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    sexta-feira, março 10, 2017

    [RESENHA] Como se estivéssemos em palimpsesto de putas — Elvira Regina


    Título original: COMO SE ESTIVÉSSEMOS EM PALIMPSESTO DE PUTAS
    Páginas: 216

    Acabamento: Brochura

    ISBN: 9788535927399
    Selo: Companhia das Letras
    ► Avaliação: 10/10 — Favorito
    Compre: Companhia das Letras
    Dois estranhos se encontram num verão escaldante no Rio de Janeiro. Ela é uma designer em busca de trabalho, ele foi contratado para informatizar uma editora moribunda. O acaso junta os protagonistas numa sala, onde dia após dia ele relata a ela seus encontros frequentes com prostitutas. Ela mais ouve do que fala, enquanto preenche na cabeça as lacunas daquela narrativa. Uma das grandes escritoras brasileiras da atualidade, Elvira Vigna parte desse esqueleto para criar um poderoso jogo literário de traições e insinuações, um livro sobre relacionamentos, poder, mentiras e imaginação.

    Premiada autora de Por escrito traz mais um impactante jogo literário para tratar de relacionamentos, imaginação e narrativa.
    Elvira mostra-se promissora em criar situações do cotidiano com uma singularidade particular em um universo auto-construtivo repleto de mensagens ambíguas, que dão um sentido maior a musicalidade presente na narrativa. Em "Como se estivéssemos em palimpsesto de putas", apresenta-nos a vida e narrativa de João em suas aventuras diárias com putas e o fim de seu casamento. Uma narrativa forte repleta de significados e reflexões profundas que vai de encontro com o "eu" interior de cada um.

    Como se estivéssemos em palimpsesto de putas é um dos mais novos lançamentos da Companhia das Letras e tivemos o prazer imensurável de termos contato com a escrita contemporânea e vislumbrante de Elvira Regina, e é sobre este livro no qual falaremos desta pseudo resenha/análise.

    Dois estranhos se encontram num verão escaldante no Rio de Janeiro. Ela é uma designer em busca de trabalho, ele foi contratado para informatizar uma editora moribunda. O acaso junta os protagonistas numa sala, onde dia após dia ele relata a ela seus encontros frequentes com prostitutas. Ela mais ouve do que fala, enquanto preenche na cabeça as lacunas daquela narrativa.

    Com uma narrativa cativante, simples e ao mesmo tempo direta, Elvira nos propõe a leitura de questões de respaldo reflexivo incrivelmente altas, ligadas ao gênero, fidelidade e claro, prostituição. O livro é repleto de sarcasmo e narra uma visão fechada de duas pessoas que conversam acerca de acontecimentos "tabus", onde a ouvinte — mulher — está sempre de ouvidos atentos, tanto para a narrativa, quanto para o sarcasmo que à acompanha.

    O livro trás uma série de reflexões a partir do momento em que a ouvinte (possivelmente a própria Elvira) busca explicações para determinados questionamentos que nascem dentro de si com relação ao comportamento do homem (João) que conta de forma clara e objetiva suas aventuras com putas e a traição de sua noiva, Lola, que claro, deu um fim na situação no momento em que chegou ao seu conhecimento, porém, João possui uma visão fechada e nada comum sobre o comportamento da noiva, não entendendo o motivo do comportamento da mesma, quando na verdade o errado em toda a questão era seu comportamento vergonho perante o tempo vigente de seu casamento.

    Como João possui uma forma peculiar e vaga de narrar os fatos, muitas das vezes nos pegamos perguntando onde está o restante da explicação ou o que aconteceu em determinado momento, e é nestes momentos de descuido do protagonista que ela (Elvira) aproveita de seu poder e senso crítico para elaborar comentários acerca daquelas questões, buscando compreender acontecimentos e preenche-los em sua cabeça, de forma que, dê mais sentido na história contada pelo amigo, porém, a opinião inicial de que ele seja um retardado, permanece.

    1. O livro trás a tona várias questões sociais que se lidas atentamente podem facilmente tornar-se fruto de estudos. João é um personagem que possuía um bom casamento, porém, sua "masculinidade exacerbada", fez-lhe optar por uma traição. Um jogo de mental de masculinidade e autodescoberta.
    2. Mesmo narrando uma história de amor, nós nunca conseguimos ter uma noção mínima de romance ou amor dentro do relacionamento de João, podemos quase que concordar enfaticamente em todos os aspectos com os pensamentos e opiniões da autora com relação ao comportamento vergonhoso do homem.
    3. O palimpsesto de putas de João teve como efeito o fim de seu casamento, porém, mostra-nos muito acerca da psicologia e ideologia presente na vida de João, que agora procura narrar sua história, montar uma cronologia de sucessão de fatos e contentar-se com o peso do que suas ações trouxeram para a sua vida como resultado.
    4. O homem macho e a visão exposta por João em sua narrativa de como deve ser um homem ou como deve comportar-se é vergonhoso. Irrita-me saber que seu modo de pensar apesar de ultrapassado e irregular, é corriqueiro em nosso cotidiano e está presente na cabeça de muitos outros homens que fazem ou pensam em fazer a mesma coisa com uma frequência extremamente alta.
    5. A ausência de Lola é o papel principal nesta narrativa, até mesmo porque narra o fim de um casamento, porém, Lola e João possuem particularidades a serem analisadas minuciosamente.
    Em uma narrativa poética, repleta de musicalidades, a autora nos trás para um universo alternativo de reflexões acerca da fidelidade, relacionamento e amor. João mostra-se não se importar em com a noiva, em algum momento — penso eu — que ele mostra-se indignado por ter sido deixado, mas por sua ex-mulher não aceitar o fato de que ela era simplesmente mais uma, como todas as outras putas com as quais se encontrava de forma frenética e regular.


    Comentários

    Elvira é mestre em criar situações reflexivas que tenham como pano de fundo o cotidiano. Seu livro "Nada a dizer", publicado em 2010 pela companahia das letras, recebeu o prêmio na ficção da Academia Brasileira de Letras, e recentemente, seu livro "Como estivéssemos em um palimpsesto de putas", ganhou o prêmio da APCA, na categoria romance.

    Já consagrada e conhecida pela sua escrita com características próprias e narrativa de fácil entendimento com uma carga psicológica prolífera — que dá-se sempre mais a cada folhear — constrói uma situação que pode acontecer com qualquer um, com um personagem bem elaborado e construído. Não sei se a real intenção desde o princípio era criar João tal como ele é — vazio — porém, a construção foi minuciosa e muito bem elaborada, mostrando-nos características e particularidades especiais do homem que narra sua vida de aventuras sem pudor algum.

    Com prosa, verso e narrativa leve acerca de temas tão sensíveis como relacionamento, casamento, fidelidade e prostituição, a autora mostra-nos uma interlocutora paciente, de ouvidos atentos e com uma opinião já formada desde o início da conversa.

    O livro consagrou-se na literatura brasileira e levou o nome de Elvira Regina ao ápice do reconhecimento por sua contribuição magistral presente em seus escritos. Incrivelmente incrível e indicado para todo e qualquer leitor que deseja uma boa leitura cheia de reflexões.


    A AUTORA

    ELVIRA REGINA

    É escritora e desenhista. Nasceu em 1947, no Rio de Janeiro e atualmente mora em São Paulo. Formada em literatura pela Universidade de Nancy, na França, é também mestre em comunicação pela UFRJ. Seu romance Nada a dizer, publicado em 2010 pela Companhia das Letras, recebeu o prêmio de ficção da Academia Brasileira de Letras.

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