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    quinta-feira, julho 06, 2017

    [RESENHA #162] Porta do Sol, Sandro Vita

    “Algumas pessoas podem fazer coisas incríveis quando atuam sozinhas e coisas extraordinárias agindo em equipe.” — Sandro Vita
    Diante da vida, temos escolhas ou temos apenas a vida compondo a sua complexa trama ao acaso? Em que ponto da existência é possível entender que isto que chamamos de vida é uma rede de acontecimentos que, em alguns casos, se relacionam e, em outros, estão completamente apartados daquilo que se reconhece como real? Imagine agora se, frente aos acontecimentos da vida, fosse possível intervir, interferir e, junto a outras pessoas, fossemos capazes de fazer o mundo avançar? Ou, em outras palavras, em um mundo de escolhas, quem escolhe é você ou o mundo? Porta do Sol nos apresenta uma obra de escolhas, mas também de caminhos a serem trilhados.

    Porta do Sol, de Sandro Vita, é um romance que conta a história de Alexandre Natan, um homem que vive entre a cidade de Piabetá e Petrópolis. Ao lado de sua esposa, sua vida se concentra entre consertar computadores em uma loja que beira a falência e a visita aos pais nos fins de semana. Um dia, ele ajuda uma senhora na rua e, por acaso, entra em contato com um senhor português que promete ajuda-lo a mudar de vida, porém o faz de forma misteriosa. Natan, então, é convidado a participar de um grupo secreto chamado Supremacy, uma espécie de reunião de pessoas que, ao se ajudarem entre sim, buscam também interferir nos eventos do mundo. Alexandre, então, se muda para Portugal, a pedido do grupo, e enfrenta uma série de percalços e sucessos no caminho que optou por trilhar sua vida.

    A primeira coisa a se destacar de Porta do Sol é que se têm a impressão de que se está em um gênero híbrido de narrativa. Pode-se dizer que a obra se insere entre um romance fantástico e uma narrativa de viagem. Digo narrativa de viagem porque parece evidente em cada traço da obra que as vivências que Alexandre passa são, de certa forma, entrepassadas pelos espaços em que ele habita, pelos lugares que ele viaja e pelos pedaços de mundo que ele conquista. A geografia do mundo, ao se expandir de Piabetá para Portugal transforma não só cartograficamente, mas também o tipo de vivência e possibilidade de habitação do mundo.

    Neste sentido, como toda road story, Porta do Sol é uma obra que se revela na busca do auto-conhecimento. Tanto a personagem de Laurien quanto de Azhym são gatilhos, espelhos, desdobramentos de possibilidades de encontro consigo, como se a narrativa se ultrapassasse a si própria e se revelasse como um todo na junção das figuras apresentadas, como num desfile de presenças. A própria figura de Maud, uma espécie de vilã da história, por exemplo, é parte de uma força de negação que também faz parte desse compósito de invenção e descoberta. Sandro Vita parece deixar isto claro quando insere, através do reconhecimento das tatuagens que se movem nos corpos, a figura dos gênios, ou legiões (legião que, é preciso dizer, é coletivo tanto de anjo quanto de demônio), estas figuras que moram nas pessoas e são parte do que há de iluminado ou sombrio em cada um de nós.
    Porta do Sol, neste sentido, não é uma metáfora, mas um acesso. Uma passagem que aparece como oportunidade na vida:
    “toda pessoa, ao menos uma vez na vida, fica diante uma oportunidade única, capaz de mudar o próprio destino. A isto chamamos Porta do Sol.”
    E emenda:
    “A filosofia não te oferece nada. É você quem precisa oferecer a ela. Às vezes mais do que tem. São estas decisões, sobre o que oferecer e o que aceitar, que tem o poder para criar ou destruir uma oportunidade.”

    É que apenas neste caminho de conquistas baseadas na força de conhecer o mundo para se auto-conhecer que se pode inverter a lógica de uma pirâmide social, como no xadrez:
    “Você tem que entender que a vida é um reflexo das decisões que fazemos. É como no xadrez. Às vezes o xeque-mate vem do movimento de um simples peão.”
    Alexandre Natan, então, enquanto passa pela Alemanha, Praga – em que encontra um personagem chamado K, uma referência evidente a Kafka – e, por fim, em Londres, mas também enquanto está dentro de sua empresa, revolucionando os métodos de trabalho, enfrentando a xenobofia inerente a qualquer latino-americano que se aventura na Europa, passa a ter pleno domínio do que seria este “eu”. Ele encontra sua Porta do Sol, se reconciliando com seu passado, encontrando definitivamente o amor de sua esposa, seus parentes, seu filho e passa, por fim, a habitar o mundo. Sem medo, ele descobre a beleza e a singeleza na vida.

    Porta do Sol é um romance inspirador. Suas 398 páginas são capazes de atrair a nossa atenção e transformar uma narrativa aparentemente misteriosa e fantástica em uma deliciosa lição de como se portar diante dos mistérios da vida. Em cada gesto, uma descoberta, em cada descoberta, um novo caminho que se faz.

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