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    sábado, março 11, 2017

    A arte de perder

    Julianne Moore, em "Para sempre Alice" | Google Images | Divulgação

    Dentre todas as coisas que os seres humanos mais detestam, perder é a que se destaca. Perder o horário de algum evento ou compromisso, perder um documento em uma hora inoportuna, perder um talão de cheques, boleto ou qualquer tipo de cobrança. Perder a vontade de fazer alguma coisa, o entusiasmo, perder à admiração por alguma coisa, perder o encanto, perder um cargo em alguma empresa, perder algum objeto, perder qualquer coisa, não importando ao certo o que seja, perder nunca é algo com a qual podemos habituar-nos.

    Para sempre Alice fala-nos acerca da vida de uma renomada professora de uma universidade que descobre estar com início de mal de Alzheimer precoce. Uma mulher incrivelmente atarefada, repleta de trabalho, casa e filhos, começou a perder horários, planejamentos, momentos e memórias, sobretudo memórias.

    A história de Alice é baseada no livro homônimo da neurocientista e escritora Lisa Genova, que tem como personagem principal Alice, uma mulher que acabara de completar cinquenta anos, que passar a aprender a lidar com a arte de perder todos os dias.

    “Eu sempre fui muito guiada pelo meu intelecto, pelo meu modo de falar, pela minha articulação. E agora vejo as palavras na minha frente e não consigo me expressar. Não sei quem sou, não sei o que mais vou esquecer.” 

    Toda a história de Alice foi baseada no conhecimento, sendo reconhecida em seu trabalho e no campo social como uma mulher dotada de uma grande inteligencia e potencial e capacidade de processamento de informações. Quando Alice vê-se sem saída durante uma de suas palestras por esquecer uma palavra, ela decide procurar o médico para averiguar as questões que estão ocorrendo, afinal, como dito por Alice:

    "Eu estou perdendo tudo o que eu era, tudo o que eu fui um dia. Todas as minhas memórias estão se perdendo"

    Como uma mulher que sempre trabalhou e se fascinou com a capacidade de comunicação, terá que conviver com Alzheimer? 

    — Preferia estar com câncer— Não fale isso— Sim, preferiria, assim eu não teria que estar com vergonha.

    Vejamos agora (novamente) o discurso proferido por Alice na Associação do Alzheimer:

    Julianne Moore, em "Para sempre Alice" | Google Images | Divulgação

    “A poetisa Elisabeth Bishop escreveu: ‘A arte de perder não é nenhum mistério; tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério’. Eu não sou uma poetisa. Sou uma pessoa vivendo no estágio inicial de Alzheimer. E assim sendo, estou aprendendo a arte de perder todos os dias. Perdendo meus modos, perdendo objetos, perdendo sono e, acima de tudo, perdendo memórias.
    Toda a minha vida eu acumulei lembranças. Elas se tornaram meus bens mais preciosos. A noite que conheci meu marido, a primeira vez que segurei meu livro em minhas mãos, ter filhos, fazer amigos, viajar pelo mundo. Tudo que acumulei na vida, tudo que trabalhei tanto para conquistar, agora tudo isso está sendo levado embora. Como podem imaginar, ou como vocês sabem, isso é o inferno. Mas fica pior.
    Quem nos leva a sério quando estamos tão diferentes do que éramos? Nosso comportamento estranho e fala confusa mudam a percepção que os outros têm de nós e a nossa percepção de nós mesmos. Tornamo-nos ridículos. Incapazes. Cômicos. Mas isso não é quem nós somos. Isso é a nossa doença. E como qualquer doença, tem uma causa, uma progressão, e pode ter uma cura. Meu maior desejo é que meus filhos, nossos filhos, a próxima geração não tenha que enfrentar o que estou enfrentando. Mas, por enquanto, ainda estou viva. Eu sei que estou viva. Tenho pessoas que amo profundamente, tenho coisas que quero fazer com a minha vida. Eu fui dura comigo mesma por não ser capaz de lembrar das coisas. Mas ainda tenho momentos de pura felicidade. E, por favor, não pensem que estou sofrendo. Não estou sofrendo. Estou lutando. Lutando para fazer parte das coisas, para continuar conectada com quem eu fui um dia. 
    ‘Então, viva o momento’, é o que digo para mim mesma. É tudo que posso fazer. Viver o momento. E me culpar tanto por dominar a arte de perder. Uma coisa que vou tentar guardar é a memória de falar aqui hoje. Irá embora, sei que irá. Talvez possa desaparecer amanhã. Mas significa muito estar falando aqui hoje. Como meu antigo eu, ambicioso, que era tão fascinado em comunicação. Obrigada por essa oportunidade. Significa muito para mim.”  Alice

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