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[RESENHA #167] Histórias de minha morte, Maya Falks

Acervo Pessoal | Divulgação


“Quirón, então, voltou-se para Nesso e ordenou-lhe que nos mostrasse o caminho. Partimos com a fiel escolta, margeando o rio de sangue, onde almas ferviam e gritavam de dor. Lá eu vi almas submersas até os olhos.
— Esses que tu vês mergulhados até os olhos — explicou o centauro —, são os tiranos que tiraram o sangue e os bens de suas vítimas. (...)
Pouco adiante, parou outra vez o centauro, e mostrou-nos alguns que ficavam submersos no sangue até a garganta. (...)
Mais adiante, eu mesmo pude reconhecer alguns dos réus cujo peito já emergia. À medida em que caminhávamos o nível do sangue ia baixando até que enfim só ardia a sola dos pés. Lá finalmente encontramos um trecho raso por onde podíamos atravessar.”
(“Inferno”, Dante Alighieri)

“Se a Literatura é, como bem diz o estudioso, um trabalho de encenação da linguagem ou de deslocamento que o autor opera sobre a língua, levando o leitor a romper com toda e qualquer estrutura fixa de pensamento, a “crítica literária” só pode ser um trabalho de re-encenação, que, longe de apenas avaliar ou meramente chamar atenção sobre a obra, encete também um diálogo com ela, levando adiante o processo de reflexão desencadeado.” (Eduardo Coutinho em “Criação e crítica: reflexões sobre o papel do crítico literário)

Inicio esta resenha da obra “Histórias de minha morte”, da autora Maya Falks, com esta citação de Dante e seu inferno. “Inferno” de Dante é uma obra aterradora por nos submergir em todo sangue que a história humana derramou até o século XV, pelo menos. Depois disso ainda teremos duas guerras mundiais, além do processo de escravização de povos negros não só no território brasileiro, mas norte-americano e europeu.

E mais uma guerra se desenrola enquanto você lê esta resenha: o massacre de jovens negros e negras no território brasileiro, seja pelas condições de vida que o racismo deteriora, seja pelas mãos violentas de sanguessugas do Estado, aqueles que mantém as correntes sociais bem fixadas em alguns, para que outros, 1% da população, possam ter uma vida inútil e privilegiada destilando seu veneno racista. Conscientes de seus privilégios, essa elite desfruta do lucro que o trabalho alheio produz e carrega no sangue, no nome e na conta bancária a herança de anos e anos de exploração das vidas e das mortes de negros e negras, reis e rainhas do continente que denominamos África.

Na verdade, é um conjunto de povos que detém culturas, tecnologias, narrativas, religiões, conhecimentos totalmente distintos e superiores aos nossos, mas que a crueldade europeia saqueou, dividiu, explorou e enriqueceu às custas disso.

“Ainda assim, ainda que me fosse privado o direito de ler A Divina Comédia naquele momento, eu tinha certeza que eu conhecia o inferno melhor que Dante. E era mesmo gelado.” (Leandra, protagonista de “Histórias de minha morte”)

Conhece. O inferno de Leandra é gelado. Inferno branco, de invisibilidade social, sabotagem de todos os setores, abuso sexual, psicológico, emocional. Inferno racista. Este não é um livro para pessoas fracas. Este é um livro sobre uma metáfora da mulher negra, forte e questionadora.

A autora, Maya Falks, é branca. Eu, a crítica, também sou branca. A literatura é branca. Ou seja, deve partir de nós, brancos, primeiramente um reconhecimento de privilégios. E daí podemos começar a trabalhar nossos olhos e literaturas e críticas com outro viés. Colocar Leandra e Dante frente a frente é o que importa. Importa também, neste texto, trazer Conceição Evaristo e Franz Fanon. E deixar que falem por si mesmos. Essa é minha proposta. Veremos se funciona.

“E não, essa não é minha biografia. Essa é a história de como eu morri. Não agora, mas a cada dia da minha breve vida. Agora foi só o ponto final.” (p. 35)

O livro é narrado em primeira pessoa, o que demonstra que Maya fez o mesmo movimento que proponho nesta crítica. (Crítica sim, porque Maya acata bem a palavra e o gesto do crítico.) Maya não quis “parecer” negra nem criou estereótipos. Leandra tem vida própria. Suas questões não são da vida da autora, mas sim perguntas de pessoas negras num mundo racista. Maya sabia, sabe que o trabalho dela era recolher e repetir, mas não florear as vidas negras nem se apropriar de uma escrita negra.

“Triste. Triste olhar para o meu corpo e reconhecer uma mulher como qualquer outra ali, mas triste que eu só me veja como um ser humano ao reconhecer que eu-defunto sou exatamente como qualquer defunto humano. A morte nos iguala mesmo quando você foi diferente a vida toda.” (p.39)

Na literatura brasileira, o defunto-autor existe desde “Memórias póstumas de Brás Cubas”, livro potente do, também negro, Machado de Assis, que os jovens desprezam só porque são obrigados a ler na época errada e não entendem a história por não terem amadurecimento e reconhecimento da linguagem da época.

Brás Cubas tem uma veia cômica ao retratar aspectos da sociedade do século XIX. E é homem. Dito isso, Leandra resgata a figura do defunto-autor com o mesmo aspecto de Brás Cubas, intertextualizando-se, mas renunciando ao cômico irônico de Machado e trazendo o niilismo: “a morte nos iguala”, ela diz sem mistérios.

Além disso, em toda a estrutura linguística do livro teremos: a presença do pronome pessoal “eu” repetido inúmeras vezes. É proposital para uma figura que normalmente não é vista como indivíduo. Assim, a individuação no processo literário se dá com a repetição desse pronome, às vezes, très vezes na mesma frase. Como estratégia de um personagem buscando sua origem, essência particular, sua individuação do processo narrativo.

Citarei Franz Fanon, em seu livro “Pele negra, máscaras brancas”, que citando o caso de Mayotte, descreverá o processo ao qual Leandra também passa e nos conta em sua narrativa:

“No início, eis como o problema se apresentava a Mayotte, aos cinco anos de idade, na terceira página do seu livro: ‘Pegava o tinteiro na carteira e o jogava como uma ducha em cima da colega’. Era seu modo de transformar os brancos em negros. Mas percebeu logo cedo a inutilidade dos seus esforços; e depois, Loulouze e sua mãe lhe diziam que a vida para a mulher de cor é difícil. Então, não podendo mais enegrecer o mundo, ela vai tentar embranquecê-lo no seu corpo e no seu pensamento. ” (FANON, p.56)

“Talvez de tudo o que arrancaram de mim na vida, a humanidade foi apenas o começo. Se eu era apenas um animal – como todos somos, mas eu não evoluí pra espécie humana – eu devia ser tratada como tal e me deixar ser tratada assim.” (Leandra, p.39)

Fanon continua: “Todas essas mulheres de cor, desgrenhadas, à caça do branco, esperam. E certamente um dia desses se surpreenderão não querendo mais se atormentar, mas pensarão “em uma noite maravilhosa, um amante maravilhoso, um branco”. Porém também elas talvez compreendam um dia “que os brancos não se casam com uma mulher negra.”” (FANON, p. 58)

A visão de Fanon se encaixará bem na descrição da mãe de Leandra. Já Leandra saberá o que é a crueldade do homem branco, inclusive do próprio pai: ausente, aproveitador e estuprador. Pedófilo, alcoólatra. Exagero? Não. Profunda realidade social.

“A minha desumanização aos 5 anos de idade, a minha certeza de que se eu tinha mais deveres e menos direitos que meu irmão era porque eu devia ser menos importante, menos gente do que ele, determinou tudo o que eu me tornei, porque eu passei o resto da minha vida desprovida da noção de humanidade de mim mesma.” (Leandra, p.38)

Leandra também questiona a sociedade machista e sua construção social como “mulher”, e mais ainda, como “mulher negra”, não só quando fala de si, mas de todas as outras mulheres negras que passaram por sua vida.

Minha crítica a Maya é apenas pela personagem de Lavínia que aceita muito bem determinadas ações, (vocês verão no livro, não darei spoiler) que, na verdade, o orgulho de mulher branca, rica e influente jamais aceitaria. E nesse ponto, vejo uma incoerência da autora: Lavínia não é comum.
Leandra sim.

O comum é que as Lavínias sejam cruéis assim como os homens brancos. O comum é que as mulheres brancas sejam totalmente comprometidas com o racismo em seus atos e palavras. O comum é que se sintam melhores que as mulheres negras, o comum é que se sintam superiores. Essas sinhás do mundo moderno são as que mentem sobre terem turbantes arrancados, as que utilizam das religiões de matriz africana para autopromoção, as que utilizam tranças e turbantes para afrontar as mulheres negras.

Essas mulheres precisam parar. Calar. Tomar consciência de seus privilégios. Entender o próprio lugar. “Baixar a bola”.

Leandra sempre nos surpreende. Seu encontro com as mulheres que fizeram parte de sua vida, seu encontro com o pai no fim do livro, depois com a mãe… Ela sim, alcança o paraíso verdadeiro que Dante figurou na descrição de Deus, anjos e os cânticos.

“Eu finalmente estou em paz.” (Leandra, p.205)

A leitura é avassaladora e, como toda obra de Maya, exige silêncio, recolhimento e uma capacidade de rever as próprias ações na vida, principalmente lendo o “Histórias”. As intertextualidades são múltiplas. Dante Alighieri é o mínimo possível, se contarmos com a tradição de crítica, literatura e poesia negras a que Leandra pode ser relacionada e debatida. O livro não é para todas as idades, contém trechos pesados, inclusive contando com um aviso de trigger-warning no início. Sugiro que apenas leitores e leitoras maduros leiam.
A construção da narradora-personagem, suas incursões por lembranças, as memórias que saltam no meio da narrativa, tudo isso mexe profundamente com nossa imersão e experiência de leitura. Leandra não é uma personagem fácil de ser descrita.

Por isso, deixo aqui o convite ao leitor: vá conhecê-la por si mesma. Garanto que nunca mais a esqueceremos. No entanto, Dante, você pode até ser canônico. Mas seu inferno não é tão aterrador quanto a realidade.

Mariana Belize
Projeto Literário Olho de Belize



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