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    quarta-feira, agosto 02, 2017

    [RESENHA #171] A casa das sete mulheres, Letícia Wierzchowski

    Acervo Pessoal | Divulgação

    A casa das sete mulheres. Wierzchowski, LETÍCIA. Bertrand Brasil, 2017. 462p ISB 978-852-862-204-1 / R$ 47,60

    SINOPSE: Abre a segunda das três gavetinhas do toucador. Vasculha entre os pentes, presilhas e grampos e puxa lá do fundo a tesoura negra, pesada. É uma tesoura velha, pertenceu à sua avó paterna. Ela acaricia a lâmina afiada e escura. Passa a tesoura pelo rosto com cuidado, sentindo a frieza do metal. Não quer mais viver, se for para estar longe dele. Para quê? Aguentar uma lenta sucessão de dias iguais, fingir-se interessada pela guerra, pelas vitórias, pelo sangue derramado, por aquela república... Ver outros verões, suas outras tantas tardes até que o minuano estoure em seus tímpanos, corroa sua alma, até que envelheça numa cadeira de balanço, olhando o pampa, feito um fóssil. A tesoura pesa entre os dedos. A tesoura espera uma decisão.

    No dia 19 de setembro de 1835 eclode a Revolução Farroupilha no Continente de São Pedro do Rio Grande. Os revolucionários exigem a deposição imediata do presidente da província, Fernandes Braga, e uma nova política para o charque nacional, que vinha sendo taxado pelo governo, ao mesmo tempo em que era reduzida a tarifa de importação do produto. O exército farroupilha, liderado por Bento Gonçalves da Silva, expulsa as tropas legalistas e entra na cidade de Porto Alegre no dia 21 de setembro. A longa guerra começa no pampa. Antes de partir à frente de seus exércitos, Bento Gonçalves manda reunir as mulheres da família numa estância à beira do Rio Camaquã, a Estância da Barra. Um lugar protegido, de difícil acesso. É lá que as sete parentas e os quatro filhos pequenos de Bento Gonçalves devem esperar o desfecho da Grande Revolução.

    Escrito pela gaúcha Letícia Wierzchowki em 2002, a casa das sete mulheres teve os direitos de adaptação televisivos comprados pela rede globo de televisão no ano seguinte (2003). O livro da autora transformou-se em uma série consagrada e foi exibida no ano de 2003 e reexibida em 2006. Narrando a fantástica história da Revolução da Farroupilha (1835-1845), iremos conhecer a família Gonçalves da Silva. Ao anuncio da eclosão da farroupilha, Bento Gonçalves decide tomar uma atitude para proteger as mulheres de sua casa, confinando-as na estância da família na Barra. Temendo que a guerra fosse breve, a atitude foi tomada e os anos se passam e todos começam a ficar aflitos perante o confinamento que se estendeu mais do que o previsto. Com uma sensibilidade sem precedentes, Letícia leva-nos ao passado e presente de cada mulher na qual o livro procura esclarecer suas batalhas, amores, conflitos, tristezas e dúvidas para melhor entendermos seus pensamentos e posicionamentos com o desenvolver da trama. A obra recebeu outros dois livros e acabou tornando-se uma saga que narra a vida da família Gonçalves da Silva.

    Não existem argumentos capazes de explicitar toda fabulosidade criada pela autora, nunca existirão palavras suficientes para descrever a minuciosidade com a qual as cenas se intercalam e dividem. Sentir-se confinado e agoniado com a ausência da liberdade, é apenas o o primeiro sentimento a ser desperto no leitor.

    A terrível incerteza do amanhã, do amor e da solidão. De que vale estar viva e não estar ao lado de quem se ama? Iremos conhecer e adentrar aos sentimentos de insegurança e desespero das sete mulheres durante uma guerra que não teve um vitorioso, apenas desgraça, morte muito sofrimento.  Para mim o mais marcante dentre todo o contexto e as intercalações pressupostas pela autora, foram os encontros e diálogos entre Rosário e Steban. A pureza, a delicadeza com a qual Letícia narra cada minúcia, é de vislumbrante. 

    “Restei eu, como um fantasma, para narrar uma história de heróis, de morte e de amor, numa terra que sempre vivera de heróis, morte e amor. Numa terra de silêncios, onde o brilho das adagas cintilava nas noites de fogueiras. Onde as mulheres teciam seus panos como quem tecia a própria vida. Ah, mas isso tudo levou muito tempo, tempo demais… Naqueles dias, meus cabelos ainda estavam crescendo. Naquele tempo ainda tínhamos muitos sonhos.”

    O que mais chama atenção nesta obra é a riqueza da personalidade de cada personagem criado por Letícia. A autora conseguiu cativar com qualidades e defeitos cada uma das mulheres — sem falar dos "personagens terceirizados" — e nos relatos sofridos da vivência de uma família de soldados que está angustiada com o final de uma guerra que parece não ter fim, onde a preocupação é maior do que a alegria e onde o dia parece nunca ter fim.

    Uma guerra que tirou a vida de pessoas inocentes e destruiu a fé de muitas pessoas, torna-se o foco central desta narrativa que enlaça de forma sublime o encontro da fé com o embate dos guerreiros da farroupilha.  Não sabe-se qual dor corrói mais neste livro. A dor da saudade pelos entes queridos, as noticias sobre as tragédias que acometiam a guerra, a dor de Bento Gonçalves e sua mulher Caetana.


    Acervo Pessoal | Divulgação

    Conduzido pelas narrativas doces e singelas das anotações dos cadernos de Manuela, somos levados ao encontro diário da história de cada mulher da família Gonçalves e Silva, sendo elas: Ana Joaquina, Maria, Manuela, Rosário, Mariana, Caetana e Perpétua. Ana Joaquina e Maria são irmãs de Bento Gonçalves, sendo Ana Joaquina a dona da estância, enquanto Maria (viúva de Anselmo) e mãe de três filhas: Manuela, Rosário e Mariana. As três moças mais sensíveis de todo romance-drama. 

    Sem sombra de dúvidas a personagem que mais prende-nos até o final é Anita Garibaldi. Forte, guerreira, valente e ousada. Também iremos conhecer um pouco mais de Caetana — mulher de Bento Gonçalves — que possui um coração que não cabe no peito. Suas preocupações evocam sempre para o bem-estar da família, enquanto Maria foi criada de uma forma tradicional mostra-se amarga e completamente reservada. Das filhas de maria, duas haviam sido prometidas em casamento, sendo elas, Manuela à seu primo Joaquim e Rosário à Afonso Corte Real. 

    A narrativa mostra-nos como sentiam-se os familiares dos soldados que estavam em combate, o sofrimento que acometia seus corações, as decisões precipitadas tomadas em nome da saudade e da solidão e as inúmeras histórias de amor que acometeram a família Gonçalves e Silva ao longo destes dez anos de guerra.

    Esta é a mais nova edição da obra lançada pela Bertrand Brasil — Selo do Grupo Editorial Record — contando com uma revisão impecável. O trabalho gráfico das capas proposto nesta nova edição é louvável e apaixonante em todos os aspectos possíveis, mostrando-nos (presumo eu) Caetana segurando as mágoas, dores e aflições de suas filhas durante o período de isolamento na estância da família durante a guerra. 

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    COMENTÁRIOS PESSOAIS

    Sem sombra de dúvidas a casa das sete mulheres é o livro mais marcante da trilogia "a saga das sete mulheres". O livro é um misto de drama com romance escrito pela gaúcha Letícia Wierszchowski, que mostra-nos as dores enfrentadas por aqueles que desejavam que o governo imperial brasileiro deixasse a taxação do charque e impusesse direitos igualitários para todos. Bento Gonçalves da Silva tornou-se um ícone por diversos motivos, alguns deles bem visíveis, sendo:

    1.  A maior figura de autoridade presente no livro é cedida à Bento Gonçalves, que tornou o maior mediador entre o Rio Grande e o governo brasileiro. Mostrando possuir preocupações que iam além de seus interesses pessoais.
    2. A ideia de colocar as sete mulheres de sua família na estância na Barra, mostra-nos que Bento ainda tinha tempo para pensar em todos os ângulos, desde a família à guerra que estava para eclodir. 
    3. Bento Gonçalves não tem sorte. Talvez muitos pensam isso por não ter conseguido chegar a lugar algum, porém, ninguém conseguiu. A farroupilha foi uma guerra sem vitoriosos, onde as perdas deixaram todos exaustos e destruídos emocionalmente. Bento tornou-se sinônimo de força quando tomou as rédias da situação rente a guerra.
    SOBRE A AUTORA

    Antes de se dedicar às letras, começou a cursar a faculdade de arquitetura, que não chegou a completar. Foi proprietária de uma confecção de roupas e trabalhou no escritório de construção civil de seu pai. Enquanto trabalhava neste último emprego, começou a escrever ficção. Seu romance de estreia, publicado em 1998 e relançado em 2001, O anjo e o resto de nós, conta a saga da família Flores, ambientada no início do século XX no interior do Rio Grande do Sul. A escritora gaúcha Martha Medeiros sugeriu a leitura do primeiro romance de Letícia a um amigo paulistano de naturalidade gaúcha e descendente, como Letícia, de poloneses. O publicitário Marcelo Pires gostou tanto do livro que enviou, em dezembro de 1998, um e-mail à autora e ambos passaram a se corresponder regularmente pela rede. Menos de um ano após a primeira mensagem, em 17 de setembro de 1999, Letícia e Marcelo casaram-se. Na cerimônia de casamento, o casal distribuiu aos convidados um pequeno livro com algumas das mensagens trocadas por eles. Um dos participantes da festa, o editor Ivan Pinheiro Machado, da LP&M, acreditou que o livro poderia fazer sucesso e lançou uma edição comercial. Nascia assim, em 1999, o livro Eu@teamo.com.br, que teve suas duas edições rapidamente esgotadas. O grande sucesso literário de Letícia viria com o romance A casa das sete mulheres, adaptado pela Rede Globo numa minissérie que foi ao ar em 2003 e reexibida em 2006. Instada por seus editores a escrever uma continuação da saga das sete mulheres gaúchas durante a Revolução Farroupilha, recusou-se de início, pois tinha outros projetos literários. No entanto, acabou cedendo às pressões e lançou Um farol no pampa, em que retoma a vida dos personagens d’A casa. Lançou em 2006 sua décima-primeira obra, Uma ponte para Terebin,em que narra a história de seu avô polonês. Ao mesmo tempo, trabalha, em parceria com Tabajara Ruas, no roteiro cinematográfico de O Continente, baseado na obra de Érico Veríssimo.