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[RESENHA #127] A senhora de Wildfell Hall — Anne Brontë

Acervo Pessoal | Editora Record | Divulgação

RESUMO: Clássico da literatura inglesa, considerado o primeiro romance feminista, em edição integral. Filha mais nova da família Brontë, Anne era irmã de Emily Brontë, autora de O morro dos ventos uivantes, e de Charlotte Brontë, autora de Jane Eyre — livros clássicos e reeditados até hoje. Anne Brontë (1820-1849) desafia as convenções sociais do século XIX neste romance, A senhora de Wildfell Hall. A protagonista da obra quebra os paradigmas de seu tempo como uma mulher forte e independente, que passa a comandar a própria vida. Ao chegar à propriedade de Wildfell Hall, a Sra. Helen Graham gera especulação e comentários por parte dos vizinhos. O jovem fazendeiro Gilbert Markham, por sua vez, desperta um grande interesse pela moça e, aos poucos, vai criando uma amizade com ela e com seu filho. Porém, os segredos do passado da suposta viúva e seu comportamento arredio impedem que o sentimento nutrido pelos dois se concretize, fazendo com que Gilbert tenha dúvidas sobre a conduta da moça. Quando a Sra. Graham permite que ele leia seu diário a fim de esclarecer os fantasmas do passado, o rapaz compreende os tormentos enfrentados por aquela mulher e as razões de suas atitudes. Ela narra sua história até então, desde a relação com um marido alcoólatra e de conduta abominável até a decisão de abandonar tudo em nome da proteção do filho.

Palavras-Chaves: Era Vitoriana, Anne Bront, Editora Record


Acervo Pessoal | Editora Record | Divulgação
Um amigo havia me dito há um tempo atrás para ler tudo o que fosse das irmãs Bronte, e eu acatei o conselho. Li todos os poemas, ensaios, novelas — TUDO — tornaram-se meus autoras favoritas, foram as primeiras que me atrevi a ler em seu idioma natural. Porém, dentre as quatro irmãs Bronte, devo dizer que Anne me surpreende em todos os aspectos possíveis. As irmãs Bronte viveram em um ano onde a família era algo "consagrado" e ninguém poderia se quer sonhar em abandonar o seu marido, por este motivo era necessário escolher muito bem com quem fosse casar, porém, Anne desconstruiu todo este paradigma de sofrimento e escreveu a melhor história de todos os tempos, diria até que o primeiro livro feminista da história: Ela cansou de sofrer nas mãos de um homem quem não dava nada por ela e foi atrás de sua felicidade.

Após recusar alguns pretendes, Helen - uma mulher de grande senso moral e religioso - decide se casar com aquele que se sua tia, por quem foi criada, se opõe. Depois de casada com Arthur Huntingdon, aos poucos Helen enxerga o erro cometido por sua cega paixão. Arthur é um egoísta pois só visa o próprio prazer e o prazer momentâneo sem se preocupar com as consequências de seus atos. Uma pessoa que não possui o mínimo de empatia para com os outros, sejam eles familiares ou "amigos". Nunca assume seus erros, ao contrário, culpa sua esposa por toda sua bebedeira e infidelidade.  

Helen entra em desespero ao ver o marido ensinar ao filho toda essa sua má conduta e resolve fugir.

Está tudo bem falar sobre a resistência nobre e as provações da virtude; mas por cinquenta ou quinhentos homens que se renderam à tentação, mostre-me um que teve a virtude para resistir. E por que devo dar por certo que meu filho será um em mil? - E não se preparar para o pior, e suponha que ele seja assim - como o resto da humanidade, a não ser que eu tome cuidado para evitar isso?

Ler isso quase me fez experimentar o mesmo pesadelo que está encapsulado no “The Handmaid's Tale” de Atwood . É claro que os horrores que Atwood delineados em uma compostura inquietante fazem você sair horrorizado enquanto as experiências traumáticas de Helen são meramente desagradáveis. Mas há o mesmo sentimento doentio de ser mantido contra a própria vontade, a mesma repulsa que ameaça ofuscar todas as outras emoções. Um golpe por conta de um casamento abusivo e uma mulher sendo condenada a tolerar um emaranhado de homens organizados prontos para abusar de sua criança depois do dia irritante. Especialmente quando esta imagem de opressão é completada pelas inexoráveis ​​profissões de amor de admiradores de excesso de idade que não tomam a questão do consentimento, tudo isso a sério. Isso não parece bastante angustiante?

O casamento pode mudar suas circunstâncias para melhor, mas, na minha opinião privada, é muito mais provável que produza um resultado contrário.

Helen é uma personagem extremamente forte em todos os detalhes possíveis, inclusive em suas características. Acredito que a sensibilidade da irmã Charlotte, não fora herdada por Anne e isso é algo magnifico, pois tornou a história um misto de aventura (por sua decisão) de incertezas (pelas vontades de voltar ao casamento que vira e mexe retornam) e de suspense (pelos esconderijos ao longo do enredo escolhidos por Helen). Ah, e claro: Redenção. O ex-marido Gilbert é cristão e aparentemente está sofrendo pelo abandono, mas eu diria que é só “mimimi”.


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Este é o tipo de livro que irá te sacudir já nas primeiras páginas, visto que, ao invés da perspectiva feminina convencional, a narrativa abre com uma breve escrita por um protagonista masculino, Gilbert Markham. Eu não sou o maior fã de histórias emolduradas, mas este foi profundamente envolvente até o final. Através da carta de Gilbert, mergulhamos nos diários de Helen e na sua vida, que forma a maioria do romance.

A senhora de Wildfell Hall pode ser considerado um dos romances mais chocantes da Era Vitoriana, não só pelo retrato que faz do alcoolismo e da depravação (que feriram profundamente as suscetibilidades da sociedade de meados do século XIX), mas também pela caracterização da sua personagem principal, Helen Graham. Hoje em dia é fácil subestimar a forma como esta personagem desafiou as estruturas sociais e legais existentes na época. Em 1913, May Sinclair disse que o facto de Helen Graham ter, a certa altura do romance, fechado a porta do seu quarto na cara do marido acordou consciências na Inglaterra vitoriana. A heroína do romance de Anne deixa o marido para proteger o filho da sua influência e sustenta-se a si e ao filho ao trabalhar como pintora enquanto vive escondida e com medo de ser descoberta. Ao fazê-lo, a personagem estava a desafiar mais do que convenções sociais: estava a desafiar a lei inglesa. Até 1870, uma mulher casada não tinha uma existência independente legalmente reconhecida: não podia ter propriedades em seu nome, pedir o divórcio ou conseguir a custódia dos filhos. Se uma mulher tentasse viver sozinha, o seu marido tinha o direito de a reclamar como sua propriedade e, se tentasse levar os seus filhos consigo, podia ser acusada de rapto. Se uma mulher vivesse sozinha e com os seus próprios rendimentos, podia ser acusada de roubar o seu marido uma vez que qualquer rendimento era legalmente dele.

Neste livro poderemos observar o empoderamento feminino imposto por Anne em sua personagem Helen. Após um casamento fracassado, decidi que é hora de mudar o rumo de sua história e controla-la por si só, desconstruindo todos os paradigmas da época. Este romance inglês tornou-se um clássico e um sucesso absoluto após esgotar-se em apenas seis semanas de seu lançamento. O estilo de escrita de Anne é diferente da escrita de suas outras duas irmãs, Enquanto Emily Bronte possui uma narrativa sombria e obscura, Maria possui uma narrativa leve, desconstruída e leve, enquanto Anne possui uma narrativa direta, complexa e desconstruída do cenário de vida da mulher inglesa na era vitoriana.

O livro é um romance crítico. Enquanto Anne desconstrói paradigmas da época e faz críticas severas ao estilo de vida da mulher inglesa durante o século XIX, ela narra a sucessão de fatos pós separação de sua personagem Helen, que vê-se pouco tempo depois do fim de seu casamento, "na boca do povo", enquanto um de seus vizinhos — Gilbert Markham — sente-se extremamente atraído pela doce mulher e por seus encantos, porém, seu jeito retraído de ser e fechado, causam especulações e desconfiança sob sua conduta em Markham.

Anne Brontë explora temas de abuso de álcool e a crueldade que ele paga em casamento e família; Da ardente proteção de sua mãe ao filho; Implicitamente, dos padrões de silêncio das mulheres, da alienação da sociedade e do isolamento forçado: em uma história surpreendentemente explícita para o seu tempo, ainda hoje moderna e relevante, no seu encobrimento da verdade, e a prática inadvertida das mulheres de permanecer sem voz na sua situação. 

A calúnia, o descrédito e a condenação da misteriosa viúva, a Sra. Graham (Helen), formam-se sobre as línguas implacáveis 
​​das personagens justas e justas que defendem os padrões morais da cidade tão elevados que podem estar em risco de hemorragias nasais. Helen esconde  seu passado quando se torna A senhora de Wildfell Hall , Mas a discreta não divulgação de suas origens apenas serve para impugnar sua virtuosidade. 


A verdade do passado de Helen se desenrola na segunda parte do romance através da leitura dos diários que ela oferece a Markham, revelando sua vida violenta com o marido, Arthur Huntingdon - que se revela muito detalhes a muito escondidos. Os capítulos de abertura dos diários nos dão uma visão de duas mulheres: Helen jovem e impetuosa e sua cautelosa tia Maxwell, dando o tom para as perspectivas de casamento.

"Eu conheço muitos que ... foram as miseráveis ​​vítimas do engano, e alguns, através da fraqueza, caíram em armadilhas e tentações terríveis para se relacionar ... Se você se casar com o homem mais bonito e mais realizado e superficialmente agradável no Mundo, você pouco conhece a miséria que o dominaria se, depois de tudo, você deveria achar que ele era sem valor ou mesmo um idiota impraticável. " - Tia Maxwell.

Anne Brontë afirma no prefácio que o romance "diz a verdade", falando para as mulheres que sofrem nas mãos dos outros e por qualquer motivo, são incapazes de falar abertamente para si. Helen suspeita que sua tia pode ter sofrido tal experiência por seu tio que tinha mostrado sinais de ter vivido sem querer como Arthur Huntingdon; E como sua tia, Helen lida com sua desilusão de seu marido e sua crueldade ao não falar disso. Sua tia tinha sido mais próxima de seu próprio casamento aflito, talvez Helen tivesse observado sua insistência antes de deixar um homem como Arthur; E talvez, o ciclo de abuso e a inexpressividade silenciosa que se segue na moda possam ter parado. 

A terceira parte da novela mostra Helen como a esposa perdoadora e cuidadosa, embora anteriormente punido pelas mãos cruéis de seu paciente, o nutre até o seu dia de morte, evocando vagas semelhanças com Jane Eyre e o Sr. Rochester, embora Charlotte, no esforço de apoio fraternal (espero), talvez não tenha sido objeto de objeção. 

Anne, furtivamente, deixa o leitor na vida de diferentes mulheres em ângulos diferentes - esposas, mães, irmãs, adúlteras; As relações que eles sofrem - saudáveis 
​​ou não, a brutalidade que podem sofrer e as motivações que as levam para frente - para Helen, tal é o principal papel de mãe e protetora de seu filho. 

A senhora de Wildfell Hall foi publicado em 1848, uma novela que incorpora temas sociais importantes do tempo e, na minha opinião, não obteve a alta notabilidade que deveria ter. 

"Eu queria dizer a verdade, pois a verdade sempre transmite a sua própria moral para aqueles que são capazes de recebê-la. Não se imagine, no entanto, que eu me considero competente para reformar os erros e os abusos da sociedade, mas apenas eu Faria contribuir com minha humilde quota para um objetivo tão bom, e se eu puder ganhar o ouvido público, eu gostaria de sussurrar algumas verdades saudáveis ​​do que muitas bobagens nulas ". — Anne Brontë.

COMENTÁRIOS PESSOAIS


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Era Vitoriana, Inglaterra, Século XIX. Como não amar este livro? Aqui, Brontë leva-nos para dar um passeio longiquo pelas páginas de sua vida e de seu diário. Iremos entender os motivos pelos quais Helen — sua protagonista — acreditava que sua felicidade estava com Artur e não com Gilbert. As narrativas sobre alcoolismo superam nossas expectativas, uma vez que tantas mulheres vivem "em cativeiros" prisioneiras de seus maridos alcoolatras e não tomam uma posição, e Anne decidiu em pleno século XIX, mudar estas questões e colocar em pauta: E se eu pudesse ser dona do meu nariz e da minha vida? Então, cria em Helen, a personificação da vontade de muitas mulheres no século XIX: FUGIR, abandonar, esquecer, reconstruir, refazer.

O livro é simplesmente maravilhoso e a escrita de Anne é dez mil vezes melhor que de suas irmãs (ao menos para mim). Este é o tipo de livro que você precisará ler com a cabeça LIMPA de preconceitos. Entenda Helen, no fundo, no fundo ela tem razão. A "viúva" de Widfell Hall tem motivos para enterrar seu passado em sua nova vida e seguir em frente. Acredite e confie na minha indicação que este livro não é tão simples quanto aparenta ser. Indico a todos os fãs de um bom romance histórico.

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