Ads Top

[RESENHA #174] A ultima mensagem de Hiroshima, Takashi Morita

A última mensagem de Hiroshima, Takashi Morita | Universo dos Livros | Divulgação

A última mesagem de Hiroshima. MORITA, Takashi. Universo dos Livros, 2017. 152p ISB 978-855-030-114-3 / R$ 25,60

SINOPSE: Como sobreviver com a mente cheia de memórias da Segunda Guerra Mundial? Como lidar com o trauma de ter presenciado a destruição arrebatadora de uma bomba atômica praticamente ao seu lado? E como pensar em salvar civis quando sua própria vida está em jogo? Conheça neste livro a história do Sr. Takashi Morita, sobrevivente da bomba atômica que dizimou milhares de seres humanos e que até hoje manifesta efeitos na saúde física e mental da população de Hiroshima e de Nagasaki.

Era 6 de agosto de 1945. Ninguém poderia prever, mas foi neste dia que a vida de inúmeros japoneses – e das gerações subsequentes – mudaria para sempre. As consequências da bomba atômica foram devastadoras, e não apenas no que diz respeito à saúde daqueles que se encontravam nas imediações do epicentro, como é o caso do Sr. Takashi, que exercia o ofício de soldado na época. Para além das numerosas enfermidades oriundas da intensa radiação emitida em Hiroshima e Nagasaki, os atingidos pelas bombas sofreram muita discriminação, principalmente pelo fato de as consequências decorrentes da radiação para os sobreviventes e seus descendentes serem ainda uma incógnita.

Após sofrer situações tão devastadoras como as que o Sr. Takashi viveu, muitos de nós provavelmente sucumbiríamos ao rancor. A sabedoria, no entanto, com a qual ele enfrentou suas memórias mais sombrias é inspiradora. Quando questionado a respeito de suas mágoas com relação aos norte-americanos, responsáveis pelo envio da bomba atômica a Hiroshima, o veterano responde: "Estavam apenas fazendo o seu trabalho." 

O perdão, a compreensão, a empatia e todos os laços e fortalezas construídos em detrimento de um passado que é impossível de esquecer são lições que o Sr. Takashi, agora um comerciante de 92 anos que vive no Brasil, visa nos ensinar neste emocionante relato.


O bombardeio de Hiroshima foi realizado pelos Estados Unidos contra o Império do Japão durante os estágios finais da Segunda Guerra Mundial. Foi a primeira vez na história em que armas nucleares foram usadas em guerras e contra civis. "A ultima mensagem de Hiroshima", é o relato de Takashi Morita, um dos sobreviventes do primeiro ataque atômico do mundo.

Foi assim em Hiroshima: De uma hora para outra, não sabíamos se a cidade havia sido transferida para o inferno — pág. 12

6 DE AGOSTO DE 1945 — Uma nova arma de poder devastador é lançado sobre a cidade de Hiroshima. Considerada por todos um porto de reuniões e importância militar, a cidade estava longe de ser apenas um local pré-determinado para receber o primeiro ataque atômico do mundo, visto que a população era formada por 86% de civis, e os outros restantes, militares. Quase todas as cidades japonesas haviam sido bombardeadas, mas Hiroshima permanecia intacta.

Hiroshima era uma importante base militar, especialmente pela indústria bélica que havia na cidade (...) — pág. 24

O livro conta com onze capítulos muito bem elaborados, que procuram explicitar e narrar de forma direta e concisa os acontecimentos do pré e pós guerra. Aos 12 anos Takashi teve seu destino traçado por seu pai: iria trabalhar em uma relojoaria e seguir com a profissão de relojoeiro. Era comum os pais decidirem qual o destino do filho.


Ataque aeronaval à base norte-americana de Pearl Harbor | Por Desconhecido - Official U.S. Navy photograph NH 50930

Com o passar do tempo, Takashi observava o andamento da guerra em que se encontrava o Japão. A expropriação, a escassez de comida, os campos de evacuação e as perdas de território sofridas pela nação, era apenas a fase inicial de toda desgraça que ainda estava por vir. Decidido, Takashi toma como iniciativa maior a vontade de ingressar na polícia japonesa e auxiliar aqueles que se encontravam sem rumo no decorrer da guerra. A polícia Militar do Exército Imperial conhecida como Kempeitai era a polícia mais respeitada e temida de todas as forças do império (...) Aqueles que não passavam no exame para Kempeitai eram enviados logo em seguida para o sudoeste Asiático, para as frentes de batalha. essa era praticamente uma sentença de morte, mas estava disposto a me arriscar — pág. 37.


Aprendi que nunca mais deveria pensar em alguém como inimigo. A logica da guerra não dá espaço para dignidade humana [...] - pág.11

Sei que sobrevivi para compartilhar com o mundo reflexões a respeito de como a insanidade de uma guerra é capaz de destruir cidades inteiras em segundos — pag. 13

A partir do capítulo cinco, inicia-se a narrativa acerca do ataque atômico dos Estados Unidos contra o Japão em resposta a Pear Harbor (que ocorreu no dia 7/12/1941).


Naquele 6 de agosto, a cidade de Hiroshima acordava para viver um lindo dia de verão: crianças se arrumavam para ir à escola, trabalhadores se preparavam para o trabalho e aqueles empenhados na guerra, seguiam com o propósito de demolir os edifícios. Ninguém esperava ter uma rotina interrompida de maneira de tão drástica. — pág. 53


Explosão nuclear em Hiroshima,
Império do Japão, 9 de agosto de 1945.
O dia seis de agosto foi uma data que ficou marcada para a história. A cidade de maior importância militar do Japão havia sofrido o primeiro ataque atômico do mundo. Milhares de pessoas simplesmente deixaram de existir, e um forte clarão tomou conta de toda a cidade transformando aquela manhã de verão em um tenebroso dia de trevas.

Toda a cidade foi envolvida por essa luz de terror. Quando fui atingido, estava a uma distância de 1,3 quilômetros do epicentro da bomba atômica. — pág. 54

Intuitivamente, senti medo de olhar para a cidade, de saber o que tinha acontecido. Como poderia, em plena manhã de verão, tudo ficar escuro como se fosse noite? — pág. 55

Um caos inexplicável tomou conta de toda cidade de Hiroshima. Os prédios eram consumidos como se fossem de papelão e as pessoas simplesmente deixavam de existir ao serem atingidas pelo clarão branco provocado pela bomba. Infelizmente muitas pessoas viram-se obrigadas a presenciar seus entes queridos serem consumidos pelas chamas e não poder fazer nada (56).


[Algumas] PESSOAS [...] Não pareciam mais ter feições humanas: corpo todo queimado, pele solta, cabelos arrepiados e emitindo grunhidos incompreensíveis. Não posso nem imaginar seu desconsolo e sofrimento. — pág. 59

A VIDA PÓS-BOMBA ATÔMICA, este é o sétimo capítulo do livro, e convenhamos, é tão triste quando a realidade de um ataque atômico consumir toda uma cidade. Um livro possui um valor histórico forte. Os registros deste livro servem como material de estudo para futuros esclarecimentos de dúvidas que ainda surgirem com relação ao acontecimento.

Assim como várias outras vítimas que escreveram sobre o bombardeio, este é mais um livro que mostra-nos sob uma ótica complementar o efeito do primeiro ataque atômico do mundo sob uma cidade regida por civis.

COMENTÁRIOS PESSOAIS 

Não restam dúvidas de que a segunda guerra mundial foi a maior desgraça pela qual o mundo passou desde sua extensa história. Foram mais de 47 milhões de mortos em todo o conflito. A busca por respostas é algo constante e contínuo, e todas as vezes que uma vítima de tal fatalidade escreve, fala ou cria registros que facilitem o estudo e a compreensão da dimensão da segunda guerra mundial, sinto-me aliviado. Aliviado por saber que existem pessoas que mesmo depois de muito terem sofrido, conseguiram seguir em frente e relatar todo ocorrido.

Takashi Morita não nos mostra apenas uma parcela do que foi a segunda guerra mundial, ele mostra-nos sua vida e apresenta-nos Hiroshima com formosura antes de toda atrocidade que levou a dizimação de um povo civil que nada havia com a guerra e as batalhas de conflitos que envolviam as grandes potências. Com profunda sensibilidade, o autor remete-nos de volta aos anos de 1945 e mostra-nos toda sua dor, toda sua angustia e principalmente, mostra-nos como conseguiu sair vitorioso de uma desgraça sem precedentes.

O livro não é apenas um registro histórico, é um diário e uma fonte de estudo que deve ser lida e apreciada minuciosamente. Relatos, registros e manuscritos, de quem realmente nasceu de novo.

Ler este livro foi como um despertar para realidade. Sempre que nos deparamos com uma história como esta, nosso primeiro pensamento é automático e instintivo: será que eu de fato me conformo com o que tenho? Um livro célebre e único para quem ama história.
Tecnologia do Blogger.