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    quinta-feira, março 23, 2017

    [ENTREVISTA] Marcos Samuel Costa: Os pés ainda estão fincados no chão, mas a poesia deu-lhe asas


    Foto do arquivo pessoal do autor



    Marcos Samuel Costa é natural de Ponta de Pedras - Ilha de Marajó - Amazônia brasileira. Atualmente cursa Serviço Social (FMN), e mora em Belém do Pará. Vive perdido no caos da cidade grande e entre livros de poesia. É membro correspondente da Academia de letras do sul e sudeste paraense e da ASPEELPP-DJ. Autor dos livros: Sentimentos de um século 21 (Multifoco Editora, 2014), Titulado amor (editora Literacidade, 2014), em coautoria com dois amigos: Interpoética (Big Times editora 2015), Uma semana de poesia (Editora Penalux 2016). Participou de mais de 20 antologias literá¬rias, entre elas I e II Anuário de Poesia Paraense e publicou nas revistas, Mallarmargens, contemporArtes e Marinatambalo. E mantém o blog, Someplace, onde divulga sua produção.



    ENTREVISTA 

    CATRACA SELETIVA: Nos conte um pouco da sua trajetória como poeta. 

    MARCOS SAMUEL COSTA: Bem, sou natural de Ponta de Pedras/Ilha de Marajó, de uma família de pescadores. Meu pai não sabe ler nem escrever, minha mãe estudou já adulta. E na minha cidade não existe teatros, cinemas e etc. Quando eu tinha treze anos, meu pai queria que eu saísse da escola e fosse trabalhar no barco com ele. E eu não quis, queria estudar, porque meu sonho era ser escritor. Sorte que minha mãe me apoiou. Mas algo sempre teve em minha cidade, muitas bibliotecas, por ser a cidade natal do romancista brasileiro Dalcídio Jurandir. E comecei a construir uma relação muito intima com os livros, a leitura sempre foi a minha maior fuga e liberdade. Podem trancar nossos corpos, mas nunca nossas mentes. Logo, vieram as inquietações, as paixões, e tudo que eu fazia passou a ser movido por amor a literatura. Não sei se tenho um trajetória como poeta. Às vezes acho que nem sou poeta, eu escrevo mesmo porque é a única maneira de eu existir. Nos piores dias da minha vida ou eu li poemas ou escrevi poemas. Já tenho algum trabalho construído, publiquei livros por algumas editoras como a LiteraCidade, Multifoco, Penalux, Bigtimes e etc. 


    Sentimentos de um Século 21 (Multifoco Editora, RJ, 2014)


    CS: Sophia de Mello Breyner, uma poetisa portuguesa, que eu particularmente amo muito, diz que a poesia é a sua explicação com o universo, e para você Marcos Samuel, o que a poesia é para você? 

    MSC: Passei por muitos problemas pessoas que, não cabe aqui comentar. Mas sempre que me via nesses momentos fazia algo, pegava minha bicicleta e pedalava cerca de 7 km até a praia, e ficava olhando as ondas baterem na areia. Para mim aquilo era poesia, uma poesia que eu nunca iria colocar no papel. Hoje moro em Belém, capital do Pará. Passo quase todos os dias em uma das áreas mais pobres da cidade (A.V. Bernardo Sayão e a Estrada Nova) e da janela do coletivo eu vejo o que para mim é a poesia – um movimento eterno, seja da natureza ou dos homens. Mas teoricamente falando, eu não sei dizer o que é a poesia. Não vou dizer que é o belo, ou simplesmente uma canção doce de amor – mesmo que ambas as coisas sejam para alguns matéria criadora. 

    CS: Como se dá o seu processo de criação poética, como lhe acontece o poema? 

    MSC: Uma vez respondi essa pergunta ao poeta Abílio Pacheco, lhe disse – às vezes um poema passa semanas sendo construído na minha mente, até que chega uma hora que ele nasce, vem ao papel. Pouco mudou hoje, mas já tento fazer um “laboratório criativo”, isso depois de ouvir o conselho de outro poeta paraense, o Paulo Vieira – sobre os “cortes” no poemas, trabalhar no poema até a última possibilidade, até exaustão, mesmo que seja doloroso”. Eu tento ser meu maior crítico. E nesse processo acabo passando anos em um único trabalho. Quem ler isso até vai pensar que tenho uns cinquenta anos (risos). 

    CS: Você procura seguir um estilo, um método que faça com que o poema se arquitete, ou se deixa levar pelo que sente e apenas transcreve no papel? 

    MSC: Não tenho um estilo, pelo menos eu acho, o ruim de ter um conterrâneo famoso na literatura, é que você acaba vivendo na sombra dele, frequentemente sou chamado de “novo Dalcídio”. Isso me incomoda, pois cada escritor tem sua particularidade, eu não quero me tornar um novo Dalcídio, ele é único. Seu estilo. E acho um absurdo ser comparado a um mestre como ele. Mas tento fazer algo, que talvez seja um pouco sem sentido – que cada livro seja único, com um “estilo” e arquitetura únicos (levando em consideração a minha produção). Quero experimentar todas as possibilidades. 

    CS: Para você o que é mais importante, o ato de escrever ou ser lido? 

    MSC: Nossa que complexo, não sei dizer – vivemos num tempo que temos que quase ou mesmo implorar por leituras, e isso acaba mexendo no próprio corpo do texto. Outro dia um amigo me falou se eu quiser ser lido na internet devo postar apenas textos curtos, e se quero ser lido em qualquer outro lugar deveria escrever livros pequenos. Não podemos negar que a tecnologia mudou toda nossa percepção de mundo, e ainda vai mudar muita coisa. Mas a questão não é essa. Penso que não escrevemos para o nosso tempo, e se somos lidos hoje, é pouco, mas amanhã talvez também sejamos esquecidos, outro dia achei num sebo um livro de poemas que trouxe para casa de uma poeta baiana que nem biografia dela achei na internet, a Hildeth Favilla. Mesmo com tudo isso, é impossível não escrever. Temos que escrever. 

    CS: Poetas existem aos montes por aí, aliás, dizem as más línguas que todo mundo tem um pouco de poesia em si, mas venhamos e convenhamos, há pessoas que conseguem traduzir sentimentos em palavras de uma forma única. Nos diga o que você acha sobre isso. 

    MSC: Acho que a poesia sim, é a própria vida e movimento (espero que não entendam isso de uma forma romântica), o trabalho do poeta é árduo e duro. Ninguém escreve um “Em alguma parte alguma” (GULLAR) do dia para noite. E se a poesia não for a tradução de um sentimento? E se for algo como a poesia de Paul Celan e Age de Carvalho, algo mais sintético. Ou a poesia de militância contra a fome e desigualdade lembrando Ferreira Gullar, até mesmo a denúncia contra a invasão de terras na Amazônia lembrando João de Jesus Paes Loureiro? Acho que em todos devem existir até num Luan Santana da vida (risos). 

    CS: Ser poeta é um dom? Por quê? 

    MSC: Dom remete a divindade, e logo, divindade a uma moral. No ensino médio uma professora me aconselhou a escrever poemas mais “bonitos” falando do “bem”. Lembro sempre de Paulo Leminski em Ervilha da Fantasia (doc. De 1985), onde o poeta diz que é fácil fazer poesia aos 15 anos, quando as espinhas brotam na cara, difícil é continuar sendo poeta ao resto da vida, e ele lembra poetas que escreveram a vida toda como Drummond e Bandeira. E Leminski está certo, continuar acreditando nisso é difícil, fazendo até mesmo eu acreditar em “dom”. 

    CS: Fale-nos sobre “pés no chão, sonhos no ar”. 

    MSC: Acho que ele é o que meu amigo Gigio Ferreira disse certa vez: “esse teu primeiro livro, é importante bicho, pensa num foguete, não importa quantos ziguezagues ele faça, o que importa é ele subir. Teu livro ficou cheio de erros e falhas, mas te tirou do zero”. Pés no chão e sonhos no ar”, foi uma reunião de poemas que publiquei em 2011 aos dezessete anos de idade, aluno ainda do ensino médio. Na época fiz uma edição artesanal, o editor me enganou (risos), paguei uma edição já com a revisão e recebi um livro cheio de erros, com a própria digitação que eu mesmo tinha feito, ele só copiou e colou. E cada capa tinha uma tonalidade diferente (risos). Hoje teria vergonha, mas ele foi importante para construir o Samuel que escreveu Uma semana de poesia (Editora Penalux 2016). 


    Uma semana de poesia (Editora Penalux, SP, 2016)


    CS: A vida nos abre feridas a que chamamos de amadurecimento, pois dessas feridas tiramos aprendizados, lições que nos ajudam a viver melhor quando seguimos adiante. Na poesia não podia ser diferente, há esse amadurecimento que vai se fazendo presente aos poucos. Nos conte como isso se dá na sua poesia, se você sente diferenças entre o que você foi como poeta há anos atrás e ao que se tornou hoje. 

    MSC: Cara, há um abismo do poeta de “Pés no chão e sonhos no ar” de 2010/11 e o de hoje. Hoje sou 99,9% leitor e 1% escritor. Priorizo a leitura. Leio tudo de literatura paraense que encontro, amo descobrir poetas novos, sou um rato de sebo. Mas essa palavra “amadurecimento” ainda me soa mal. Mas os leitores de “Pés no chão e sonhos no ar”, não gostam e nem entendem o que escrevo hoje, o os poucos leitores que tenho hoje, não suportariam uma página da minha escrita de ontem. Somos o nosso próprio tento, lembrando Renato Russo, e ainda digo mais, somos o nosso meio também. As feridas são enormes, aqui na capital paraense sou completamente excluído pelos outros poetas mais conhecidos, mas também tento não me importar. Tento responder diferente, é lendo, conhecendo, vivenciando, buscando minha voz. Sonho que um dia a minha poesia fale por mim. Se eu suporto morar só no bairro do Guamá, acordar cedo todos os dias, fazer tudo em casa, trabalhar e ainda ter força para ir para a faculdade a noite, é porque acredito na poesia/vida. 

    CS: Faça-me uma pergunta. 

    MSC: Você já leu Max Martins? João de Jesus Paes Loureiro? Admir Braz? Age de Carvalho? Thiago de Mello? Paulo Plinio Abreu? Maria Lucia Medeiros? 

    CS: O que você tem a dizer aos poetas, aos leitores de poesia, aos seus leitores e aos leitores do Catraca Seletiva? 



    MSC: Leiam os poetas que citei, leiam os meus amigos que andam fazendo literatura. Leiam os poetas do mundo inteiro. Simplesmente leiam...



    Respondendo a pergunta que o Marcos Samuel fez a mim, eu me lembro que ele mesmo me apresentou alguns desses poetas em uma de nossas muitas conversas inspiradoras e de desabafos, mas os que eu eu realmente li foram Thiago de Mello, que me inspirou muito na vida e Maria Lucia Medeiros.



    E então pessoal, curtiram a entrevista? Deixem suas impressões nos comentários e se quiserem conhecer o Marcos e a sua obra é só entrar em contato com ele pelos veículos abaixo:


    E-mail:

     samuelcostaspds@hotmail.com.br
     ou
     Samuel_pontadepedras@hotmail.com

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