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[ENTREVISTA] Heitor V. Serpa, autor de "Aleros"

Heitor V. Serpa | Acervo Pessoal | Divulgação

Heitor Vasconcelos Serpa (27), nasceu e foi criado na zona norte do Rio de Janeiro. Publicou contos em antologias da Editora Multifoco em meados de 2007/2008, gerenciou um site de fanfictions por dois anos e, nesse meio tempo, trabalhou oito primaveras na concepção do “Mundo-Prisão”, universo fantástico de seu primeiro romance: ele se chama “ALEROS” e está em busca de uma editora linda para lança-lo oficialmente. Também moldou um cenário Steampunk junto de amigos: este é o STEAMAGE, nascido de uma tempestade cerebral em 2010. Ele possui artes originais e uma novela em andamento no Wattpad — “Carne Fantasma” de sua autoria. Por último, contribuíu para diversas produções virtuais, sendo as mais recentes:  a antologia independente de Ficção Científica “Crônicas das Guerras dos Muitos Mundos”,  o roteiro da HQ “Soberbo e Altivo Coração”, e uma coluna semanal no site “Histórias Ao Vento”.  Enquanto busco o troco do pão através das letras, eu trabalho como secretário e fundador da “Associação de Artes do Brasil”, entidade que visa divulgação e valorização de todos os tipos de produção cultural.


1. Quando você percebeu que seu destino era se tornar um escritor?

Isso aconteceu há pouco tempo, quando caiu a ficha de que não me encaixo em outra coisa. A gente passa a vida inteira ouvindo que a escrita — bem como a dança, pintura, artes como um todo — é "hobbie", algo que "não dá futuro". Os comentários mais elogiosos que recebi quando cogitei a profissão literária vieram de gente do próprio meio: fui aconselhado a "me estabilizar em alguma coisa primeiro". Pois eu remoí esta visão desde que exibi meu primeiro texto na internet: de 2007 em diante, busquei a tal estabilidade... Caí numa graduação que não era pra mim, normal, acontece com muitos jovens, mas depois eu acertei. E eu quase consegui, mas acabou de a Universidade Gama Filho (UGF), lar de um excelente corpo docente de História, falir. Lá eu fui monitor, pesquisador, consegui estágio no Museu da República, tive um desempenho acima da média, fiz amizades com vários professores, enfim, acho que a UGF foi o mais perto de um "futuro" que a vida me permitiu. Eu terminei minha graduação em outra faculdade, mas meus olhos estavam em outro objetivo: assumir aquilo que eu sempre fui, mas me pressionei a não acreditar. A profissão na qual eu me formei é não oficial, fruto de mais de dez anos de aprimoramento — rascunhos, construção de mundos, estudo de narrativas, aumento da bagagem de leitura. Eu me dei conta de que investi tanto tempo nessa arte quanto alguém tentando se graduar em Medicina. A diferença é que os residentes não são chamados de "vagabundos". Para fechar este tópico, eu deixo a pergunta que me fiz antes de me declarar "escritor": quando o mundo está em crise e nada é estável, qual a desculpa para não investir nos seus sonhos?

2. De onde vem os personagens? São frutos de muita imaginação ou são baseados em pessoas reais?

Eu diria que um pouco dos dois. Todos os meus personagens são criados em de conceitos: por exemplo, como seria uma pessoa com determinadas características e profissões em uma situação adversa? O que lhe moldou até chegar ao que é no início da história, e o quanto este personagem mudará até o final da trama? Além desses detalhes técnicos, costumam passar um ou dois traços pessoais, sejam meus ou de pessoas que admiro (ou detesto). Citando "Aleros": o protagonista tem um traço em comum com o seu criador, que é odiar pessoas prepotentes. E as pessoas prepotentes que aparecem na história eu prefiro não comentar de onde vieram (risos).

3. Quais seus autores favoritos? Estes livros de alguma forma, influenciaram diretamente na sua escrita?

Nossa, são tantos! A biblioteca tem de clássico húngaro (“Meninos da Rua Paulo”, uma das minhas histórias favoritas de infância. Só descobri quem era o autor e o que a história simbolizou para o exterior depois de velho) a livro de banca. Mas dos nacionais eu gosto dos que trabalharam a parte de denúncia social, como Aluísio de Azevedo, Lima Barreto, Graciliano Ramos... Esses são os que posso chamar de "influência", mas na verdade eu sou da opinião de que o bom escritor é aquele que lê de tudo, mas tudo MESMO, até bula de remédio a gente revira e aprende alguma coisa. Se citar nomes é importante, eu também considero Stephen King: ele é o mestre dos mestres, não só pelo histórico de vida, mas pela capacidade de manter um ritmo de produção absurdo que não implica em perda de qualidade de suas obras. Ele é o escritor que eu quero ser quando crescer (risos). Mas sobre influências, eu não me restrinjo aos livros: na verdade, além da carga de leitura, boa parte do que me inspira está em mídias alternativas: videogames, seriados, quadrinhos, animações... Muitos deles proporcionam ambientes, diálogos, dilemas, e principalmente trabalhos de pesquisa imensos, que em minha opinião valem tanto quanto um livro. É aí que está minha verdadeira inspiração, e se é pra citar nomes outra vez, a construção de meu universo fantástico se inspirou bastante em duas séries de jogos: Legacy of Kain e Diablo.  

4. Já aconteceu de você conhecer alguém que leu sua obra, ou que estava lendo?

Sim! Mas não foi algo ao acaso, como alguém puxando conversa na rua de repente. Eu já me encontrei não só com leitores, mas com pessoas que começaram a escrever junto comigo, que me acompanharam nessa trajetória desde os primórdios. Sou mais uma pessoa virtual, mas confesso que gostei bastante de trocar uma ideia pessoalmente, e quero repetir o feito quantas vezes forem possíveis.

Foto Pós-Odisséia fantástica de literatura | Acervo Pessoal | Divulgação


5. Atualmente uma das maiores dificuldades encontradas por autores é publicar o livro no formato físico, até mesmo pelos valores altíssimos cobrados por algumas editoras. Você encontrou alguma outra dificuldade para publicar ou desenvolver sua obra?

A dificuldade está na falta de dinheiro (risos). Não julgo quem opta por publicação sob demanda, muito menos quem gerencia editoras nesses moldes... Mas estamos falando de escrita profissional, portanto, um emprego. Vamos pensar no envio de um original como distribuição de currículo em busca do seu ganha-pão: por que um indivíduo sai na rua com uma pasta, batendo de porta em porta para saber quem está precisando de mão de obra? Têm boletos chegando a casa, os pais do indivíduo o pressionam para “tomar um rumo”, ou ele está por sua conta e risco, com filhos a tiracolo e nenhuma esperança neste país miserável... E depois de muito sacrifício, finalmente alguém liga e marca uma entrevista! Daí o cidadão arruma suas melhores roupas, ensaia respostas para perguntas capciosas, gasta dinheiro de passagem, fica plantado numa recepção com um monte de gente em busca da mesma coisa. Chega a hora dele, e o futuro patrão pede uma cota ou um sistema de parcerias, ou seja, que este sujeito sem ter onde cair morto pague para trabalhar. Não parece ridículo que alguém buscando sustento tenha que dar o que não tem para conseguir sua tão sonhada estabilidade, quer dizer, procurar a estabilidade por meios instáveis que beneficiam apenas um dos lados? Essa é uma discussão que dá muito pano pra manga, mas sobre o meu lado, se o “ser aceito” falhar, terei de recorrer à publicação pela Amazon ou outro sistema virtual. Para autores sem tempo e recursos, optar pela falta de intermediários é a única opção. No caminho da publicação independente existe, além de todo o aprimoramento necessário para escrever uma boa obra, a preocupação com questões de diagramação, marketing, produzir uma capa atrativa, etc. Ser seu próprio editor é uma grande dificuldade, mas ao menos o livro vai para o mercado.

6.  Você costuma recorrer á opiniões de terceiros durante o processo de escrita de um livro? Se sim, por que?

Se você considerar “buscar material de pesquisa” como “recorrer a opinião de terceiros”, então sim. É importante conhecer o processo criativo de outros escritores, saber a opinião do público sobre temas semelhantes ao seu, ler até bula de remédio (como eu disse lá em cima, na terceira pergunta), tudo isso é essencial no desenvolvimento de um livro. Mas mostrar o que escrevi para alguém, só depois de terminado. Fica mais fácil trabalhar em correções deste jeito.
Capa oficial do romance "Aleros"

7.  Quanto tempo demorou até que seu livro estivesse finalmente finalizado?

Eu escrevi “Aleros” como parte de um desafio mundial: todo mês de novembro, escritores se reúnem na internet e engajam na saga de escrever uma novela de 50.000 palavras até o final do mês. Este evento é conhecido como “National Novel Writing Month” (NaNoWriMo), e foi na edição de 2015, depois de falhar nas sete anteriores (contando os anos que nem me dei ao trabalho de cadastrar projeto), que eu finalmente alcancei este feito mágico! Eu consegui um original completo, início meio e fim, mas o que precisei amadurecer e trabalhar antes disso... Acho que já mencionei na biografia quanto tempo eu trabalho no universo fantástico deste livro.  E também, o que precisei trabalhar depois... Coloca aí esses dois últimos anos como foco na revisão e na reescrita. Algumas cenas eu apaguei, outras eu modifiquei, tirando gordura dali, adicionando sustância daqui, mais capítulos escritos do zero, até chegar ao que considero a “versão final”. Mas eu sei que, no caso de uma editora optar por investir no meu trabalho, é provável que ainda tenha coisas para se modificar... Ossos do ofício, nada de anormal. Quanto ao “Carne Fantasma”, este é um trabalho em desenvolvimento desde o ano passado, mas que também precisou de MUITO tempo até ganhar os alicerces.


8. Pretende escrever outros livros dentro do gênero do primeiro livro?

Claro! Mas sem essa “síndrome de trilogia” que consome boa parte dos escritores de fantasia. Minha proposta é ter várias histórias se passando no mesmo universo, mas fechadas dentro de si mesmas. Claro, elas podem ter referências em comum, personagens filhos ou conhecidos de outros personagens, as consequências de um desfecho influenciando no começo de uma futura jornada... Mas eu quero que o leitor possa escolher qual o livro de sua preferência, como num seriado de “episódios soltos”.

9. Qual o pior inimigo de um autor?

Ele mesmo. Vencendo isso, o resto é questão de tempo.

10. O que você faz quando uma ideia maravilhosa surge enquanto você está fora de casa e precisa registrar aquela ideia?

Eu tenho uma história longa e engraçada sobre isso: estava sofrendo com um bloqueio, e não tinha estudo, inspiração nem ambiente capaz de me ajudar. Então num belo dia, minha família resolve viajar para o Paraguai por sabe-se lá qual vez. Geralmente eu fico em casa cuidando do cachorro, mas desta vez aceitei o convite... Talvez eu só precisasse de um freio, sei lá, um momento sem pressão para voltar a ativa. “Então, essas serão minhas férias”, eu pensei. “Não vou tocar em N-A-D-A relacionado à escrita, vou só curtir e festejar”. Era uma semana fora de casa, em altas “road trips” por Ciudad del Este, Foz e Puerto Iguazú... Meu futuro incerto na sopa de letrinhas, que ficasse para depois! Isso só durou uns dois dias, pois as ideias vieram de um jeito que não sei explicar. Lá não tinha computador nem sinal de celular, também não havia como eu parar num canto e implorar que o mundo parasse de girar. Resultado? Tive que me virar. Quem me conhece sabe como o-d-e-i-o teclado de celular, mas passei os intervalos grudados nele. Privei-me das poucas horas de sono disponíveis, e por mais que eu tenha aproveitado cada segundo dessa aventura na América Latina, quando parava em restaurantes ou na casa de alguém com wi-fi eu me desligava de tudo, absolutamente TUDO, para escrever o que vinha em rascunhos de e-mail. E se eu não tivesse celular, compraria um caderno. Se faltasse dinheiro pra caderno, eu roubaria guardanapos.  No mais desfavorável dos ambientes, minha criatividade floresceu. Depois dessa, eu lido com qualquer “ideia maravilhosa no lugar errado” que venha a aparecer com uma mão nas costas, só preciso de alguma coisa pra anotar.

11. Você acha que escrever enquanto se ouve uma trilha sonora de fundo, dá inspiração ou atrapalha?

Depende do meu momento. Tem horas que a trilha de fundo é necessária para me isolar do mundo pegando fogo lá fora, servindo mais como ferramenta do que mecanismo de inspiração em si. Mas há casos que a música certa pode me dar ideias ou um empurrão extra para o desenvolvimento de determinada cena. Em “Aleros” eu tive de escrever uma cena de sexo que não estava no roteiro... Lembra quando falei dos personagens lá em cima? Então, às vezes eles ganham vida, e todas as minhas tentativas de pular esse desejo do casalzinho ternura foram horríveis. A história só andou depois que eu deixei Aleros e sua namorada se divertirem um pouquinho, e pra isso acontecer eu precisei de Pink Floyd. Dei ao capítulo o nome de “O Som Delicado do Trovão” como homenagem e agradecimento, acho que sem esse álbum eu não fecharia meu original.


12.  De tudo o que você já escreveu, tem algo em especial que se orgulhe? Algum trecho, personagem ou terra?

Sim! A “namorada de Aleros” é, de longe, a melhor personagem que eu já criei! Por ser o grande trunfo da história, eu não falo muito nela... Mas posso adiantar que ela se chama Luna Aiman, uma “ring girl” casca grossa que não tem medo de sangrar ou perder alguns dentes para conseguir o que deseja. E o que ela deseja é reconhecimento por aquilo que é de verdade: uma “action girl”, alguém que nasceu para brigar e alcançar a glória. 

13. Como foi a recepção do seu público com relação à sua escrita? Você acha que se surgisse a oportunidade de vendê-lo para fora do país, a recepção seria mesma?

Eu considero como positiva! Quem leu a primeira versão de “Aleros” adorou, indicando os pontos que eu imaginava como fortes, mas precisava de uma opinião de fora para confirmar... E as críticas também foram positivas, aquilo que precisava de conserto eu mexi, e meu crítico interior viu uma história totalmente nova, de qualidade que eu não seria capaz de imaginar ao término da primeira versão. Também recebi muito apoio nas minhas produções anteriores, dos contos originais às fanfictions: inclusive, boa parte da experiência que adquiri com leitores se deve às “ficções de fã”, de lá veio meu primeiro gostinho de “alguém tá me acompanhando”, e de lá isso se reforçou quando me dediquei ao gerenciamento de um domínio próprio para histórias sobre “League of Legends”, para o qual eu também contribuí com produção. Mas a surpresa maior veio na oportunidade de escrever meu primeiro roteiro de HQ (disponível em minha biografia publicada neste site): eu estava mega nervoso, em todos esses anos nessa indústria vital, n-u-n-c-a me vi como roteirista... E quando o trabalho saiu, recebi elogios de todos os lados, incluindo quadrinistas estrangeiros, pois eu também trabalhei na tradução deste roteiro para o inglês... É interessante esta pergunta sobre a recepção no exterior, pois é algo no qual trabalho em conjunto com a publicação em livro físico nacional. Estou traduzindo contos antigos e lendo histórias “diretas da fonte” para adquirir prática, e quando experimentar a publicação de um ou dois contos pagos na Amazon, eu pretendo fazê-lo em pt-br e english... Onde será que vende primeiro? Isso só o tempo dirá.

Links úteis e mídias sociais do autor:

*Para ler “Carne Fantasma”:  http://my.w.tt/UiNb/ieYgVQFnRC
*Para ler os dois primeiros capítulos de “ALEROS”: http://my.w.tt/UiNb/xF4rqbJnRC
*Para ler todos os contos que produzi antes de deletar meu blogspot: http://my.w.tt/UiNb/Xxn0fQLnRC
Página do Mundo-Prisão:  https://www.facebook.com/mundoprisao/?fref=ts
Página do universo STEAMAGE:  https://www.facebook.com/steamagers/?fref=ts
Página da Associação de Artes do Brasil (AAB): https://www.facebook.com/associacaodeartesdobrasil/?fref=ts

Site de fanfictions que gerenciei no passado:  http://icathia.com
*HQ “Soberbo e Altivo Coração” (PT-BR): https://terrasheitorianas.wordpress.com/2017/03/04/hq-soberbo-e-altivo-coracao/
Site “Histórias Ao Vento” (HAV):  https://historiasaoventoha.wixsite.com/historiasaovento/

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