parte dos livros publicados (no Brasil e no mundo) são romances românticos, em todas as suas subcategorias. Há poucos anos, vimos o boom dos romances eróticos, mas os que fizeram sucesso são justamente aqueles que conseguiram aliar o erotismo a uma história de amor com um drama bem definido. Se não me engano, quase metade dos livros que são publicados são romances, o que demonstra que há grande público consumidor desse produto.

    Danka Maia: É curioso falar sobre isso atualmente. Porque no começo de 2005, a revista Superinteressante fez uma matéria sobre esse mesmo tema que começava assim: “Houve um tempo em que as listas de livros mais vendidos de jornais e revistas dividiam-se em 2 categorias. Na primeira, estavam os livros de ficção: Romances, novelas, coletâneas de contos. Na segunda, os livros de não-ficção: Memórias, biografias e ensaios literários”. Nessa fase a grande crítica era sobre os “novos livros de autoajuda”. Passam doze anos, e estamos voltando ao tema onde os livros de autoajuda já não oferecem “perigo” ao gênero romance. Dentro da visão da literatura nacional, para mim esse avanço é contido pela ausência de fatores que são importantíssimos para esse crescimento. Cito inovação, espaço no mercado literário e audácia por parte de nós escritores. Ah Danka, mas como assim? Brasil é um celeiro de talentos. O mercado literário não investe no autor nacional. E os escritores são muitos corajosos porque vão contra tudo e todos. Concordo. Plenamente. Eu também estou na luta aqui. Mas a pergunta é: Isso está sendo o suficiente? Não, ainda não é. Porque se fosse, o cenário seria outro. Ponto. Segundo tópico da primeira pergunta: Sim sinto. A sensação que eu tenho, é que o público que gosta de ler no Brasil não tem muita atração por essas categorias devido alguns fatores. É um fenômeno até curioso, porque na maioria das vezes é através deles que o gosto pela leitura começa. Acredito que isso aconteça porque as pessoas às vezes não conseguem diferenciar a temática de um conto, de um texto e de uma crônica. Parece que tudo é a mesma coisa. E não é. Cada um cumpre uma temática e estrutura narrativa e essa falta de conhecimento mais profundo pode gerar sim o desinteresse. Porque o leitor não compreende se essas estruturas foram oferecidas, cumpridas ou não.

    Gabriel Ellan Lobato: O preconceito evita que o crescimento do romance seja maior. Algumas pessoas (na maior parte delas, são os homens) adoram ler, mas evitam o romance por causa do certo preconceito que pode sofrer. Pra mim isso diminui consideravelmente o público que é grande, mas poderia ser maior.

    Graziele Fontes: Eu não acho que o romance não está evoluindo. Eu acho que de uns tempos para cá as portas se abriram bastante. Do mesmo jeito que a literatura nacional, aos poucos ela está ganhando espaço. Hoje em dia, muitos autores nacionais estão conseguindo se destacar, entretanto, acho que ainda há dúvidas de leitores quanto a literatura nacional, mas acho que isso é só questão de tempo para mudar.

    Ju Mendes: Eu não acho que existe um preconceito apenas com o romance, mas com a literatura de entretenimento em geral. Porém, a grande quantidade de leitores que tem se aberto aos diversos gêneros vem colocando esse pensamento ultrapassado de que a literatura de entretenimento é literatura de baixa qualidade em um patamar cada vez mais inferior e constrangedor. Esperemos que isso venha como um movimento de maior liberdade cultural e mentes mais abertas e receptivas.

    2. O clichê atrapalha o romance?


    Será que a linha de pensamento utópica seguida pelo romance, atrapalha o gênero se propagar?

    Juliana Leite: Acho que tudo são fases. Agora é a fase do CEO dominador. As coisas mudam, acompanham o modismo. Mas acredito que evoluam também. Antigamente a mulherada lia escondido, agora não há problema em assumir que curte romance, ainda mais sendo Hot. É moda! 


    Gisele Motta: Não, o gênero não se tornou clichê. Imagine a infinidade de obras para mensurar?! Creio que vai do momento. Tem época que um determinado tipo de contexto se destaca, por exemplo essa onda atual de livros eróticos. E então temos a impressão de que todos são parecidos, mas quem lê e aprecia as tramas, certamente discorda. Cada história tem sua particularidade, os elementos podem até andar de mãos dadas, mas a forma como são inseridos em cada livro, por cada autor, é diferente e única.

    Danka MaiaEu estou fazendo um curso de roteirista para TV e cinema, e uma das primeiras coisas que eu aprendi foi que toda história já foi contada. O que difere a trama é o modo como o autor/roteirista conta essa narrativa. Então, o clichê existiu, existe e sempre existirá. O que fará o Boom do enredo é o ponto de vista do narrador. Se você pegar os grandes livros e filmes épicos verá que lá está o padrão: Mocinha, herói, vilão. Mas o jeito como eles foram dispostos é o que determinou o sucesso. No meu módico olhar, as três palavras que podem eternizar uma trama são empatia, simpatia e antipatia. As transformações que aconteceram nesse gênero nada mais foram que toques de genialidade de quem os narrou usando essas palavrinhas mágicas.

    Andreia EvaristoComo professora de literatura, eu leio muito e de tudo, desde os clássicos até os contemporâneos (inclusive escritores iniciantes, em plataformas gratuitas). Existem livros que seguem fórmulas prontas e batidas - o famoso clichê - mas existem escritores que conseguem inovar. O amor, por si só, é clichê. Todo apaixonado fica brega e repete as mesmas bobagens, na visão de quem não está apaixonado. Isso tira o gostinho bom do amor? De forma alguma. Acho que o que os escritores precisam é aprender a dosar os clichês e surpreender os leitores em alguns momentos. É possível achar um equilíbrio.

    Gabriel EllanExiste sim uma grande fuga ao clichê hoje em dia, mas ele ainda domina a grande maioria. Afinal, não é todo mundo que está disposto a tentar algo totalmente diferente que pode não dar certo. O meu livro mesmo pode se divertir que faz parte da "fuga do clichê", mas existe alguns aspectos nele que preferi seguir um pouco da receita.

    Tatiana MaretoO romance É clichê, mas percebo isso em todos os gêneros literários. O romance reproduz o mito do amor romântico, e não parece haver muito espaço para criatividade dentro dessa perspectiva. Quem arrisca sair do clichê acaba, também, saindo do mito do amor romântico. Como as mulheres, maior parte dos leitores do gênero romance, são criadas dentro desse mito, que quase nunca acontece na vida real, elas esperam ver suas fantasias reproduzidas nas obras literárias. Por isso temos homens perfeitamente construídos para satisfazer todos os desejos femininos (dentro do mito) e mulheres que permitem a todas uma identificação. O clichê, no entanto, está em todos os gêneros literários, como podemos ver as "modinhas" que se espalham por aí. Autores e autoras de fantasia, super reconhecidos pela crítica e pelo público, por exemplo, usam diversos clichês em suas obras, tanto para a construção de personagens quanto para o desenvolvimento da trama. O clichê não é um problema, para mim, ele apenas não pode ser a essência da história.

    Graziele Fontes: Puxa, eu amo clichês! Acho clichê necessário, pois traz a realidade e o cotidiano da vida das pessoas e não vejo como escapar do clichê, pois sempre haverá uma cena simples, mas que tem algum valor e significado para a história, então isso que tem importância. As pessoas podem achar que tem como evitar o clichê, mas eu não vejo como e nem necessidade disso. Acho que transformar o clichê noa romances muda o significado dele e ele deixa de ser o que realmente é: clichê.

    Ju Mendes: temos histórias incríveis dentro do gênero romance e que são absolutamente clichês. Os clichês não são ruins. O que importa não é se a ideia já existe, se é clichê, se é mais do mesmo, o que diferencia uma história é a maneira como ela é trabalhada e contada.

    O que diferencia uma história é a maneira como ela é trabalhada e contada.

    3. Você concorda com a hipótese de que talvez exista uma pressão em cima dos homens que leem romances?



    Este preconceito parte dos próprios homens, a maioria tem medo do bullying por parte dos amigos que não irão deixar passar batido uma situação como essa, e começaram o famoso chamado "viadinho", fresco, mulherzinha e assim vai. Eles tem de por em suas cabeças que não é por que lê certo gênero que vai faze-lo mudar quem ele é. - Raquel Rasinhas

    Tatiana Mareto: Vejo muita pressão nos homens que leem romances. Como dito antes, o romance é um gênero literário para mulheres e, dentro de uma sociedade patriarcal (heteronormativa), homens que se aventuram a ler romances adotam comportamento desviante. Eles estariam saindo do estereótipo do macho estabelecido pela sociedade e ainda estariam consumido literatura de baixo intelecto, o que leva, consequentemente, a chacotas e críticas para com os que se arriscam. Acho isso uma grande bobagem que precisa ser eliminada com urgência. Homens podem ler romances, sim! Não só podem como devem, da mesma forma que mulheres podem e devem consumir outros gêneros literários. Essa pressão social para que o homem se adeque a determinados papéis é opressiva e não pode se sustentar na literatura também, temos que acabar com isso.

    Graziele Fontes: Com certeza acho que tem preconceito, ainda mais em um país machista como o nosso. Muitas pessoas cresceram ouvindo que homem não pode chorar, não pode ver novela, não pode brincar com brinquedo a de garotas e etc... mas isso tem a ver com a cultura, acho que aos poucos este paradigma vai se transformando. Alguns homens estão quebrando essa corrente.

    Andreia Fontes: Sim, existe muita pressão sobre os homens que leem romances, porque, historicamente, os romances eram destinados às mulheres da burguesia que viviam nos grandes centros e precisavam ocupar seu tempo livre - daí surgiram os folhetins, que publicavam nos jornais os romances, lançando cada capítulo numa edição diferente. Essa ideia de que romances são escritos para mulheres surge dessa forma, e é difícil arrancar esse preconceito do inconsciente coletivo. Além disso, meninos crescem ouvindo de seus pais que eles não podem chorar, que não podem ser sensíveis, que isso é coisa de "mulherzinha". Assim, eles aprendem que não devem se emocionar com histórias de amor. Já as mulheres são criadas para esperar pelo príncipe encantado, pelo amor que vai torná-la feliz para sempre, e isso as torna o público-alvo dos romances. (Existem questões fisiológicas e hormonais que tornam as mulheres mais sensíveis que os homens, e mais emotivas, mas não vou entrar nessas questões para não gerar mais polêmica).

    Gabriel EllanConcordo. Existe muito disso que o homem tem que ser bruto e sem sentimentos, se não ele não é homem de verdade, então aqueles que leem e apreciam tal obra, tentam evitar expor seus gostos, assim evitando futuros possíveis "bullyings". Já ouvi muita besteira, porque além de um leitor de romances, sou escritor do gênero.

    Raquel RasinhasAcho que esse preconceito parte dos próprios homens. Eles tem medo de que se o amigo descobrir que ele lê um romance vai chama-lo de "viadinho", fresco, mulherzinha e assim vai. Eles tem de por em suas cabeças que não é por que lê certo gênero que vai faze-lo mudar quem ele é.


    Gisele Motta: Sim. É lamentável, mas existe. Porque? É simples. Porque a sociedade ainda não aprendeu a aceitar as escolhas das pessoas sem fazer julgamentos. Viver fora da ‘’caixinha’’? Eu apoio!

    Ju Mendes: Claro que ainda existe. Nós viemos de um pensamento fundamentado em uma sociedade machista e patriarcal. Mas também faz parte do processo social evolutivo essa mudança de pensamento. Hoje temos muito mais homens lendo e assumindo o gosto pelos romances e isso já mostra que estamos no caminho certo. Eu tenho leitores que me dão feedbacks incríveis.


    UM BREVE COMENTÁRIO...


    Ainda que homem não possa chorar, sentir ou demonstrar, não podemos negar o fato de que o homem possui vida como qualquer outra pessoa e não suporta pressão. A sociedade impõe padrões que não existem. Padrões que visam transformar algo ou alguém que as pessoas tendem a  considerar "fora da linha de raciocínio da maioria". Inovar e não fazer parte do comum é dizer para si mesmo e para todos: Eu tenho um estilo de vida, e isso, ninguém irá tirar de mim.

    O "sentir" é algo do humano. Chorar, refletir, pensar, exigir, agir por impulso são sentimentos humanistas. Vivemos em uma sociedade a onde o amor é exclusivo para mulheres, os homens apenas constituem — em segundo plano — a realização da noiva, mãe ou da amiga que vai ser feliz com um outro cara qualquer. O homem não deve ser tratado como pano de fundo para justificar a ignorância de outros, não deixemos que más influências, influenciem boas cabeças. Vamos começar pelo princípio de que tudo podemos se quisermos. Eu quero, eu posso e eu consigo. Não existe barreira para quem realmente quer se dedicar à algo. Usar rosa, ler romances e ver novela não vai tornar seu marido, filho ou amigo uma mulher, apenas alguém que sente tanta necessidade de dedicar seu tempo fazendo algo que se gosta, como qualquer outra pessoa.

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