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    segunda-feira, julho 24, 2017

    [ENTREVISTA] L. Rafael Nolli — Autor de "Gertrude Sabe Tudo"

    L. Rafael Nolli  | Acervo Pessoal | Divulgação

    L. Rafael Nolli nasceu na cidade Araxá (MG), no ano de 1980. Formado em Letras e Geografia. Publicou Memórias à beira de um Estopim (JAR Edições, 2005), Elefante (Coletivo Anfisbena, 2013) e Gertrude Sabe Tudo (Gulliver Editora). E é com Nolli com quem teremos dois dedos de prosa acerca do enredo do livro "Gertrude sabe tudo".

    — Leia a resenha do livro "Gertrude Sabe Tudo"

    1. Gertrude sabe tudo não é uma história convencional para crianças, eu diria que ela é inovadora. Como surgiu a ideia do contexto do livro?

    É bastante difícil dizer exatamente de onde surgiu a ideia do livro, pois tenho a impressão de que a ideia veio se formando a partir de diversas ocasiões, que se somaram ao longo do tempo. Por exemplo, sei que tem muito peso o fato de ver alunos que se destacam se tornarem alvo de brincadeiras. Já vi alunos serem perseguidos ao ponto de se anularem ou se omitirem, fingindo não ter respostas – perdendo o entusiasmo de compartilhar suas ideias e mostrarem o que sabem. Nesse sentido, a minha intenção primordial era criar uma história onde todos estivessem errados, menos a personagem principal, que não terá forças para lutar contra instituições tão poderosas como a família e a escola. Também tinha como meta criar uma história sobre como moldamos as pessoas ao nosso gosto, nos baseando em preconceitos e lugares comuns.


    2. Algo que me chamou atenção é o fato da garotinha sempre estar com ideias novas na cabeça, isso prova que ela estava sempre em busca pelo conhecimento, porém, sabemos que não acontece bem assim com as crianças da atualidade, afinal, a maioria possui muitas questões e poucas respostas. Por que decidiu fazer exatamente o contrário com sua protagonista?

    Na maior parte do tempo acho mais importante ter as perguntas do que as respostas. Muitas pessoas, não só crianças, não possuem conhecimento aprofundado por não conhecerem as perguntas. Sem as perguntas jamais se chega as respostas! Se as crianças de hoje não possuem respostas à culpa é toda nossa, pois nos inundam com perguntas sobre tudo, desconhecendo as barreiras (artificias) entre as disciplinas e damos em troca um “não sei”, ou simplesmente ignoramos as suas questões. A fase dos “porquês” é o terror de muitos pais! As crianças passam a perder o interesse pelas perguntas se não darmos a elas boas respostas. Interessante frisar que respostas prontas e rápidas que solucionam as questões levantadas não bastam. Uma resposta deve motivar uma nova pergunta, mais profunda do que a anterior. 

    Rafael Nolli  | Acervo Pessoal | Divulgação
    3. A mãe da personagem possui uma mente fechada para o conhecimento e acata facilmente as reclamações dos vizinhos e de outras pessoas com relação a filha e seu estranho saber, isso revela uma certa psicologia por trás da personagem. Com que mensagem, intenção ou pensamento as características da mãe foram elaboradas?

    Nesse livro, fiz uma pesquisa profunda sobre os nomes dos personagens como forma de indicar as ações executadas por eles ao longo do livro. O pai, por exemplo, se chama Nonato, que pode ser entendido como o “não-nascido”, ele praticamente não aparece na história, pela pouca relevância diante de tudo – ainda que seja dele a ideia de jogar os livros fora, fato determinante para o desenrolar da trama. A mãe, Mirtes, surge como a figura mais forte do livro, sendo a principal agente de intervenção no gosto da filha pela leitura. Mirtes tem muitos significados. Para os gregos o significado está ligado as Bagas de Mirta, ou Bagas de Murta (a palavra murta tem uma força nesse sentido, ainda que errônea). A intensão era brincar com essa ideia: a mirta é uma planta sagrada, e as opiniões da mãe, que estão erradas em relação a filha, não podem ser contestadas (são sagradas!). Mas esse nome é muito complexo, em algumas tradições judaicas, Mirta é vista como uma planta de perfume exuberante, mas de sabor ruim; em muitos casos a Mirta é um símbolo de fertilidade, ligada a forças masculinas, dada como presente aos noivos (o papel de perseguir a inteligência da filha é o oposto da fertilidade). Quis brincar com esses sentidos variados do nome. 
    Acho importante mencionar: pesquisas mostram que a maior parte dos leitores são formados em casa, sobretudo a partir do contato inicial com os livros através das mães, também quis brincar com isso: uma personagem contraditória, que faz o contrário do que se espera e do que é lógico supor.

    4. Cansados de reclamações, os pais de Gertrude decidem tomar uma iniciativa com relação aos acontecimentos. Como foi que você optou por um final como o que o livro revela? Foi complicado pensar e elaborar esta alternativa?

    Desde o início eu queria um final pouco convencional. Mas quando sentei para pesquisar vi que não havia nada de extraordinário em uma história para jovens sem final feliz. As antigas fábulas são em geral com finais trágicos, onde a violência serve como advertência, com um sentido moral de educar pelo medo, pelo susto. Com certeza foi a parte mais difícil de escrever, a que mais me causou dúvidas: seria muito mais fácil fazer um final feliz onde tudo terminaria bem – mas isso seria muito óbvio.

    Gertrude Sabe Tudo | Divulgação | Gulliver Editora
    5. Desde que iniciou o processo de escrita do livro, a intenção sempre foi que ele tomasse os rumos que tomou, ou havia outra ideia inicial?

    A história mudou muito pouco desde a primeira ideia. Algo que mudou mesmo foi a caracterização da personagem, que não está no texto, somente nas imagens. Antes de publicar, carreguei o livro comigo para sala de aula. A grande maioria dos leitores (alunos) descreviam a Gertrude como uma menina branca (loura ou ruiva). Ninguém mencionou uma personagem negra ou morena. O ilustrador, Gutto Paixão, captou imediatamente a aura da menina, e ilustrou o pai branco e a mãe negra. Isso não estava no plano original e é algo que me agradou profundamente. Fiquei muito feliz quando vi pela primeira vez a menina de pele escura e cabelo cacheado. Uma questão importante que pude levantar com esses alunos posteriormente: por que ninguém pensou em alguém negro como modelo de pessoa inteligente, como modelo de pessoa com conhecimentos acima da média? Levantar essa questão me parece uma das conquistas desse livro que não estavam no script inicial!

    6. O livro foi dedicado ao seu filho. Podemos dizer então que a história foi inspirada — em partes — na vida do garoto?

    Meu filho tinha 4 anos quando escrevi o livro. Com certeza comecei a escrever histórias para crianças a partir do nascimento dele. Mas sempre fui um grande leitor de histórias infantis e infanto-juvenis, assim, esse é um tipo de escrita que sempre me interessou muito. O nascimento do meu filho me levou a reler muitas histórias e a conhecer tantas outras, esse contato muito intenso com livros para crianças me ajudou muito.

    Mas essa história em especial não é inspirada nele. É inspirado, acredito, em adultos que foram grandes leitores na infância e que se perderam no caminho. Não só leitores, é bom destacar, mas em todas as pessoas que foram moldadas ao gosto de outras pessoas, que perderam suas idiossincrasias.


    L. Rafael Nolli  | Acervo Pessoal | Divulgação
    7. Pretende escrever outros livros iguais a este?

    Enquanto escrevia Gertrude Sabe Tudo também elaborei outros dois livros para a mesma faixa etária. Em ambos eu busquei fugir do habitual... Acho que a história que mais se aproxima, em relação a fugir dos padrões, é o livro Ao pé da Letra, que conta a história de uma menina com Síndrome de Asperger. 


    8. Se você pudesse dar um conselho a todos os pais que estão lendo esta entrevista. O que você diria a eles?

    Incentivem os seus filhos a ler. E não se esqueçam, só há uma forma disso ocorrer: leiam diante deles, coloquem livros ao alcance dos seus filhos! Não há outra forma, crianças começam a ler livros por que os pais leem, crianças começam a gostar de literatura por que tem livros ao alcance das mãos. E por fim, não moldem seus filhos segundo as suas expectativas, não destruam as suas idiossincrasias.

    9. Possui algum projeto em vista? Conte-nos!

    Muitos projetos! Escrevi um livro de poemas infantis, Um Pterodáctilo na Antena Parabólica, que foi ilustrado pelo meu filho, quando ele tinha 5 anos! Também fechei contrato com uma editora para a publicação de mais um livro de poemas para adultos (meu terceiro livro de poemas). Ambos devem sair esse ano. E tenho ainda as histórias infanto-juvenis aguardando o momento para serem ilustradas e publicadas! 

    10. Obrigado por escrever Gertrude e por compartilhar com o mundo! Sucessos.

    Eu que agradeço pelo espaço e pela oportunidade de falar sobre literatura!

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