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[RESENHA #118] Quando tinha cinco anos eu me matei, Howard Buten


A voz narradora desta história pertence a Burt, um garoto de oito anos com uma imaginação fecunda e que se expressa por meio de uma linguagem livre, rebelde, misteriosa e, por isso mesmo, incompreensível aos homens de bata branca do Centro de Internamento Infantil no qual está preso, por conta do que fez a Jessica. Eles o assediam, insistem, de modo compulsivo, em ler sintomas clínicos em suas fantasias e tentam submeter seus impulsos infantis aos ditames da moralidade adulta. Uma prosa maravilhosamente eficaz, um romance hipnotizante e cheio de momentos de pura emoção.

Quando tinha cinco anos eu me matei — página 17

Ninguém jamais vai entender os percalços de se ser uma criança comum, pura e convicta de sua existência cheia da essência daquilo o que é a personificação da inocência. Quando tinha cinco anos eu me matei, narra a vida de Burt, um garotinho de oito anos que vê-se preso em um centro clínico de cuidado para crianças, tudo isso devido ao que Burt fez à Jéssica. 

Estou no centro de Bem-Estar para crianças. Estou aqui pelo o que fiz à Jéssica — Página 09 

Antes de iniciarmos o resumo básico da obra, vamos falar primeiramente do autor desta icônica e magnifica escrita. Howard Buten é psicólogo especializado no atendimento de crianças — autistas principalmente —, o autor também possui uma ligação forte com as crianças que creio eu, nasceu de sua profissão e de seu contato frequente com elas. Especialista em comunicação infantil e tratamento intensivo para compreensão de crianças autistas, Buten nos apresenta uma escrita leva, direta, despretensiosa e objetiva. O universo ao qual Burt vive, é o mesmo que o nosso, porém, as visões de Burt e do senhor Nevele — responsável por tratar as crianças no centro onde encontrava-se Burt — são completamente diferentes, afinal, Nevele não possui a visão e a inocência que Burt carrega, principalmente pelo fato de ser uma criança incompreendida no meio de um mundo só de adultos.

Neste livro iremos conhecer Burt e sua vida cotidiana seguindo os tratamentos, e claro, conheceremos um pouco de toda sua inocência e visão aguçada do universo. Burt é o tipo de garoto prolífico na arte do pensar, consegue tirar suas próprias conclusões de forma incrível, onde nós, como leitores e adultos nos perguntamos o tempo todo se não subestimamos o personagem por se tratar de uma criança, afinal, é assim que sempre acontece: Nós crescemos e nos esquecemos de que um dia aquele retrato de inocência, já foi nós.

Tinha uma foto na mesa do doutor Nevele, de crianças e tinha uma foto de Jesus Cristo que acho que é falsa, porque eles não tinham câmera na época — Página 10
A complexidade expressa por Burt e suas atitudes vai muito além daquilo o que podemos compreender, afinal, a complexidade infantil é de tamanho alvoroço, que para compreendê-la, talvez seja necessário fazer-se criança, ou seja, igualar-se aquele ser para compreendê-lo em sua visão de mundo, que para nós, torna-se cada vez menor, menos perceptível.

Afinal, qual o problema de Burt?

— Burt, eu quero que sejamos amigos. Amigos contam coisas uns para outros. Para que possa ajudar a descobrir qual o seu problema e ajudar você a resolver. Você é um menininho doente. Quanto antes você me deixar ajudar, mais rápido vai melhorar e vai voltar para casa. Você vai me ajudar, não vai? — página 12

Burt tem um complexo — ou podemos chamar de mania — de sonhar acordado e imaginar situações em sua cabeça e mistura-las ao momento presente, isso faz com que tenha-se uma visão diferente do mundo. Burt possuía apenas um único amigo, ao qual chamou de Shurbs, até conhecer Jéssica e ser acusado de fazer algo contra a pequena garota, isso leva-o diretamente para um centro de tratamento, onde acreditam cegamente que Burt possa ser ou desenvolver uma sociopatia.

— A primeira vez que vi Jéssica Renton foi durante a simulação de ataque aéreo — página 18


O livro nos mostra as visões e narrativas de Burt dentro do Centro Bem-Estar anteriores à sua internação, uma verdadeira viagem ao desconhecido, literalmente. Conheceremos o universo de Burt, sua visão do mundo e tudo o que antecede sua internação do centro de cuidados, e claro, entenderemos um pouco melhor quem é Jéssica e o que Burt fez para para que fosse praticamente considerado um "psicopata" pela mãe de Jéssica para ser enviado para internação.

Burt possui uma admiração imensa por Jéssica e isso fica evidente já nas primeiras folhas, quando ao falar de Jéssica, Burt mostra-se triste por algo que não é evidenciado de forma explícita, apenas anunciado "Estou aqui pelo o que fiz á Jéssica", porém, o caso só vem a tona no final do livro.

Burt possui um único amigo além de Jéssica, seu nome é Shrubs, um amigo imaginário. Quando não está falando sozinho ou pensando, Burt está falando com Shrubs, até a chegada de Jéssica.


A mamãe falou que um dia, quando eu for adulto, vou querer amar alguém, e isso significa que eu não vou querer que ninguém machuque está pessoa. Eu achava que esta pessoa era o Shrubs. Mas não era. Era a Jéssica — Página 174


COMENTÁRIOS PESSOAIS


A obra de Howar Buten é uma obra reflexiva acerca dos percalços acometidos na vida de crianças autistas. A visão como psicólogo do autor mostra-nos que assim como Burt, outras crianças podem se sentir excluídas ou até mesmo incompreendidas. Burt em dado momento pensa que o senhor Nevele não entende nada de crianças, e isso o deixa extremamente chateado.

— E o doutor Nevele. Ele não entende as crianças, e isso deixa ele triste. (página 182)

Podemos entender que sob a visão de Burt, o psicólogo responsável por cuidar de suas sessões não o compreendia, não entendia o que se passava com ele, e de fato em alguns momentos ele tem razão, afinal, ninguém sabia ao certo.

O livro é uma pérola preciosa, convenhamos que é um dos melhores livros que já se foi publicado. A edição da Radio Londres está impecável em todos os aspectos, impossível não amar esta história. Howart Buten presenteou o mundo com sua escrita fantástica acerca de algo tão inovador e mágico: O mundo das crianças, porém, sob uma ótica diferenciada, uma criança com autismo. Entender o relacionamento de Burt e seus sentimentos consigo mesmo, seus pais e a saudade de Jéssica é algo estarrecedor.

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