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Não sou louco — Gabriel Mattos

GOOGLE IMAGES | GABRIEL MATTOS
            Começo dizendo que não sou louco! Quem quer que ache essas palavras (eventualmente irão encontrar), precisa entender isso antes de continuar lendo, caso contrário pode parar nesse exato momento. Sei que estou condenado à morte, preso nesse lugar infernal, mas quero ter a chance de deixar minha versão dos fatos.

           Trabalhei desde minha juventude como caixeiro viajante. Teria condições de trabalhar na padaria de minha família, mas a monotonia é uma coisa que não me agrada. Nunca gostei de ficar em um só lugar, comer as mesmas coisas, deitar com as mesmas mulheres, nada disso. Meu espírito aventureiro não me permitia isso. Trabalhar viajando era a melhor coisa que pude pedir, e graças a meu pai (que Deus o tenha), consegui esse emprego.
            

Confesso que fiz coisas muito erradas durante os poucos anos que trabalhei com isso. Não me envergonho de dizer que fui infiel com a minha noiva na época, pois como havia dito, não consigo deitar com uma mesma mulher por muito tempo. E foi em um desses bordéis que começou o que é meu tormento até hoje.

            Não tenho certeza do que aconteceu, se alguém me drogou ou se foi algum castigo, mas após acordar em uma manhã, com duas prostitutas ao meu lado, não conseguia mais tirar aquilo da cabeça. Não sei como descrever. No começo acreditava ser algum pernilongo, mas os insetos não fazia o ruído metálico que mais parecia. Assemelhava a uma música, porém tocada em instrumentos concebidos por uma mente caótica e com uma batida frenética, porém meus poucos estudos de música me permitiram perceber que havia algum tipo de progressão. Aquilo começou a me enlouquecer logo nos primeiros minutos. Não importava o que eu fizesse: nada fazia com que aquele som fosse embora!

Minha família começou a perceber meu estranho e justificável comportamento. Não conseguia mais dormir, nem mesmo com uma forte bebedeira. Comecei a ficar agressivo, e não muito depois disso acabei por ser demitido. Passei a fazer alguns trabalhos na padaria de minha família, apenas para não dizer que não fazia nada, mas a verdade é que não conseguia fazer. A maior parte do tempo, minha cabeça fervia de dores e meus ouvidos explodiam. Aquele som... Misericórdia!

            Porém algo aconteceu durante meu curto período de trabalho que fez com que minha agonia diminuísse por um curto instante. Minha irmã havia cortado acidentalmente o dedo com uma faca enquanto preparava massa para pão, e seu grito de dor fez com que a pressão em minha cabeça aliviasse por um breve momento. Aquilo parecia absurdo, mas volto a dizer que não sou louco!

Mas eu resolvi testar.

            Naquela mesma noite, quando minha noiva veio ao meu quarto, não hesitei em lhe atacar com uma faca. Seu grito de dor fez novamente com que o som em minha cabeça diminuísse. Percebendo isso, lhe ataquei várias e várias vezes, e cada vez que ela gritava em agonia, mais eu me sentia aliviado. Porém, quando seus gritos cessaram, a dor começou a voltar num ritmo constante.

            Eu não deixaria isso acontecer. Eu não sou louco para isso!

            Perguntava-me como que os gritos não haviam chamado a atenção dos vizinhos, no entanto me enganei quanto a isso. Minha casa começou a ser invadida: aquele era o momento para eu me amenizar! Ataquei todos os homens que invadiram com a faca em uma fúria desesperada, e cada vez que aqueles resmungavam de sua dor, a minha diminuía. Até que em determinado momento, conseguiram me desarmar e conter com fortes golpes de pedaços de pau, chutes, socos e coronhadas.

            Nos poucos dias que fiquei na prisão, tive o prazer de ouvir os gritos de dor de outros detentos, quando eram espancados pelos carcereiros ou outros presos. Mas para meu azar, aquela era uma cadeia bastante vazia e não pude ouvi-los por muito tempo. Eu precisava tirar aquela música da cabeça, então comecei a agir ali mesmo. Agredi com socos, chutes e mordidas todos que entravam em meu alcance, só para poder ouvir no mínimo um resmungo do menor desconforto que fosse.

            Não sei o que minha família disse para as autoridades, nem porque fizeram questão de examinar a minha pele (inclusive de minhas genitais), mas minha sentença foi clara logo no início: sanatório de Ghartov. Aquilo não poderia ser melhor para mim! Volto a dizer, eu não sou louco, mas em um hospício eu poderia me deleitar com vários gritos de dor, correto?

            Errado! Esse lugar me deixa pior a cada dia! Claro, aqui eu consigo ouvir vários gritos, e muitos deles dolorosos, mas o fato é que a maioria deles estava misturada à loucura de meus colegas, e isso me deixa pior! Eu acreditava que não havia como piorar, mesmo depois de toda a dor e barulho originais voltarem à tona, mas a verdade é que tinha como sim! Quanto mais eu ouvia os resmungos, gemidos e gritos de loucura dos outros, o som tomava outras proporções em minha mente, como se alguém pegasse meu cérebro e o amassasse como massa de pão. Você acha que quando se leva um choque elétrico na cabeça, você grita de dor? Não! Eu sei disso, porque levei vários e digo que não dói. É o grito de uma mente primitiva, como o choro de um bebê ao sair do ventre da mãe.

Consideram-me um paciente perigoso, pelo fato de querer agredir qualquer um que chegue perto de mim, mas tente entender! Eu não conseguia sentir alívio se não fosse assim. Qualquer sinal sonoro de sofrimento me dava uma pequena brecha para poder respirar.

Estou completamente isolado, em um quarto que só é iluminado brevemente por uma janela ao nascer do sol, e no restante do tempo estou completamente no escuro. Escrevo isso nos poucos momentos de luz que tenho, utilizando um papel que encontrei por aí (já nem me lembro onde) e o sangue de ratos que eventualmente me fazem companhia. Já fazem muitos meses que moro aqui, recebendo duas refeições sem gosto por dia. Estou no mais absoluto silêncio externo, mas a música continua em minha cabeça. Sei que não irei sair mais daqui, mas sonho com o dia em que ainda poderei ouvir, mais uma vez, os gritos de dor e agonia, talvez tantos que esses sons irão embora por completo.
E volto a dizer: eu não sou louco!              

(Manuscrito encontrado em um tijolo solto em um quarto do subterrâneo, após a instituição ser fechada. Não possuí data, mas pelas descrições no texto e depoimento de funcionários mais antigos, acredita-se ter sido escrita em meados de 1920.)



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