• NOVIDADES

    segunda-feira, agosto 14, 2017

    [RESENHA #179] Raizes do conservadorismo brasileiro, de Juremir Machado da Silva

    Foto: Acervo Pessoal | Raízes do Conservadorismo Brasileiro, Juremir Machado da Silva | Divulgação
    RAÍZES DO CONSERVADORISMO BRASILEIRO. SILVA, Juremir Machado. São Paulo, Grupo Editorial Record. 2017. 448p ISB 978-852-001-331-1 / R$54,90

    Em Raízes do conservadorismo brasileiro, Juremir Machado da Silva aponta caminhos capazes de elucidar por que o Brasil é um país em débito com a própria história. Partindo da análise de discursos políticos e jornalísticos do início do século XIX, o autor identifica fundamentos conservadores que permearam o contexto da assinatura da Lei Áurea e sobre os quais foi erigida, um ano e meio depois, a República brasileira. Ciente de que a liberdade não foi uma concessão, mas uma árdua conquista das pessoas negras, o autor demonstra como a estrutura do capitalismo comercial escravista se traduziu – e ressoa ainda hoje – numa intrincada legislação, elaborada para atender a determinados interesses, e num imaginário cultural e ideológico, edificado para justificar a manutenção de privilégios – mesmo que isso implicasse, na época, a desumanização e a coisificação de pessoas.

    Em texto ágil, o autor desvela as origens do conservadorismo e a história da busca pela igualdade social no Brasil. A fina ironia que acompanha o texto, se não torna o tema mais leve, funciona como um mecanismo que ajuda o leitor a suportar o espanto de ver a gênese da hipocrisia que ainda hoje sustenta relações de dominação entre classes e raças. Um livro essencial não apenas para pessoas interessadas em história, sociologia e análise do discurso, mas também para aquelas que desejam viver em um país melhor, em que a escravidão tenha de fato se extinguido para todos. 


    Foto: Acervo Pessoal | Raízes do Conservadorismo Brasileiro, Juremir Machado da Silva | Divulgação
    A acumulação primitiva de capital das classes dominantes brasileiras foi produto da barbárie legalizada. Jamais se pagará a devida indenização aos descendentes desses heróis anônimos expatriados, subjugados, espoliados, humilhados, parasitados e abusados (p.11)

    Eu adoraria dizer que tenho as palavras ideais para descrever este livro, mas isso seria mentira. Em "Raízes do conservadorismo brasileiro, a abolição na imprensa e no imaginário social", iremos estender nossos horizontes à um estudo detalhado acerca de um dos maiores acontecimentos históricos em território brasileiro: A abolição escravatista, que ocorreu no dia 18/05/1888, através da lei áurea sancionada pela até então Princesa Isabel (filha do imperador Pedro II), que dizia:

    A princesa Imperial regente, em nome de sua Majestade o Imperador, o senhor Dom Pedro II, faz saber a todos os súditos do Império que a Assembléia Geral decretou e ela sancionou a Lei seguinte:

    Art.1º — É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil.
    Art.2 º — Revogam-se as disposições em contrário.

    Manda, portanto, a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da referida lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nela se contém. O secretário do Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e Interino dos Negócios Estrangeiros, Bacharel Rodrigo Augusto da Silva, do Conselho de Sua Majestade o Imperador, o faça imprimir, publicar e correr.

    Dada no palácio do Rio de Janeiro em 13 de maio de 1888, 67º da Independência e do Império, — PRINCESA IMPERIAL REGENTE — Rodrigo Augusto da Silva. 

    O que se vê percorrendo os subterrâneos do passado brasileiro? O que se encontra nos desvãos da história da escravatura no Brasil? Nada mais do que as raízes daquilo que o país continua a ser. Se hoje a justiça ainda é acusada de privilegiar os  brancos ricos, ontem ela servia abertamente aos interesses dos brancos proprietários de escravos. Se atualmente a polícia é suspeita de discriminar os negros, ontem ela era o capitão do mato caçando escravos fugitivos e cumprindo o papel de garantir pela força a ordem da escravidão, a permanência em cativeiro, sob sequestro permanente, de seres humanos traficados da África ou de alguma província do Brasil para outras. Se hoje a mídia é vista como reprodutora da ideologia conservadora, que legitima a desigualdade social, ontem a imprensa era veículo de disseminação de teorias racistas e de ideologias de dominação. O parlamento foi, durante muito tempo, a caixa de ressonância sem estática dos interesses das elites escravistas, em que liberais e conservadores distinguiam-se quase tanto quanto gêmeo univitelino.


    A riqueza do Brasil foi constituída pelo braço escravo. Para sempre, os brancos serão devedores dos negros trazidos da África como mercadorias, raptados e violentados (11). O fundamento do direito a tratar homens como coisas, era uma tríade: Força, dinheiro e poder (45). Assim que a lei áurea foi sancionada, a popularidade da princesa Isabel cresceu inestimavelmente entre todos, principalmente entre a boca de grandes fazendeiros que dependiam da mão de obra escrava para continuar a lucrar. De acordo com a maioria dependente dos escravos, a Lei áurea era completamente "inconstitucional", já que a lei feria gravemente "o sagrado princípio da propriedade privada" (34).

    É inconstitucional porque ataca de frente, destrói e aniquila para sempre uma propriedade legal, garantida, como todo direito de propriedade, pela lei fundamental do Império entre os direitos civis de cidadão brasileiro, que dela não pode ser privado, senão mediante prévia indenização do seu valor. — Em suma: os fazendeiros ainda acreditavam que possuíam algum poder sobre "o material escravo", e que simplesmente liberta-los sem uma garantia monetária por parte do governo, era um total absurdo.

    citado os pontos principais desta obra, iremos discorrer um pouco sobre os quatorze tópicos abordados pelo Jornalista e Professor Universitário Juremir Machado da Silva, acerca da abolição imaginária na imprensa manipuladora baseada em interesses da classe dominante e no imaginário social, que acredita que a desigualdade tenha se extinguido. Utilizando-se de documentos e fontes confiáveis e históricos, seremos guiados, levados e conduzidos ao passado de vergonha brasileiro. Onde pessoas eram tratadas como objetos, escravizadas, mortas e expropriadas de seus lares.

    Quem quem foram os homens que se opuseram a abolição? O que faziam? O que pediam? O que disseram? Muitos sumiram na poeira do tempo. Outros recebem a poeira do dia como nomes de ruas e até de cidades. Será que seus argumentos eram típicos daquela época ou ainda estão por ai aplicados a nova situação que, por vias transversas, repetem m novos contextos a velha astucia dos poderosos dispostos a tudo, inclusive a falar em nome da ponderação, para não perder seus privilégios? (p. 14)

    Quem eram os fazendeiros/representantes que se opuseram a abolição da escravatura? O que eles tinham a dizer e defender, quais eram seus interesses? O fato é que todos (mesmo após a abolição) sentiam-se no prejuízo. Naquele tempo, os vencedores eram todos aqueles que haviam enfrentado o senso comum disfarçado de bom senso (18).

    Anúncio publicado no Jornal do Maranhão, no dia 12 de maio de 1888: A rua dos remédios, nº37, precisa-se alugar uma engomadeira que seja perfeita. Paga-se bem, agradando, contanto que durma em casa (p.24)

    A mídia era um veículo que propagava o interesse da maioria. Se a maioria era a favor da libertação, a mídia também era, se não, boicotava.

    Anúncio publicado no jornal "O paiz", em 14 de maio de 1888 (pág.19):

    Está extinta a escravidão no Brasil. Desde ontem, 13 de maio de 1888, entramos para a comunhão dos povos livres. Está apagada a nódoa de nossa pátria. Já não fazemos exceções no mundo. Por uma série de circunstâncias felizes, fizemos em uma semana  uma lei que em outros países teria levado anos. Fizemos sem derramar uma gota de sangue uma revolução, que a outros países custou todos os horrores de uma guerra fratricida.

    Como um país racista e escravistas podia parecer tão disposto a emancipar os negros depois de mais de três séculos de cativeiro? (p.27)

    [...] A abolição da escravidão inaugurou simultaneamente o longo ciclo de marginalização do negro. Uma marginalização igual, a qual acabara de expirar, a marginalização do homem livre como superior por antecipação de crimes que poderia ou não cometer. O crime maior, seria o de ser negro (p.25)

    Após a abolição da escravidão, o jornal de São Luis (MA) publicava matérias cada vez mais a favor do governo, que iam de encontro a liberdade dos homens. Em uma matéria publicada pelo Diário do Maranhão, a linha editorial afirmava que deveria-se criar uma lei contra a vagabundagem e a ociosidade daqueles que nada faziam (p.21). A matéria ainda afirmava que aquelas pessoas recém-libertas nada sabiam fazer, eis que surge um questionamento na página 22 que faz-nos pensar: Como poderiam ter horror ao trabalho e nada fazer, aqueles que tudo faziam? (p.22).

    COMENTÁRIOS PESSOAIS

    448 páginas de história, documentos e incontestáveis revelações acerca de um passado conservador extremista. O puro reflexo do Brasil atual, onde a figura negra ainda é vista como inferior, e marginalizada pela sociedade. A obra do profº Juremir não é apenas um retrato do que o Brasil foi, é também um retrato do que ele continua sendo. Milhares de comentários poderiam ser feitos acerca desta obra, mas sua grandiosidade e vastidão é tão complexo, que atrevo-me simplesmente a dizer que nós realmente temos uma dívida que jamais será paga, não somente por escravizar pessoas e trata-las como objetos, mas por ainda tratarmos seus descendentes da mesma forma desigual a três décadas atrás.

    Este livro é de suma importância para todos aqueles que desejam aprofundar-se em um emaranhado de questões. Como leitor, posso afirmar que este livro sacia toda e qualquer curiosidade que venha ser causada pelo acaso.

    Nenhum comentário: