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    quarta-feira, fevereiro 01, 2017

    Vivendo Clarice, uma história de amor e ódio


    IMAGENS DA INTERNET



    Numa tarde, lembro-me bem, fora numa tarde. Não importa se chovia ou fazia sol, ela estava ali. Ela estava ali exposta para nós travássemos o nosso primeiro contato. Eu, nesse ínterim cursava o terceiro ano do ensino médio. Entre provas que eu sempre me saia bem, e uma curiosidade aguçada para o novo, eu a vi. Eu a vi e me aproximei. Em sua primeira aparição ela me viera vestida como “A Cidade Sitiada”. A principio achei-a sem graça, algo meio morno, tinha uma leitura que parecia que nunca me agradaria. O livro era arrastado, pesado. Dele, após terminá-lo só me vinha uma imagem na cabeça, de uma personagem se equilibrando na ponta dos pés numa sacada, e de uns artefatos de porcelana que a olhavam e a acusavam. Só depois, quando a minha percepção viera aflorar mais, eu vim a perceber sobre o que se tratava aquele livro e ele falava de mim. Ele falava de mim e da minha necessidade de se encontrar, de se encaixar de ser. E foi aí que ela aparecera para mim de novo.

    Eu estava um pouco revoltado, como aquela senhora havia se achado no direito de desafiar a minha inteligência e percepção. Mas não, eu só precisava de um pouco mais de sensibilidade, eu só precisava me atirar naquele abismo e esquecer de mim para me enternecer com as suas palavras. Então, numa outra tarde, essa me lembro bem, era ensolarada, um sol de queimar os miolos. Entrei na biblioteca municipal e lá estava ela novamente, num dos livros, curto, vestia-se como Macabéia em “A Hora da Estrela”, no outro, composto de contos, tinha mil faces e se dava o nome de “Laços de Família”. Peguei os dois livros emprestado, e estonteante fui para casa lê-los.



    CENA DO FILME "A HORA DA ESTRELA" BASEADO NO LIVRO HOMÔNIMO DE CLARICE LISPECTOR


    Naquela mesma tarde, na cozinha, numa cadeira um pouco desconfortável digeri A Hora da Estrela num pulo. Vi a mim, vi a Clarice, vi a Macabéia e vi a história do mundo, da criação, do ínicio e do fim. A morte! Clarice havia me ganhado, mas o que eu pensava que tinha visto em A Hora da Estrela não era da missa o terço, e em Laços de Família, voltei novamente a agonizar diante da estranheza que os contos me causavam. Meu deus, onde aquela mulher queria chegar com aquelas palavras, meu deus, onde ela queria me levar. Mas eu estava ali, eu fui cada um dos seus personagens e só soube da unidade do livro quando fechei-o e quis detestá-lo. Todavia, por mais que eu temesse eu comecei a amá-la.

    Por que ela escrevia daquele jeito, por que era tão seca, por que como uma cirurgiã dissecava cada um dos seus personagens interiormente e me obrigava a observar cada pedaço de emoção, remetendo-me a mim em determinadas horas, remetendo-me a minha angústia e culpa.

    Porém, aquilo não me bastou, e numa outra manhã, ou tarde, já não me recordo bem G.H foi-me apresentada. Eu sentei no chão do meu quarto e abri aquele livro tentando entender o que diabos a paixão de G.H tinha a ver com uma mulher degustando uma barata. Tinha tudo a ver, em unidade, cor, som, invisibilidade. Tinha tudo a ver. E foi ali que o meu amor começou a crescer. Juro por Deus, que depois desse livro entendi todos os seus outros, até os que eu já tinha lido algum tempo atrás.



    IMAGEM DA INTERNET



    E me vieram legiões estrangeiras, o crime de um tal professor de matemática, uma maçã que se ofertou para mim no escuro, uma seleção de contos estupenda, um agonizante e enternecedor sopro de vida, e a queimação, a ferida aberta na pele, o toque horrendo, mas estonteante de uma água viva.

    Clarice vivia em mim, e quando eu descobri o erotismo, descobri-o como uma via crucis por meio do seu livro. E quando descobri que precisava de uma bíblia, tive-a quando abri “A descoberta do mundo” e vi todo as suas crônicas ali.

    Eu queria tê-la conhecido, visto-a de perto, conversado com ela como fez a Lygia, depois daquele estranho chá, queria ouvi-la falando puxando aquele montão de rrrrrrrs.

    Queria ouvi-la, como ouvia o meu ex fazer quando estávamos juntos, ele puxava aquele montão de rrrs e dizia, Clarice devia ser carrancuda como um alemão.


    Talvez, talvez, mas eu cá tenho as minhas dúvidas. Só sei que a vivi e vivo tudo que vem dela desde o dia que a conheci, já cataloguei todos os seus livros em minha memória, e ela ainda vive, mesmo morta, dentro da minha própria vida.  

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