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[ENTREVISTA] Alan de Sá, autor de "Marani"

Alan de Sá | Acervo Pessoal | Divulgação

E a nossa entrevista de hoje é com um autor ousado. Alan de Sá (22), mora em Feira de Santana (BA) e escreve com paixão acerca dos assuntos mais diversos do meio brasileiro. "Marani", é seu primeiro livro e será lançado através da editora MultiFoco em agosto, ainda sem data definida. Alan conta-nos um pouco sobre o enredo de seu livro, sobre a premissa e sobre ideias tão revolucionárias quanto as de se escrever sobre temáticas tão brasileiras. Um misto de Brasil colônia, com lendas, histórias e uma dose fantástica de suspense. 


1. Alan, seja muito bem-vindo ao Próximo Parágrafo. Conte-nos um pouco mais sobre você e sobre como nasceu seu relacionamento com a escrita. 

R: Olá. Bem, é uma história curiosa. Nunca fui um leitor assíduo, nem ninguém em minha família. Li meu primeiro livro aos 15 anos, "Os Sete Falcões", de Márcio Borges. Li, naquele momento, porque precisava dele para um trabalho de língua portuguesa. Não me orgulho em contar isto, mas é que faz parte de tudo, saca? Foi meu primeiro passo no mundo literário, um passo forçado, algo inesperado. Depois comecei a ler, de fato, com Verne, Dumas, Lewis, Tolkien. E, somente aos 19 anos, que vi que também poderia me arriscar nos meus primeiros textos. Mas aquilo também foi inesperado, porque minha primeira historia nasceu em um grupo do Whatsapp. Então eu tenho uma vida como leitor que não havia planejado e uma vida como escritor que surgiu de um lugar totalmente diferente do habitual. Mas fico feliz que coisas inesperadas como estas tenham acontecido em minha vida. 

2. O livro conta a história de um índio, filho do Boto, que parte em busca de seu irmão gêmeo desaparecido, o que é algo extremamente interessante para se levar em consideração, levando em conta que nos ditos e lendas populares, seu pai — o boto — é um ser fantástico que galanteia e enamora diversas mulheres durantes as festividades dos santos. Como nasceu a ideia de criar uma história baseada em um de seus possíveis filhos?

R: A gente sempre escuta muito falar do Boto, mas ninguém foca nos filhos dele. O que é estranho, porque eles são uma parte essencial da lenda do Boto. Quando pensei em um protagonista imerso num mundo em que os seres do folclore são reais, quis imergir o máximo possivel nisto. Então por que não utilizar um filho do Boto? 

3. O seu livro é o que podemos chamar de tesouro histórico brasileiro. Nele iremos conhecer através de um personagem não explícito, a história de boto e de Iara, sequestradora de seu irmão e razão de suas aventuras. Como surgiu a ideia de utilizar de histórias e lendas brasileiras para criar um enredo tão atrativo?

R: "Tesouro histórico" é o tipo de elogio que atiça meu ego de ascendente leonino, risos. Cara, a gente cresce ouvindo histórias. E, se elas existemn, é porque, das duas uma: ou são reais ou são muito fortes. Eu sou do interior da Bahia, minha avó é ainda mais interiorana. Ela contava do Lobisomem que comia os porcos da fazenda dela. Quem ia dizer que era mentira? Aquilo era vivo para ela, o que também se tornou vivo para mim. Eu precisava contar a minha visão daquilo tudo: do Curupira, do Saci, da forma como eles se relacionavam. Não queria ter que recorrer a outra mitologia que não a nossa pra fazer meu primeiro livro. Dessa necessidade que nasceu Marani. 

4. O pano de fundo emergente desta narrativas é sem sombra de dúvidas o período histórico ao qual é submetido: Brasil colônia. Podemos dizer que seu livro foi minuciosamente pensado em todos os detalhes: Um indio partindo ao encontro do irmão que foi sequestrado por Iara, durante um período onde a escravidão era emergente. Por que optou por este período histórico? Foi pela criação dos conflitos que você já tinha em mente, ou pela identidade já elaborada de seu personagem principal?

R: Eu pensei em um período onde a relação entre personagens humanos e seres da floresta pudesse ser ainda mais fina. Um Brasil colônia, com personagens históricos, pouca tecnologia e alto poder de crer no que a natureza tem. Para mim foi perfeito usar este período. Claro, eu havia pensado no conflito do protagonista e achei interessante que ele estivesse imerso naquele momento e tivesse passado por algumas situações provinientes dele. Marani não é só um índio, é um jovem que foi escravizado, catequizado, alguém que conheceu a maldade de perto e ele carrega as marcas disto na pele e na mente durante toda a narrativa, que é bem introspectiva. E, sendo sincero: não vejo nenhum período melhor que o Brasil colônia para uma história nestas condições. 

5. Como nasceu seu relacionamento com histórias fantásticas? Pretende escrever outros livros dentro do gênero?

R: Meu primeiro livro de fantasia foi "As Crônicas de Nárnia", que li duas vezes. Eu amei a forma como tudo era feito e como tudo me inspirava. Eu não sei se você já leu, mas Nárnia te faz olhar tudo de maneira diferente, principalmente guarda-roupas e lampiões, risos. Sim, tenho outros projetos de fantasia, alguns bem extensos, mas agora estou focando em uma outra vertente que gosto muito: a ficção científica. Estou produzindo uma história neste gênero, e como grande parte dos meus autores favoritos - Asimov, Wells, Verne, Huxley - são dessa pegada, tô me sentindo ótimo. 

Capa Oficial de "Marani"

6. "Marani", é o tipo de obra que pode ser facilmente utilizada em salas de aula, pelos ricos detalhes acerca do período histórico, pelos personagens e pelas lendas inteiramente brasileiras. A essência inicial do livro com relação ao Brasil, suas riquezas e crenças, foi sempre a mesma, ou foi algo que aconteceu durante o processo de elaboração do enredo?

R: Eu até que gostaria que "Marani" pudesse ser utilizado em sala, mas não sei se meu livro atenderia a todos os quesitos com relação a "obra educacional infanto-juvenil". Bem, eu quis fazer um "mix" de referências. Por exemplo: a obra se passa no período colonial brasileiro, ainda que isto nunca seja dito durante o livro; existem plantas e árvores nativas da Amazônia, mas nem todas são exclusivas do lado brasileiro da floresta. Havia muito mais no projeto inicial, pensei até em colocar a lenda da cidade de Akakor na história, mas não quis gerar poluição literária, se é que isto existe. Meu processo de elaboração foi de pensar na utilização das lendas - quais eram as melhores para aquele livro, quais mais me chamavam atenção, quais tinha mais proximidade -, em definir o período em que o livro se passaria, como seriam estes seres da floresta - que, dentro do livro, ganham uma roupagem diferente da clássica -, como reagiriam entre si e como dar profundidade ao enredo. 

7. Quais foram suas principais inspirações para a criação da identidade de seu protagonista?

R: Quando pensei em um indígena, só tinha algo na mente: não queria uma representação indígena como a de "Iracema", de José de Alencar. Aquilo, para mim, traz o indio para um caráter mais heróico que real, algo mais poético. Entenda, isto não é uma crítica a um dos maiores escritores de nossa história, é uma forma bela de se tratar o grupo, mas não era a ideal para mim. Quando desenhei o roteiro de Marani e encaixei o monomito - o estopim, os conflitos, o mentor, o plot, tudo - busquei inspiração em alguns protagonistas para ele. Mas acho que, o que mais me inspirou, foi Dantè, de O Conde de Monte Cristo. Não que meu indígena tenha sequer metade da carga dramática dele, até porque os anos de escravidão de Marani não foram desenvolvidos neste livro, mas porque foi o que mais me aproximou do clima de imersão em um só personagem. 

8. Como surgiu a ideia de introduzir Iara dentro do enredo? Tanto Iara, quanto boto são seres fantasticos que dentro do contexto cultural, são pertencentes as águas. Quando optou por este caminho, já existia esta linha tênue de pensamento?

R: Quando optei por usar os personagens do folclore dentro de um mundo em que eles são físicos, pensei numa forma de trazer o máximo de humanidade para eles. Eles não são como os deuses gregos, são mais próximos do humano. Daí tive a ideia: o que me impede de transformar estes seres em pessoas que passaram por uma grande dificuldade e que foram recompensadas pela floresta? E foi nesta premissa que segui para elaborar o background e todos eles. O Saci não é somente um trapaceiro e mentiroso, é um escravo que teve a perna decepada depois de um tiro e que foi deixado pra morrer. O Curupira e a Caipora - outra questão, porque, no folclore, Caipora é menino - não são somente protetores da floresta, são irmãos que morreram juntos depois de uma invasão espanhola. E por aí eu sigo, saca? Trazendo ao máximo estes seres para dentro do real, criando conectividade entre o que eles são - exepcionais, agraciados ou amaldiçoados com coisas que os humanos normais não são - e o que eles já foram - pessoas comuns, como eu e você. 

9. Como escritor brasileiro, como sente-se com relação à escrita de livros que abordem questões tão nacionais e puras quanto o folclore? Você encorajaria outras pessoas a escrever outras obras utilizando de todos os recursos que as crenças, histórias, lendas e custumes brasileiros podem oferecer?

R: Com certeza. Não existe nada melhor do que usar o que está próximo a nós e o que nos compõe enquanto brasileiros. Acredito que todos conheçam pelo menos uma lenda do folclore. Então não é nada tão distante assim. Existem diversos materiais sendo produzidos e Marani só me aproximou ainda mais disto. Anderson Awvas, por exemplo, um ótimo ilustrador e que trabalha com representações magníficas destes personagens. Guerreiros Folclóricos, game produzido pela Unique, daqui da Bahia, me deu um norte visual tremendo. Então porque não termos mais materiais, sabe? Zeus e Odin são bem legais, mais prefiro ler sobre Tupi, Jaci e o Lobisomem. 

10. Prentende lançar uma segunda edição de seu de "Marani"? Ou quem sabe, simplesmente escrever outra obra dentro dos mesmos parâmetros?

R: No início não tinha pretenção em fazer mais um livro, mesmo tendo vontade, saca? Continuações são complicadas e geram muita responsabilidade. Tanto que o final do livro não acaba de uma maneira completamente fechada. Mas aí fui eu estudar sobre os Maracatus, a Cuca, bateu aquela vontade e, bem, acho que já deve ter entendido. Terá um próximo livro sim, uma duologia. Este não será baseado em Marani e sim em seu irmão, ainda que ele tenha papel importante durante toda a narrativa. E, para fechar, outro livro, com contos sobre os personagens do folclore. Alguns já aparecem dentro do primeiro livro, estes serão aprofundados, outros serão exclusivos.

11. onde podemos encontrar seu livro para compra?

R: O livro está na gráfica, e já está em pré-venda no site da Editora Multifoco. O evento de lançamento será em minha cidade, Feira de Santana. Ainda não tenho uma data definida, vai depender de quando minha tiragem vai chegar em minha residência, mas quero que seja em agosto, por ser o mês do folclore e ter tudo a ver, saca? 

12. Desde já, gostaria imensamente de agradecê-lo por ter participado de nosso projeto literário para expansão de nossa literatura.

R: Ah, cara, eu fico até besta com isso, risos. Eu que agradeço. É difícil iniciar no mundo literário brasileiro, ainda mais quando se fala de algo tão popular e esquecido e se mora na parte de cima do mapa. Por isso qualquer oportunidade de mostrar as pessoas "olha, tem coisa boa rolando", é importante. E este espaço que vocês dão é primordial, não só pra mim, quanto pra todos os autores e leitores que buscam por isso. Meu sincero obrigado. 
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