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    quinta-feira, agosto 03, 2017

    4 poemas de Rafael Nolli


    Rafael Nolli | Facebook | Divulgação

    Rafael Nolli (37), nasceu em Araxá e consolidou-se como escritor. Publicou "Memórias à Beira de um Estopim" (JAR Editora, 2005), "Elefante" (Coletivo Anfisbena, 2012) e Gertrude Sabe Tudo (Gulliver, 2016).


    Paraíso

    muito além das plantações de agrotóxicos
    esquecido depois da derradeira ponte

    do último homem que por ali passou
    não resta o menor vestígio

    o que ele viu – há tantos anos atrás –
    é o mesmo que um satélite vê agora
    da imensidão do cosmo

    nenhum dos dois sequer suspeitou


    onde hoje a árvore produz sombra
    o prédio da prefeitura se erguerá

    o rio prateado pelo sol escorrerá
    sinistro & pesado, dentro de uma galeria

    pouco depois da colina
    um sinal de trânsito determinará o fluxo
    para o que agora é vale & vento


    sobre esse chão as pessoas
    conhecerão fome & sede
    e lutarão até as últimas forças

    onde hoje prospera a grama miúda
    a estátua de um boçal apontará o dedo
    para a imensidão do espaço sideral


    Ars poetica
    Não tenho voz de queixa pessoal, não sou
    um homem destroçado vagueando na praia.
                                    Drummond

    por certo não sou digno da poesia
    é o que se comenta
    nos pequenos círculos

    não comi a flor de lótus
    tampouco sai às ruas chapado de rivotril

    também disso estou certo
    – eles o dizem, por que duvidar –
    não evitei o amor
     essa grande balela

    sequer morri de tuberculose
    (nos corredores de uma biblioteca)

    é o que se comenta
    quem sou eu para duvidar

    não me matei (ou matei alguém)
    pelas palavras – ai, palavras, ai, palavras,
    que estranha potência a vossa, etc & tal –
    muito menos tive a Grande Visão

    não vendi armas ao rei da Abissínia
    ou cruzei o país
    – vagabundo em um vagão –
    no encalço do Sublime[1]


    Comédia

    I - Inferno

    Nenhuma pista ou clareira
    para tentar a aterrissagem
    ademais
    o trem de pouso emperrado

    Retornar ao lar
    – oh estações oh castelos! –
    & ninguém ter dado pela sua falta

    II - Purgatório

    A TV ligada para ninguém
    – em consultórios de ortopedistas –
    o cheiro do tédio das atendentes
    & o clamor dos telefones

    A fila de mulheres pensativas
    – nos pronto-socorros –
    as crianças tossindo em seus colos
    o senhor debruçado sobre as rugas

    A ante-sala dos CTI’s
    as antecâmaras das policlínicas
    os  azulejos brancos
    o ventilador de teto
    nas salas de espera dos centros de radiologia
    & nos demais lugares onde a morte fareja

    III - Paraíso

    Praticamente nada a fazer senão para o pobre agente do Centro de Controle de Pragas. A nuvem de veneno borrifada sobre as macieiras rouba o brilho das asas dos anjos e embaça o aço de suas espadas. De manhã, o batalhão de arcanjos em ordem unida treinando para a possível batalha. E é sempre manhã, aonde quer que se vá. Longa manhã ensolarada. Os que leram estão de acordo, é o mesmo paraíso descrito por Dante. Um saco! 


    Cidade dos sonhos

    1
    Antes do amanhecer
    estarão dominando a praça central

    A imensa cavalaria
    pastando pelos jardins

    arqueiros posicionados
    no alto dos telhados

    a infantaria & seus especialistas
    dinamitando as pontes

    Pé ante pé, rua a rua,
    as posições sendo tomadas
    uma a uma

    No entanto
    antes que declarem o seu triunfo
    um golpe decisivo dissolve o inimigo:

    abro os olhos – acordar basta!

    2
    Um dia a guerra estará perdida
    e o povo daquela cidade
    que só existe em meus sonhos
    ficará entregue a própria sorte

    Um dia
    quando eu não acordar mais
    a cidade se extinguirá
    com todos que por lá transitam

    ou eles migrarão para outros sonhos?

    3
    Quem sabe, em fim, esse seja o dia definitivo em que terei que defendê-la de corpo presente, com as próprias mãos...

    4
    Saberei eu no sonho de quem?


    L. Rafael Nolli nasceu na cidade de Araxá, MG, no ano de 1980.  Professor de Geografia. Publicou Memórias à Beira de um Estopim (JAR, 2005), Elefante (Coletivo Anfisbena, 2013) e o infantojuvenil Gertrude Sabe Tudo (Gulliver, 2016).

    rafaelnolli.blogspot.com
    nolli@boll.com
    Twitter: @nollirafael





    [1] Nota de rodapé para Ars Poetica

    Esquecer meus sentimentos domésticos. / Minhas pequenas dores diárias – / que é a dor de todo mundo / e todo mundo a pode descrever. // Para que o fazer/ se de nada alterará a roda do mundo – / que passa sobre o corpo de todos / de forma indistinta? // Eu não fui à floresta / comer o verme na carcaça dos pássaros. / Não sei o gosto da solidão / bebida entre as montanhas. // No encalço do sublime, eles diziam. / Você deve ir no encalço do sublime! // Não fui.