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[ENTREVISTA] Francisco Gomes, autor de "Face a face ao combate de dentro"

Acervo Pessoal | Divulgação

FRANCISCO GOMES (cor)rompeu a existência em 1982 no arcaico município de Campo Maior – PI, mas por acidente já plantado do acaso acabou fixando raízes na provinciana Teresina – PI, onde (sobre)vive desde os 7 anos de idade. Apesar de rabiscar alguns versos desde os 12, só apenas mais tarde, através de um concurso de sonetos realizado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI – Campus Clóvis Moura) em 2004, que se apresentou ao público como poeta, sendo o 1º lugar do tal concurso. Em 2008, através do Concurso Novos Autores, recebeu o prêmio Cidade de Teresina pelo livro Poemas Cuaze Sobre Poezias, classificado em 1º lugar na categoria Poesia, publicado em 2011 pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Também em 2011, teve a obra “Conectados” (instalação) selecionada para exposição no 18º Salão de Artes Plásticas do Piauí. Iniciou duas faculdades – História e Letras/Português, abandonou ambas. É autor dos livros Poemas Cuaze Sobre Poezias (FCMC, 2011), Aos Ossos do Ofício o Ócio (PENALUX, 2014) e Face a Face ao Combate de Dentro (KAZUÁ, 2016). Também é músico, compositor, letrista e anartista plástico. Tem alguns livros inéditos e outros em construção. É administrador/editor do blog PULSO POESIA (www.franciscogomespoiesis.wordpress.com), onde publica inutilidades poéticas e afins. Tem poemas publicados em sites, blogs, revistas, coletâneas nacionais, jornais, muros etc. Admira a carência orgulhosa dos gatos e a tranquilidade dos jabutis. Ah, adora fígado acebolado.

1. Quando você percebeu que seu destino era se tornar um escritor?

Desde cedo, uns 7 ou 8 anos de idade, me interessei pela leitura (leitura em geral), graças ao estímulo dos meus pais. Aprendi a ler sozinho, imerso em mim mesmo e perdido nas palavras das bulas, embalagens, letreiros de ônibus, nomes de bares, outdoors etc. Até aí, tudo bem. Mas foi mesmo na escola que tive contato com os textos de Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto e por aí vai... Até então, tudo era maravilhoso e desafiador. Lembro-me que foi na 5ª série onde comecei de fato experimentar os textos não apresentados em sala de aula. Certo dia (ou errado?), no intervalo do recreio,  procurando autores desconhecidos na biblioteca, acabei "encontrando" um livro de capa alaranjada, do autor piauiense LUIZ ROCHA, com o título SAGA DA TERRA. Ao folheá-lo, tive uma sensação de estranhamento, pois era um livro de poemas (!!!). Li alguns versos e, apesar de não ter "entendido" nada, senti. Senti cada palavra me atravessando e chamando para a leitura. Como eu não podia fazer um empréstimo, pois era o único exemplar da biblioteca, fiz um "empréstimo vitalício", se é que você me entende (risos). Nesse dia, não assisti a última aula. Pulei o muro da escola e fui ler o livro numa praça. Fiquei extasiadamente impressionado. Devorei o livro. Apartir dalí, eu disse pra mim mesmo, baixinho, quase sussurrando: "eu quero ser poeta...". Depois de ter decidido o que eu seria, comecei uma pesquisa de campo em biblitecas publicas, sempre procurando autores "desconhecidos" e, principalmente os poetas.

2. De onde vem os personagens? São frutos de muita imaginação ou são baseados em pessoas reais?

As personagens vem do(s) mundo(s): cotidiano, das experiências diárias, das ruas, das esquinas, dos sonhos... Sou um materializador de poesia e a minha poética é baseada em personagens reais. Tanto os seres inanimados como os ditos seres vivos, no que escrevo, estão no mesmo patamar. Uma flor morta e um bêbado, apregoando cismas ao vento, tem o mesmo valor poético e estético dentro do que escrevo, ou seja, os dois estão vivos, porque na poesia as possibilidades são interessantes e inesgotáveis.

3. Quais seus autores favoritos? Estes livros de alguma forma, influenciaram diretamente na sua escrita?

São tantos. Mas posso citar os que me marcaram profundamente: Luiz rocha (claro!), Mário Faustino, O. G. Rêgo de Carvalho, Torquato Neto, Ferreira Gullar, Lúcio Cardoso, Lêdo Ivo, Orides Fontela, Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Sousândrade, Pedro Kilkerry, Roberto Piva, Jorge de Lima, Pio Vargas, Marcos Prado, Qorpo Santo, Ezra Pound, Camões, Dante Alighieri, Goethe, Dylan Thomas, Proust, Anne Sexton, Silvia Plath, James Joyce, Lautréamont, Mallarmé, François Villon, Antonin Artaud,todos da Geração Beat, Georg Trakl, Leopoldo María Panero, Fernando Pessoa... Somos todos influenciáveis, in ou diretamente. Agora, se a pergunta for "Você reconhece no que escreve, traços ou características dos autores que você leu e lê?". A resposta é não. Deixo qualquer tipo de descrição ou rótulo sobre o meu trabalho para os críticos.

4. Já aconteceu de você conhecer alguém que leu sua obra, ou que estava lendo?

Sim. Certa vez doei alguns exemplares do meu primeiro livro (Poemas Cuaze Sobre Poezias) para um sebo. Uma semana depois, recebi um e-mail de um senhor me parabenizando pelos "poemas filosoficamente metalinguísticos" (no dizer dele). ainda hoje, esse senhor acompanha meu trabalho. Outro caso são as redes sociais, mas especificamente, o facebook, onde tenho a página MAL DITOS PARALOGISMOS com alguns seguidores assíduos, que fazem questão de me enviar mensagens solicitando mais postagens, quando demoro publicar. Já teve casos de me pararem na rua perguntado se eu era "o poeta que fez o poema que saiu no jornal impresso"...

Francisco Gomes  | Acervo Pessoal | Divulgação


5. Atualmente uma das maiores dificuldades encontradas por autores é publicar o livro no formato físico, até mesmo pelos valores altíssimos cobrados por algumas editoras. Você encontrou alguma outra dificuldade para publicar ou desenvolver sua obra?

Sinceramente, acredito que as dificuldades para a publicação de livros sempre irão existir, principalmente poesia. Mas vai depender muito das intenções e exigências de cada autor. Apesar dos valores, existem editoras "pequenas" que são bem acessíveis, onde o autor recebe uma quantide "X" de livros e com a venda dos exemplares, presta contas com a editora. E em outros casos, o autor deixa sua obra à venda em sites especializados sem ter praticamente custo nenhum como, por exemplo, a editora CLUBE DE AUTORES. Existem várias formas de se publicar livro, basta correr atrás.

Capa oficial de "Face a face ao combate
de dentro"
6.  Você costuma recorrer á opiniões de terceiros durante o processo de escrita de um livro? Se sim, por que?

Sim. Além do rigor autocrítico, sempre que concluo um trabalho, peço para algumas pessoas, de confiança e competância literária, uma "mãozinha". Acredito que a opinião especializada é essencial para o enriquecimento não só da obra, mas do autor também. 

7. Quanto tempo demorou até que seu livro estivesse finalmente finalizado?

Essa questão do "quanto tempo levou para concluir um livro" é muito, muito, muito, bastante realativa. Meu Primeiro livro (Poemas Cuaze Sobre Poezias), por exemplo, construí em uma semana. O segundo (Aos Ossos do Ofício o Ócio), dois anos e meio. E o terceiro, um ano e três meses. Atualmente, estou trabalhando simultaneamente em três livros. e dois deles tem mais ou menos quase quatro anos. quer dizer, quando concluí o terceiro livro, eu já estava labutando nesses dois. a poesia é interessante. Apesar do texto "finalizado", a poesia, parafraseando o Pio Vargas, é uma forma de concluir sem finalizar.

8. Pretende escrever outros livros dentro do gênero do primeiro livro?

Numa entrevista concedida ao programa VEREDA LITERÁRIA, Décio Pignatari, citando Charles Pìerce, diz "A poesia não conclui. Nossa cabeça e toda civilização ocidental exige conclusões... Enquanto que a prosa, pela sua própria organização interna no ocidente, ela leva a conclusões, sempre". Foi justamente isso, essa "não conclusão" da poesia que me atraiu. Comecei com a poesia e morrerei materializando poesia, porque é na poesia que me sinto pleno e através dela exorciso todos os demônios internos. Faço parte de uma linhagem de poetas, e digo isso sem nenhuma pretensão ou arrogância, apenas afirmo, porque reconheço isso em mim, que o que é escrito passa pelo corpo, deve passar pelo corpo: sensações. Por enxergar e sentir na poesia essa interação entre escrita e corpo, escrevo poemas. 

9. Qual o pior inimigo de um autor?

O próprio autor.

10. O que você faz quando uma ideia maravilhosa surge enquanto você está fora de casa e precisa registrar aquela ideia?

Sempre, sempre, desde sempre ando com um bloco de papel e caneta. Quando estou no ônibus, por exemplo, costumo gravar em áudio no celular alguma frase que chega de repente. 

11. Você acha que escrever enquanto se ouve uma trilha sonora de fundo, dá inspiração ou atrapalha?

Apesar de gostar muito de ouvir música quando escrevo, no meu caso, não inspira e nem atrapalha. Sou meio que o Jão Cabral de Melo Neto, ou seja, a inspiração pra mim é transPIRAÇÃO total.

12.  De tudo o que você já escreveu, tem algo em especial que se orgulhe? Algum trecho, personagem ou terra?

Não diria orgulho, mas satisfação. Cada poema feito é como um uivo para a lua. Cada livro pronto é o reinício de um outro livro...

13. Como foi a recepção do seu público com relação à sua escrita? Você acha que se surgisse a oportunidade de vendê-lo para fora do país, a recepção seria mesma?

Logo após os lançamentos, pude perceber que os livros tiveram uma boa recepção, tanto pelo público como pela crítica. Agora, como seria a receptividade dos meus livros fora do país... Confesso: uma incógnita. Realmente, não sei. Espero que surja essa oportunidade, aliás, aguardo essa oportunidade como quem espera o inesperado. Afinal, a poesia, apesar de ser urgente, não se apressa.

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