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[RESENHA] Vida para Consumo — Zygmunt Bauman

ISBN-13: 9788537800669
ISBN-10: 853780066X
Ano: 2008 / Páginas: 200
Idioma: português 
Editora: Zahar

Um dos mais perspicazes pensadores da atualidade, Bauman nos revela a verdade oculta, um dos segredos mais dissimulados da sociedade contemporânea: a sutil e gradativa transformação dos consumidores em mercadorias. As pessoas precisam se submeter a constantes remodelamentos para que, ao contrário de roupas e produtos que rapidamente saem de moda, não fiquem obsoletas. Bauman examina ainda o impacto da conduta consumista em diversos aspectos da vida social: política, democracia, comunidades, parcerias, construção de identidade, produção e uso de conhecimento. E dá especial atenção ao mundo virtual: redes de relacionamento, como Orkut e MySpace, não refletem a ideia do homem como produto?

Na introdução do livro “Vida para Consum o – A transformação das pessoas em mercadoria”, Zygmunt Bauman aborda as dive rsas implicações que o consumismo descontrolado e in consequente exerce sobre o consumidor, afetando drasticamente a sub jetividade deste. O autor apresenta, principal mente, a interferência do consumo nos padrões sociais, fazendo a sociedade cada vez mais refém de interesses capitalistas, sendo moldadas, inconscientemente, a se comportar como mercadoria. Essas conse quências, organizadas pelos donos do capital, só tem um objetivo final: o consumo exacerbado.

Bauman começa o livro ilustrando três casos independentes causadores do marketing pessoal. Primeiro ele mostra a reciclagem virtual que ocorre nas redes so ciais, que atrae m muitos usuários primeiramente, e depois ficam obsoletas para a próxima rede social. Nestas redes, os usuários trocam informações constantemente de suas vid as particulares, e, assim, o jogo da sociabilidade é reforçado pela necessidade de se expor, de vend er sua mercadoria. A inclusão virtual s e t orna uma identidade, e quem não se insere em tais redes é considerado “morto”, sem vida social. A mescla do público e do privado constitui cada vez mais para se obter um suposto elevado status social. Já o próx imo caso il ustra sistemas informáticos que definem os consumidores de acordo com seus registros, classificando-os em três escalas. Quem está no primeiro escalão tem prioridade de atendimento, e quem está no último é remetido a um atendimento mais precário. Fo rma-se, assim, uma hierarquia do capital, onde quem t em ma is poder aquisitivo tem mais benefícios. O último caso elucida um sistema baseado em pontuações de im igrantes, para garantir pessoas qu e se encaixem perfeitamente nas necessidades que o país possui. Esses i migrantes são vistos como potenciais consumidores que nutrirão diversos setores do país. Chega -se a se dizer que essa imigração s eletiva é democrática. Ambos os três casos podem se r comparados a teoria darwinista, onde apenas os mais “fortes” e bem preparados sobrevivem. S endo assim, três casos que parecem distintos, têm um ponto em comum: a ex istência de pessoas que foram estimuladas a f azer seu marketing pessoal a fim de elevar seu status social.

Para entendermos como tal cenário se estabeleceu é preciso, primeiramente, entender o funcionamento do sistema capitalista. Um dos pilares do capitalismo é a existência da compra e venda de mão-de-obra. Dentro dessa lógica, o capital tem o papel de comprador e o trabalhador o de mercadoria. O Estado funciona como um mediador desse encontro, garantindo sua efetivação a p artir da estimulação do comprador, arcando com os eventuais riscos da transação. O trabalhador precisa atrair a atenção dos eventuais empregadores, porém não consegue alcançar tais condições de exigência sem a eventual ajuda do Estado. A este, portanto, é exigido a garantia de pessoas bem preparadas a execução do oficio as quais se candidatam. Porém, o consequente endividamento do Estado provedor levou a um q uadro de desregulamentação e pri vatização. Decidiu-se por manter os mecanismos de incentivo ao compr ador, ou seja, os investimentos do capital, mas não se teve a mesma preocupação com os trabalhadores. Agora, ficaria a cargo do próprio manter-se como mercadoria desejável. As garantias anteriormente dadas pelo Estado como saúde, educação e moradia de qualidade seriam terceirizadas ao próprio indivíduo. Tornou -se, assim, natural e lógico, por exemplo, pagar altos custos pela educação dos filhos, pois esta seria uma maneira de garantir que estes fossem profissionais bem qu alificados para o mercado de trabalho. A ausência de regulamentação permitiu ao capital adot ar novos padrões de exigência. Na atualidade, não basta mais ser apenas um profissional bem habilitado, é preciso também ser descompromi ssado. A nova lógica do mercado exige disponibilidade dos trabalhadores em tempo integral, além da ausência de vínculos, tanto profissionais quanto pessoais.

Dentro desse novo modelo flexível, onde impera a ausência de compro missos e de estabilidade, surge uma nova realidade. Porém, antes disso, durante a antiga sociedade de produtores, ocorre um fenômeno chamado fetichismo da mercadoria. Bolsas e sapatos, por exemplo, deixaram de s er u m produto estritamente humano para torna-se objeto de adoração, adquirindo um val or simbóli co. Começa-se, assim, a desconsiderar o fato de que o consumo e o desejo pelas mercadorias afetam a próp ria vida pessoal e a vida de outras pessoas. Ex iste uma alienação sobre as condições sociais criadas para a exist ência desses produt os, e ignora-se que esse desejo não é natural, ele foi construído e é constantemente estimulado, a partir da criação de n ecessidades pré-determinadas veiculadas pelas propagandas. Além disso, há a constante insatisfação do consumidor, onde uma nec essidade preliminarmente satisfeita gera quase automaticamente outra necessidade, num ciclo contínuo onde o final do ato consumista é o próprio desejo de consumo (Retondar, 2007).

A continuação e estabilização dos mecanismos necessários para o sucesso de um sistema capitalista, é finalizado durante a criação da chamada soci edade de consumidores. O advento de novas tecnologias aumentou a produção e exigiu um aumento do consumo. Iniciou-se assi m um processo de naturalização do consumo a partir da educação das massas c onsumidoras, feito através de um fenômeno chamado fetichismo da subjetividade. As pessoas começam a criar suas identidades a partir das mercadorias que consomem, sendo convencidas de que o ato de compra fortalecia suas indi vidualidades. O consumidor passa então a ver o ato de consumir como um sinal de liberdade e não de condicionamento, diante de tantas opções, suas escolhas definiriam qu em ele é. É criado o desejo de estar sempre em destaque, dist into da m assa. S omado a isso, existe a defesa do alcance dos pr azeres imediatos, fortalecido diante dos novos valores de ausência de apego e planejamento. Essas duas v ariáveis juntas são a arma do capitalismo para o consumo sem fim, veiculando a imagem de que sempre existe uma mercadoria mais nova e mais satisfatór ia, que irá fazer a pessoa se sentir mais especial, levando os produto s a te rem uma curta ex pectativa de vida. As subjet ividades passam a ser socialmente construídas pelo intermédio de apropriação de significados e sentidos previamente estabelecidos pelo discu rso publi citário. Agora, a realização pessoal só po de ser alc ançada através da auto -expressão, tornando pú blico a aquisição de todos os bens, fazendo ao mesmo tempo propaganda de mercadorias e de si mesmo. Logo, podemos dizer que ocorre uma vivencia si mból ica da indi vidualidade, uma vez que os valores estão sempre mudando

Mudanças também ocorrem no âmbito dos relacionamentos pessoais, marcados pela alta velocidad e, volatilidade e efemeridade. As pessoas passam a ser vistas como descartáveis tanto no mercado de trabalho quanto na vida. A ausência da necessidade de compromissos leva a uma indiferença em relação ao cultivo de relacionamentos a longo prazo, que ex igem dedicação. Esta deve ser di recionada apenas ao trabalho. O advindo da internet fortaleceu ainda mais essas ideias ao permitir a ausência do contato pessoal, tornando ainda mais fácil o não envolvi mento. Ademais, estimulou a possibilidade de se enxergar as pess oas como mercadoria e de enxergar a si próprio também como tal, uma vez que o processo de escolha o corre de maneira similar a uma compra. Tal cenário é facilmente observável através da analise das redes sociais, onde é exteriorizado apenas os aspectos positivos de ca da um, tal qual a descrição de uma mercadoria que tem o objetivo final de ser comprada. Além disso, os encontros virtuais são uma maneira eficiente de se e vitar os riscos encarados em um encontro face a face, que exigem uma dose de vulnerabilidade, retirando as pessoas de sua posi ção de controle total da situação. Conhecer uma pe sso a no seu íntimo, para o bem e para o mal, não é mais uma prioridade. É propagada uma certa dose de robotização d a sociedade ao deixar que si tuações como um aperto de mão, um abraço, um olhar ou um sorriso deixem de ser vistas como essenciais.

Fica claro enxergar como a lógica do me rcado in vadiu a intim idade d as p essoas, env enenando sua s vidas. Foi dado as pessoas o direito de tratarem umas as outras e a si mesmas como mercadorias, tudo o que não é mais satisf atório é instantaneamente rejeitado e substituído. Bauman alerta para o fato de que valores como amizade, devo ção, solidariedade e, principalmente, amor, destinados a des empenhar um papel de cimento no edifício do convívio humano, estão desaparecendo. As práticas consumistas prometem que o alcance da felicidade é um caminho fácil e livre de problemas, totalmente contrário as exigências do amor. Assim, uma pessoa se gue uma rotina det erminada pelo seu estilo de vida, na tentativa de se tornar cada vez mais bem sucedida , mais livre, mas nunca alcança a satisfação plena e duradoura (Mancebo et al, 2002).

Portanto, diante de todas essas perspectivas apresentadas, podemos identificar que há um investimento maciço do capital em diversas ferramentas d e alienação e assujeitação. Vivemos em uma sociedade onde inst rumentos de manipulação, como a televisão, controlam e moldam devastadoramente os ideais do sujeito, inverte ndo o modo ori ginal d e ação sujeito-objeto, causando o manuseamento do objeto sobre o sujeito. Como tentativa de escape d essa escravidão, é prec iso compreender três p rocessos fundamentais: primeiro, o indi viduo tem de decifrar toda a realidade em que está inserido; segundo, necessita de coragem para enfrentar essa realidade e, por fim, deve organizar -se para vencer as adversidades que surgirem. Somente d e maneira conjunta se rá possí vel superar o capitali smo e todas as suas práticas que retiram a humanidade dos seres humanos.


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