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    quarta-feira, junho 07, 2017

    [RESENHA #139] Dezesseis, Rachel Vincent

    Acervo Pessoal | Universo dos livros | Divulgação

    Dezesseis. VINCENT, Rachel. São Paulo: Universo dos livros, 2017. 240p. ISB 97-8855-030-153-2 / R$31,90

    RESUMO: Dahlia 16 não é única. Ela é uma das 5.000 meninas criadas igualmente, para servir a cidade de Lakeview como uma produtora de alimentos. Vivendo cercada por outras garotas com seu próprio rosto. Não há emoções para Dahlia 16 não possuí orgulho, necessidade ou desejo. Pelo menos, não deve haver. Mas, de vez em quando, existe um criado que é considerado defeituoso. E Dahlia está começando a pensar que ela pode ser uma delas. Especialmente quando ela encontra o Trigger 17 em um elevador. E, de repente, o destino de 4.999 outras garotas exatamente como ela, vestindo seu rosto, descansa em seus ombros. Existe alguma coisa que ela possa fazer por eles? Ou estão todos condenados?

    Palavras chaves: Rachel Vincent, Distopia, Ficção Científica

    Lakeview é uma cidade organizada por um governo de forma minuciosa. Tudo em Lakeview é projetado para funcionar perfeitamente como uma engrenagem. Em Lakeview existe uma instituição de ensino que cria pessoas geneticamente para trabalhar em função de toda a sociedade. Dhalia 16 faz parte de uma de várias classes denominadas e classificadas de acordo com sua idade e especialização na qual foram instruídas para fazer. Aqui não há sentimentos ou vontades, apenas deveres e obrigações. Dhalia, Violet, Mace e Trigger são salas distintas que destinam-se à um setor "x" da sociedade. Esta é uma distopia clássica mesclada com uma pitada de romance "amor a primeira vista".


    Sei que a administração tem seus motivos para fazer a cidade funcionar assim, e sei que não cabe a mim entendê-los. Mas não consigo perceber como isso pode fazer sentido. — pág. 27

    Dhalia 16 é excelente no que faz, desde que se entende por gente trabalha no setor de agricultura de Lakeview, isso fez com que se torna-se a melhor de sua turma no quesito plantio e colheita, o que acabou chamando à atenção da diretoria, afinal, todas elas deveriam obter o mesmo desempenho, já que todas foram "construídas" a partir de um único genoma/genes.


    Qualquer coisa que fuja da norma, ameaça a eficiência do sistema como um todo — pág.15
    Dhalia que estava habituada á levantar-se diariamente e deparar-se com rostos semelhantes ao seu por todo local, agora estava sendo intimada a sala da diretoria para ser promovida, porém, isso deixaria-a de fora do local ao qual está habituada e ela não sabe como responder, afinal, seus sentimentos e pensamentos que deveriam ser contidos, agora possuem vida própria e sua opinião começa à estender-se por todo seu corpo, fazendo-a acreditar que estava realmente com defeito e que isso prejudicaria seriamente todas as outras garotas que foram feitas a partir do mesmo genoma.

    Eu vejo rostos que são diferentes do meu o tempo todo, mas nunca me sentei numa mesa cercada de pessoas que não se parecem exatamente comigo — pag. 11


    Embora talvez existam apenas vinte meninas em toda a classe de administração do ano 16, há cinco mil estudantes de curso profissionalizante de 16 anos que tem o mesmo rosto que eu — pág. 13
    Dhalia começa a entrar em conflitos internos consigo mesma quando vê-se em algo inédito: Ela pode pensar por si própria. — [...] Nem consigo entender por que quero tanto responder. Será que esse impulso é um sinal de um defeito no meu genoma? pág. 20

    Ao ser dispensada da sala, Dhalia vê-se mais pensativa do que nunca com tudo o que acontecera na sala. Ela já tinha ciência de que outras unidades foram exterminadas por falhas no genoma e isso não poderia acontecer á Dhalia 16, de forma alguma. No caminho de volta para unidade de trabalho, vê-se presa por uma falta de energia no elevador juntamente com Trigger 17.


    Acervo Pessoal | Universo dos livros | Divulgação


    Trigger 17 era o nome de um grupo menor de estudantes. Estes por sua vez, eram soldados e constituídos unicamente por meninos. Trigger é como Dhalia, conhecedor de todo sistema e de todas as punições, porém, tem ciência que a ausência de energia faz com que as câmeras de vigilância parem de funcionar e por fim, acaba surgindo uma brecha para quebrar a regra mais vital de toda corporação: O silêncio de uma classe para com a outra. É terminantemente proibido entrar em contato com outros alunos, a não ser que fossem as saudações pré-estabelecidas pela direção.


    Mal posso imaginar como suas aulas devem ser diferentes das minhas. Eu aprendo a nutrir a vida e ele aprende a tira-las. pág. 25

    Quando Dahlia vê-se atraída por Trigger isso à faz pensar que talvez seu destino esteja acabado, afinal, ela supostamente estaria com defeito. A conexão entre Dahlia e Trigger é instantânea, apenas um encontro foi capaz de deixa-la desconcertada a ponto de culpar-se quase o tempo todo por seus sentimentos, afinal, eles estavam corrompendo o sistema ao qual ela estava introduzido: Um sistema que não poderia ser quebrado. Alguns encontros e conversas breves muito bem articuladas, trabalhadas e desenvolvidas, Dahlia e Trigger meio que começam à sentir a necessidade do outro constantemente, é como se fosse o famoso "Amor a primeira vista". 

    Apaixonar-se em um sistema onde tudo e todos são iguais e acostumados à viverem desta maneira, pode ser terrível. Como isso pode proceder? O que acontecerá com Dahlia e Trigger? Rachel Vincent possuí uma escrita peculiar, forte e instigante, trabalhando fortemente a forma com a qual descreve e elabora seus personagens, dando-nos a sensação de quase poder apalpa-los, como se fossem realmente reais. Seus sentimentos, vontades, tarefas e desejos são extremamente realísticos e a capacidade de Vincent em narrar acontecimentos de forma minuciosa e detalhada é precisamente o ponto do êxtase desta obra. Simplesmente incrível.

    Tudo é incrível neste livro, até mesmo pelo enredo construído de forma minuciosa e pensada em cada detalhe. Vincet nos mostra a rotina, vida e sentimentos de uma garota que conta-nos como se sente por desejar um garoto, por ser diferente de todas as outras. Ela tem sentimentos, emoções e vontades e deseja vivê-las, porém, não sabia que isso era possível.


    Acervo Pessoal | Universo dos livros | Divulgação


    Vincent nos ajuda a experimentar um beijo na perspectiva de uma garota que nem sabe que sua boca pode fazer isso. Ela toma algo tão simples como a cenoura para nos ajudar a vê-lo como único. Os quatro últimos tópicos apresentados neste livro e as revelações e segredos implícitos no enredo que vão surgindo com o passar do folhear das folhas, é algo que intriga qualquer leitor e deixa a leitura ainda mais fluída e rápida, já que no início ela apresenta-se um pouco mais lenta, visto que Vincent está apresentando os personagens, a corporação e o sistema.

    Você sempre ficará com questões sem respostas em sua cabeça, que possivelmente só serão respondidas no segundo volume de Dezesseis. A primeira questão talvez seja sobre a própria protagonista, afinal, quem é Dahlia 16? Por que a cidade necessita tanto destes recursos (soldados especiais, cozinheiros, jardineiros) e por que tudo de forma tão mecânica? Por que as classes são divididas de acordo com a idade? Será que este universo utópico onde tudo é minuciosamente pensado e trabalhado possui alguma falha? É o que iremos descobrir.

    Aqui iremos ter uma visão diferente da sociedade de outros livros. No livro de Vincent, as pessoas são criadas com traços, vontades e sentimentos que beneficiem a sociedade como um todo, ou seja, ninguém possuí vontades absolutistas ou algo do tipo. Dhalia é exceção. Dhalia recebe à ajuda de Trigger para descobrir que ela é uma anomalia e ensina-a como ser um individuo com personalidade própria, fazendo-a perceber que o erro não está em si, mas sim no sistema.



    Citações presentes nesta obra:


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    Eu vejo rostos que são diferentes do meu o tempo todo, mas nunca me sentei numa mesa cercada de pessoas que não parecem exatamente comigo — pág 11


    Pouco antes, ela tinha sido Dhalia 4, assim como eu. E dentro de mais um ano, eu seria ela (...) pág. 06

    Eu faço minhas refeições, divido o beliche, trabalho e estudo com outras meninas do ano 16 da Divisão de trabalho Profissional. Tenho pena de algumas unidades menores, porque poucos rostos que elas veem diariamente são parecido com os delas — pág. 12


    Embora talvez existam apenas vinte meninas em toda a classe de administração do ano dezesseis, há cinco estudantes de cursos profissionalizantes de 16 anos que tem o mesmo rosto que eu pág. 13

    Qualquer coisa que fuja da norma ameaça a eficiência do sistema como um todo — pág. 15


    Você é apenas um pixel entre os milhares necessários para formar uma imagem clara, então você precisa se concentrar nesta imagem geral. Se sua arrogância for considerada uma falha genética a Liderança não terá escolha a não ser, recolher todas pág. 16

    (...) Nem consigo entender por que quero tanto responder. Será que este impulso é um sinal de um defeito no meu genoma? — pág. 20


    O calor das minhas bochechas desce até o meu pescoço, só com a ideia de expressar meus pensamentos pág. 24

    Mal posso imaginar como suas aulas devem ser diferentes das minhas. Eu aprendo a nutrir a vida, e ele aprende a tirá-las. — pág. 25


    Sei que a administração tem seus motivos para fazer a cidade funcionar assim, e sei que não cabe a mim entendê-los. Mas não consigo perceber como isso pode fazer sentido. pág. 27

    Os soldados são todos diferentes de seus idênticos. Eles se enxaicam porque são diferentes — pág. 28


    Tento afastar esse pensamento, mas não consigo expulsá-lo da cabeça. Quero ser melhor em tubérculo do que Olive, da mesma forma que eu queria ser melhor que todas as outras em grãos, vinhas e legumes. E não só pela glória de Lakeview. (p. 10)

    O que é esse sentimento? Por que me sinto atraída por ele como um imã por um metal, quando sei que apenas isso é suficiente para significar problemas para nós dois? (p. 82)


    Há algo de errado comigo, e o único homem que sabe qual é o problema acabou de fugir para se salvar. (p. 93)

    Achei que estivesse preparado para morrer.- Estou. Mas não estou preparado para ver você morrer. (p. 127)


    Agora, o que vejo no refeitório não são centenas de idênticas minhas terminando de comer peito de frango, milho com manteiga e feijões pretos, mas uma sala cheia de corpos olhando para o teto com olhos vazios. Centenas de corpos iguaizinhos a mim, mortos. (p. 49)