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    quinta-feira, julho 20, 2017

    [RESENHA #166] O arcanista, Joe de Lima


    O ARCANISTA. LIMA, Joe. AMAZON Kindle. 2016, 288p. ISB 978-855-697-0350| R$ 7,99
    Resenha por: Mariana Belize
    Sobre a obra: Marcel Seeder é um tímido rapaz de 16 anos que vive em Vera Cruz, uma nação dividida pelo jogo de poder entre o governo, o exército independente chamado Arcanum e a sombra do grupo ecoterrorista Voz Verde. Marcel se preparou desde a infância para uma carreira militar como arcanista, seguindo os passos de seu pai. Entretanto, a visita oficial do Regente-Geral e de sua família à Arcanum irá deflagrar um terrível incidente. Para enfrentar a conspiração que busca assassinar Camilla Noble, a filha mais velha do Regente, Marcel precisará superar suas limitações e dominar a gema incrustada em sua mão. Com uma narrativa cinematográfica, Arcanista é mais que uma história de superação e sobrevivência. É a história de pessoas que tentam encontrar seu lugar em uma sociedade com um complexo cenário político e um colossal abismo social que separa a elite e a classe menos favorecida.
    O arcanista” é o primeiro livro da Trilogia Vera Cruz. Escrito por Joe de Lima, o narrador nos apresenta a história de Marcel Seeder, um protagonista conturbado entre questões de família e tentando encontrar seu lugar no mundo. O livro é ambientado num mundo pós-apocalíptico, pode ser considerado como espelho de uma sociedade em crise, bipartida: de um lado, a Voz Verde e, do outro, a estrutura de uma espécie de governo que une características perigosas de populismo, totalitarismo e uma manutenção de poder baseada em hierarquias familiares, o que deixa de fora uma possível democracia. As aparências não escondem uma ditadura por linhagem, muito pelo contrário, a família é tratada como realeza, ao mesmo tempo, em que são celebridades midiáticas.
    Como o programa tinha um tom mais voltado para o entretenimento, a matéria deu destaque especial à Camilla Noble. Filha mais velha e herdeira da Família Regencial, ela estava destinada a ser a primeira mulher a governar Vera Cruz. Mais que uma figura política, a aparência e a personalidade forte a tornaram uma verdadeira celebridade. Os paparazzi a adoravam e qualquer fofoca envolvendo seu nome ganhava um destaque desproporcional.” (DE LIMA, p. 50)
    A ciência avançadíssima dessa sociedade permitiu que esse território se recuperasse do desastre da “Guerra Absoluta” utilizando o “Mana” - energia do centro do planeta e que é utilizada pela Arcanum, a tal polícia para manter seu lema “Paz e Ordem”. Além de manter toda essa sociedade coesa e funcionando com suas hierarquias muito bem construídas e mantidas às custas do trabalho, sangue e obediência. A força dos traumas do conflito mundial faz com que poucos se manifestem contra este sistema e é aí que a “Voz Verde” se faz presente. Inclusive recomendo que o leitor analise profundamente as perosnagens envolvidas na “Voz Verde” e suas ideias sobre a interação do humano com o meio ambiente.
    Corriam os últimos anos da Guerra Absoluta, o conflito nuclear em escala global ocorrido na primeira metade do século 21 que marcou o fim da Velha Ordem Mundial. Nações inteiras e até mesmo continentes haviam sido arrasados por uma chuva de bombas atômicas. A economia estava em frangalhos, o meio-ambiente por um fio e a população mundial reduzira-se drasticamente. Um mini inverno nuclear teve início.” (DE LIMA, p.36)
    O livro é construído de modo a inserir o leitor num mundo como o do filme “Equilibrium”, por exemplo. É interessante notar as interações entre os personagens e as frustrações e conquistas de Marcel Seeder, um estudante que acaba se tornando Arcanista, quase por acidente, já que não tem muita certeza de seu lugar naquela sociedade, nem se merece o poder que recebe do “Mana”, sua gema do trovão, que causa a ele queimaduras graves, em primeiro momento.
    O lema “Paz e Ordem” dos Arcanistas, além de suas posições sociais e testes a que são submetidos os estudantes são brutais, embora não sejam descritos com tanta indignação. Principalmente na parte do “forjamento”, quando o estudante passa pelo último teste para receber sua “gema” que lhe dará poder que vem do “mana”. Inclusive nesse momento, Marcel percebe que o diretor que faz a introdução dos estudantes ao processo de forjamento por meio de um discurso, carrega a gema mental, sendo portanto possível que ele manipulasse a “motivação” dos estudantes. O próprio Marcel desconfia, mas o narrador em terceira pessoa somente descreve tudo, inclusive as desconfianças do personagem.
    Acredito que o autor poderia ter se utilizado melhor da figura do narrador para pôr em dúvida determinados posicionamentos e personagens, tornando assim a figura do narrador mais presente, influente e cúmplice do leitor, tomando partido e comentando atitudes e certas ações dos personagens.
    Os Arcanistas são figuras que suscitam , primeiramente, nossa raiva, mas que pelas descrições do narrador tornando o leitor mais maleável, principalmente por conta de Marcel. O posicionamento do narrador quanto às mulheres da história também é problemático: embora algumas personagens sejam fortes ou tenham traços de uma esperteza maliciosa, para depois se transformarem em mocinhas, a descrição do narrador não passa por aspectos psicológicos, mas de suas roupas, cabelos, saltos e maquiagem. Isso enfraquece a qualidade da narrativa, tornando-a mais parecida com uma fanfic do que com um romance de ficção científica. Totalmente fora de noções contemporâneas como, por exemplo, as discussões do papel social da mulher e das narrativas de autoria feminina na literatura brasileira contemporânea
    Outro detalhe: a inovação dos romances de ficção científica/distopia geralmente é acompanhada por uma estrutura linguística que a acompanhe, conforme visto em Laranja Mecânica, por exemplo. “O arcanista” perde muito quando utiliza termos não-usuais em estruturas comuns da língua, em diálogos cotidianos, em uma narrativa que não traz nenhum traço inovador estruturalmente falando.
    A relação entre o romance e o jogo de xadrez também são pouco exploradas, se limitando à hierarquia social e as relações de poder entre “pawns”, “bishops”, “queens” and “kings”, entre outros. Todos os nomes em língua inglesa, assim como “smart watch”, “Seeder”, etc.

    Fora isso, o livro é claramente voltado pro infanto-juvenil, que será atraído pelo tom de aventura e ação que há na narrativa. Realmente há percursos empolgantes que os personagens percorrem, discussões e reviravoltas interessantes, surpresas e questionamentos que o próprio Marcel faz com relação à família e sociedade. Recomendo a leitura para jovens interessados em futuros distópicos, ecologia e meio ambiente, novas tecnologias, além de aprofundar discussões sobre a função do arcanista na manutenção de uma sociedade totalitária e como isso pode se espelhar na sociedade que vivemos.


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