• NOVIDADES

    quarta-feira, maio 24, 2017

    [RESENHA #133] Inocência Perdida, Priscila M. Mariano

    ISBN-13: 9788569030232
    ISBN-10: 8569030231
    Ano: 2016 / Páginas: 316
    Idioma: português 
    Editora: Drago Editorial
    Avaliação: ▲▲▲▲▲

    Até onde vai a crueldade humana? Felipe sentiria na alma e no corpo que tudo não é apenas carinho e amor. Após descobrir que tinha uma família, viu que os anos passados no abrigo São Marcos, foram os melhores de sua vida. E que a felicidade que tanto desejava em família, era ilusória e, aos poucos, descobre que a vida não é tão simples, e que até mesmo entre famílias existem monstros. Aos onze anos sentia na pele a violência e a crueldade daquele que deveria amá-lo e protegê-lo. O que poderia fazer, se a vida de seu irmão dependia de ele aceitar os caprichos de uma mente doentia? Como fugir do monstro que vivia a seu lado? Esta é a história de um menino que tinha rosto de anjo, mas viveu um inferno na vida.

    Interessante eu ter recebido este livro exatamente sete dias após o dia 18/05 que é o dia nacional de combate à exploração sexual de crianças e adolescentes. Extremamente pertinente. Uma das coisas que eu sempre disse as pessoas quando me perguntavam de minha infância, era que eu sentia uma saudade extrema da inocência de ser uma criança pura e sem uma mentalidade deturpada de pensamentos nojentos e inadequados. Este livro não é uma leitura fácil para ninguém que teme pelo próximo.

    O livro escrito por Priscila M. Mariano nos remete à um universo deplorável, onde o desejo sexual se sobressai sobre as questões e condições de vida humana. Aqui, iremos discorrer sobre o enredo que procura explicitar de forma objetiva a vida de Felipe e as desgraças que o acometem desde sempre. Felipe tem onze anos e vive com padres e amigos em um orfanto, onde vive desde que se entende por gente. A história de Felipe se cruzará de forma visceral com a da família Albuquerque. Tudo começou quando Orlando de Albuquerque vê-se obrigado a vender sua residência após uma série de seis derrames, para uma região campestre. Lá, ele conhece Felipe, já que sua residência é próxima ao orfanato onde vivia o garoto. Juntamente com a família Albuquerque vivi um garoto chamado Tobias, filho de seu filho Carlos Albuquerque, um homem que aparentemente está desprovido de todo e qualquer sentimento humano. 

    Certo dia Felipe decide fugir durante a noite acobertado por seu amigo Daniel para a residência onde morava Tobias com o avô. Orlando de Albuquerque fica intrigado com o surgimento do garoto em sua residência à altas horas da noite, e convida-o para passar a noite e no dia seguinte seria levado novamente ao orfanato.

    — Eu não consegui esperar, senhor. — Voltou a olhar Tobias — Acabaria louco. Eu precisava vê-lo, tocá-lo. Eu queria ter certeza de que não era uma alucinação. É meu irmão! Eu tenho certeza disto, como tenho certeza de que estou vivo e respirando. E sei que Tobias sente a mesma coisa. Ele o disse a mim. (p. 45)

    A história de Tobias na família Albuquerque é um tanto quanto estranha. Quando pequeno, Tobias foi encontrado próximo à residência de Orlando de Albuquerque abandonado e desde então, foste criado por Orlando e sua família. A suspeita é de ambos os filhos sejam de seu filho Carlos, que por algum motivo ou outro,  cometeu a atrocidade abandona-los quando ainda eram crianças. 

    Após uma série de fatores e acontecimentos, Carlos acaba conhecendo Felipe e apaixonando-se loucamente pelo garoto que possuía cabelos loiros, olhos claros, pele branca e macia, e decidira que este era mesmo seu filho e que iria cuidar do garoto. 

    Após certo tempo de convivência com Carlos, Felipe vê que seu pai não é tão bom quanto ele pensara quando estava no Orfanato sendo acompanhado diariamente com o padre. Apanhando diariamente por motivos banais, o garoto sempre recebia ameças por parte do pai que tratava de calar a boca do garoto. Percebendo o enorme laço de afetividade entre Felipe e Tobias, Carlos vê-se com a ideia de usar o amor de ambos para tomar todo proveito que tinha em mente em Felipe. 

    — Vou mandar Tobias para bem longe. Para uma instituição que cuida de crianças aleijadas, como seu irmão...Dementes! (p.65)

    A parte deste momento, Felipe jurou que faria tudo que o pai quisesse desde que Tobias fosse deixado de lado e que o pai não fizesse nada a ele. E ai começou toda a desgraça na vida de Felipe. Excitado pelo corpo macio e branquinho do filho, Carlos começa a molesta-lo

    — Se eu deixar o senhor fazer estas coisas comigo sempre que quiser, sem reclamar (...) o senhor me promete deixar Tobias sossegado? (p. 91)

    A partir deste pacto entre ambos, a história começa a ter uma narrativa cada vez mais complicada, difícil e dolorida. Carlos considerava seu filho Felipe como "um briquedinho", e usava-o como se estivesse fazendo sexo com um masturbador, sem pudor, sem se importar com as dores do garoto, com os sangramentos e até mesmo com suas lágrimas, sempre repetindo no ato do coito "Dor é prazer, meu garotão".

    Esta não é apenas a história de um pai que molesta seu filho, é a história de um monstro que obriga em todos os sentidos possíveis o filho negar que os ocorridos estejam de fato ocorrendo, fazendo sempre que o menino minta perante os avós e empregados da casa. 

    Uma das cenas mais fortes de todas no livro é o combinado do pai com o filho em ir para seu quarto à meia noite, que era a hora em que a madrasta de Felipe (mulher de Carlos) estaria dormindo, e assim foi feito. Carlos tornou a molestar seu filho, obrigando-o a fazer sexo oral em si. Após este momento veio a pior frase que uma criança molestada poderia ouvir — "Um dia você sentirá prazer em ser comido (...) —"

    COMENTÁRIOS PESSOAIS

    O livro possui uma narrativa muito forte. A própria autora disse que relutou bastante com relação a publicação deste livro. As cenas não são fáceis de lidar e o nojo que o leitor sente com relação ao pai é imenso, e ainda pior quando sabe-se que o mesmo era habituado em molestar crianças, durante a leitura iremos perceber que ele não foi o primeiro e nem seria o último. Iremos conhecer todo um mundo por trás da pedofilia e terceiros que abusam descaradamente do garoto de forma abusiva em todos os aspectos possíveis.

    Todo o esforço era feito por Felipe para que seu pai não fizesse nada à Tobias, visto que uma vez seu pai lhe disse "Não me custa nada trocar Você por Tobias, são idênticos mesmo (...), a partir deste momento, Felipe gelou e teve a certeza de que não queria que seu irmão passasse pelo mesmo que ele estava passando e por isso, tornava-se tão submisso às ordens do pai. 

    Leitores que possuem estômago fraco ou militância em algum aspecto podem ter uma certa dificuldade em terminar esta obra, justamente pelo excesso de pornografia abusiva explícita no mesmo. A autora realmente cumpriu seu intuito, que era criar uma história forte com traços reais, alertando-nos de que isso pode — e provavelmente está — acontecendo em vários lares por ai, onde o pai, avô, irmão, tio ou qualquer outro familiar está abusando, violentando e estuprando uma criança, adolescente ou incapaz.

    Pela leitura, criatividade de enredo, descrição de fatos e pela mensagem este livro valeria um prêmio. Até agora não consegui me encontrar verdadeiramente em mim, por que um pedaço de mim que está inteiramente compadecido com a situação de Felipe e este, não voltará jamais.

    ESPECIFICAÇÕES

    Escrito por Priscila Mariano através da Drago Editorial. Capa em acabamento brochura, folhas em pólen soft 30g/m².