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[RESENHA #180] Novo Testamento, Editora Paulinas

"Eu dou testemunho a todo que ouve as palavras da profecia deste livro: se alguém acrescentar algo a ele, Deus lhe acrescentará as pragas escritas neste livro; e, se alguém tirar das palavras do livro desta profecia, Deus tirará sua parte da árvore da vida e da Cidade Santa, que foram escritas neste livro." (Apocalipse, 22, 18-19)

Esta edição do Novo Testamento, da Editora Paulinas, apresenta uma linguagem simples, notas explicativas para além de proselitismos, e incentiva ao estudo de todos, cristãos ou não cristãos.

O Novo Testamento carrega em si toda carga simbólica da figura de Jesus Cristo e, embora muitos não acreditem, a Bíblia foi régua e medida para o cânone de literatura ocidental. Seja pela negação, pelo sentido de amor, pela linguagem parabólica, pela construção estética, não só o Novo Testamento, mas também o Antigo são pedras, para alguns de tropeço, mas para outros, de iniciação. Principalmente numa nação de base cristã, como é o Brasil, que foi colonizada e construída com bases portuguesas, país de tradição católica por excelência.

O conhecimento deste livro, ainda que a intenção da tradução seja fortalecer e estimular a fé e os estudos por parte dos católicos, por outro lado também fortalece a luta contra a intolerância, os preconceitos e o ódio, a partir do instante que a figura de Cristo é devidamente compreendida não só como Rei dos Reis, como o neopentecostalismo reforça nas piores tintas possíveis, mas principalmente como Cordeiro de Deus e Bom Pastor.

"Sou eu o bom pastor,conheço minhas ovelhase minhas ovelhasme conhecem." (João 10, 14)

A figura de Cristo é envolta em guerras e conflitos, dentro e fora das igrejas. Alguns dizem que nunca existiu, outros que sua existência é apenas uma questão de fé e crença. Pois bem: no Novo Testamento, encaramos cada percepção dos que caminharam a seu lado, que confiaram e andaram pelo mundo, levando até às últimas consequências as palavras de Cristo, se tornando mártires e apóstolos, figuras como Pedro e Paulo. Ficção ou não, insisto na importância da leitura e do conhecimento, independente das controvérsias.

Veja bem: aqui, teremos a visão da vida de Cristo pelos olhos de seus apóstolos, bem como acompanharemos os questionamentos e resoluções nas cartas trocadas entre apóstolos e igrejas de diversos lugares, assim como também teremos contato com uma figura importantíssima na história da cristandade, que é Paulo de Tarso. Encararemos também os milagres, os conflitos, e o mistério que é o livro do Apocalipse, ou Revelações.
É aqui que proponho um exercício neste resenha: observarmos Cristo e Paulo, bem como João, o apóstolo poeta. E aproveitar a leitura, não apenas pelo viés doutrinário, literalmente católico apostólico romano. Mas sobretudo, pelo olhar literário, alcançar outros sentidos, alegorias, para a partir daí, aproveitar uma jornada pela leitura, para além de questões de fé e religião.
Tanto é importante essa capacidade de leitura a ser desenvolvida, que a própria tradução e diagramação pensaram nisso. As palavras de Cristo vem versificadas, tomadas como poemas. E por quê não seriam?

"Quem ama a sua vida a perde,
mas quem odeia sua vida
neste mundo
vai guardá-la
para a vida eterna." (João 12, 25)

Distinguindo a poesia e a extrema qualidade literária dessa nova tradução que investiu nesta simplicidade cativante, o Novo Testamento sagrou-se trazendo a simplicidade franciscana para a força da Palavra de Paulo em suas cartas. E a doçura de João, esse apóstolo de "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós".

"Somos as Filhas de São Paulo, conhecidas como Irmãs Paulinas, e fazemos parte de uma congregação religiosa de mulheres consagradas para anunciar o Evangelho, utilizando as novas formas e meios de comunicação.
O nome “Paulinas”, pelo qual somos chamadas, vem do Apóstolo Paulo, inspirador de nossa vida e missão. Com ele aprendemos o amor ao Evangelho, a abertura a todos os povos, a audácia para atuar em situações sempre novas e desafiadoras. Seguindo os passos de Paulo, assumimos o anúncio do Evangelho como meta de vida.
A Congregação das Irmãs Paulinas possui um carisma moderno, exigente, desafiador. Utilizando a mais avançada tecnologia disponível, desenvolve seu trabalho com os meios de comunicação social. Tem na Igreja a missão de fazer despertar nas pessoas a semente do Evangelho, da Boa-Nova de Jesus, por meio da reflexão, da animação, da interação e da ação conscientizadora, utilizando esses meios."

E elas conseguiram.
Ainda assim, saibamos discernir que a Editora Paulinas investe em chamar o cristão a um encontro pessoal com a figura de Cristo pelas palavras dos apóstolos, os amigos queridos de Cristo. Conclama, não só pela fé, mas pelo conhecimento e, sobretudo, pelo estudo da Palavra. Este estudo é doutrinário porém, carrega em si mais um sentido de compartilhamento de estudo, um conhecimento construído comunitariamente que, assim como a fé, se torna mais forte quanto mais exercido em conjunto.

Assim, este Novo testamento perde o tom professoral, hermético daquela linguagem tão catedrática, difícil e até acadêmica, com termos difíceis e rebuscados, trocando o peso acadêmico da análise pela análise, como também com isso expõe a preocupação da Igreja menos em convencer por fatos, ciências e análises e mais ao chamar pelo coração, pelos exemplos e palavras de Cristo e de seus apóstolos, suas viagens, ideias e escritas. Além disso, conclama o cristão a uma intimidade com Cristo, e com isso, a uma práxis doutrinária em sua comunidade, uma responsabilidade de ação comunitária, inspirada pelas ações de Cristo e dos apóstolos em suas missões de evangelização.

"Sendo a comunicação uma das maiores forças da sociedade atual, não podemos nos acovardar, nos deixar alienar; é nossa obrigação de cristãs e de cidadãs usar essa força a serviço do bem, da verdade, da vida, da paz, da felicidade e do bem-estar das pessoas.
Os tempos mudaram. Os púlpitos, os locais de onde se proclama a mensagem de Jesus não são, hoje, somente as igrejas, mas também os microfones, as câmeras, as rotativas... É a mensagem de Deus, como dizia Pe. Alberione, em forma de ondas sonoras, de sulcos magnéticos, de imagens em movimento, de papel impresso e de fibra ótica.
Se as pessoas, hoje, não vêm mais às igrejas, a Igreja deve ir até as pessoas, por meio dos modos que a nossa cultura e a nossa sociedade apreciam e dos quais dispõem; e esses modos são a TV, o rádio, o jornal, a revista, o livro, a música, o filme, o computador, a internet... Essa foi a grande intuição e ação de Pe. Alberione e continua sendo a ação profética de cada Irmã Paulina na Igreja."

As notas explicativas não são em linguagem meramente intelectual, informativa, datada, histórica, preocupada com datas, fatos históricos e doutrinários. Mas sim irão refletir, pela linguagem, uma espécie de sensibilidade preocupada em explicar ligações entre Antigo e Novo Testamento por meio de citações e referências cruzadas, enriquecendo a leitura e fortalecendo laços com a cultura e doutrina judaica.

E não só isso, mas também uma inquietação em demonstrar pelas notas, que a leitura não é difícil, diminuindo assim o peso que normalmente estudos da bíblia costumam ter. Esta grande preocupação com a estrutura e com a linguagem é o mais louvável neste nova edição, além da presença das notas explicativas que, sem proselitismos, aumentam o prazer na leitura também para quem não está no estudo apenas pela fé, mas pelo conhecimento. Nisso, houve exímia inteligência dos editores e, só resta mesmo agradecer aos ensinamentos que, gota a gota, vamos colhendo na leitura.
A Bíblia é um livro complicado de ser lido não pelo desconhecimento de sua história, mas justamente por todo arcabouço que carregamos antes de lê-la. Ela mexe nas estruturas de qualquer um, seja ateu ou não, carrega essa potência, e no século XXI, conseguimos enxergar o vigor de sua leitura ao nos depararmos com as simbologias de Apocalipse e as fortíssimas cartas de Paulo. 

Assim, o Novo testamento e sua tradução tem um contexto de multiplicidades não só pelo seu histórico aparecimento aos fragmentos, mas também pelo momento político, histórico e social que vivemos no Brasil, e nisso podemos enxergar a tentativa de promover uma integração entre os católicos, não apenas pelo viés político, mas sobretudo pelo viés da fé e da Palavra.

O formato do livro é médio, tem uma leveza com um papel bíblia bonito, com leitura fácil e linguagem acessível. Talvez a única questão seja o tamanho das letras, mas fora isso, a estética da Editora Paulinas é sempre de alto requinte, com sua arte minimalista e discreta, visando a maior integração do leitor com o símbolo do que com retratos ou as obras de arte clássicas. Que são belíssimas, não nego, mas o minimalismo moderno abraça mais o contemporâneo discreto e aproxima o símbolo do coração do leitor.

Já na capa, figura o Sagrado Coração, com uma simbologia sutil, mas que se torna poderosa como capa ao demonstrar logo qual é a fonte da publicação: tomar o caminho para o coração do leitor seja pela fé no Sagrado Coração, seja pela mensagem contida no livro. Assim como também pretende despertar e restaurar as comunidades e o aprendizado comunitário da Palavra. É como se dissesse que a mensagem contida ali veio do coração e pretende também entrar no coração do leitor.

A cor de terra presente na capa e contracapa também reflete essa busca pelo simples e pelo essencial que é a Palavra e a fé. E não só a Palavra sozinha, refletida apenas pela homilia dos padres, mas a Palavra que é trabalho comum, lavra comunitária também de oração e perseverança, que unida representa o coração do Cristo que é sua Igreja. Essa correspondência aproxima o cristão da palavra, mas acima disso, aproxima o coração do cristão ao coração de Cristo.
"Com isso, tem também a esperança de que os instruídos pela Bíblia cheguem, mais facilmente, a um encontro pessoal e comunitário com a Palavra de Deus, tanto para seu bem como para o bem de toda a humanidade."
Lembremos de que "católico" vem do grego "katholikos" significa "universal" ou "o que é para todos".

O texto introdutório deste Novo Testamento tem caráter sintético, mas não podemos dizer que é incompleta. Muito pelo contrário, apresenta seus dogmas, nas figuras de Orígenes, por exemplo, filiando a nova tradução a uma origem.
Orígenes é considerado o maior erudito da Igreja Antiga. Escreveu nada menos que 600 obras, entre as quais as mais conhecidas são: De Princippis; Contra Celso e a Héxapla.
Entre os seus numerosos comentários bíblicos devem ser realçados: Comentário ao Evangelho de Mateus e Comentário ao Evangelho de João. O número das suas homílias que chegaram até aos dias de hoje ultrapassam largamente a centena.
Orígenes, embora não duvidando de que o texto sagrado seja invariavelmente verdadeiro, insiste na necessidade da sua correta interpretação.
Assim, teve a suficiente percepção para distinguir três níveis de leitura das escrituras: 1- o Literal 2- o Moral; 3- o Espiritual, que é o mais importante e também o mais difícil. Segundo ele, cada um destes níveis indica um estado de consciência e amadurecimento espiritual e psicológico. 
Orígenes, como é comum nos escritores cristãos influenciados pelas doutrinas derivadas de Platão, coloca as Idéias platônicas na Mente Divina, na Sabedoria de Deus. O Filho de Deus, Segunda pessoa da Trindade, é a Sabedoria bíblica: Mente de Deus, substancialmente subsistente:
" (...) Deus sempre foi Pai, e sempre teve o Filho unigênito, que, conforme tudo o que expusemos acima, é chamado também de sabedoria (…) nesta sabedoria que sempre estava com o Pai, estava sempre contida, preordenada sob a forma de idéias, a criação, de modo que não houve momento em que a ideia daquilo que teria sido criado não estivesse na sabedoria…" (Orígenes. Os princípios, livro I, 4, 4-5.)

E assim, mais uma vez, vemos como o foco desta nova tradução é a figura de Cristo na relação do cristão com a Igreja. Em "História e Canonicidade", aparece a relação entre a criação de um cânon apostólico e a presença dos apócrifos.
A didática desta edição é interessante ao explicar a cronologia dos textos em "Ordem e divisão dos textos", e ir além, explicando os critérios da Igreja ao escolher determinada ordem dos livros, como também citando que existiram diversas outras formas, mas que esta acabou se tornando a tradicional. Também explicam a divisão entre capítulos e versículos.
A última parte "A revelação em Jesus Cristo", volta o foco para ele, e possui aspecto marcadamente doutrinário, mostrando bem os dogmas, no entanto sem usar a palavra "dogma". O curioso disso é que o texto vincula à comunidade, e não à doutrina em si, o encontro com Cristo, trazendo para o povo, para a comunidade a manifestação material da palavra de Cristo no mundo atual, tirando da "letra que mata", mas sim, extraindo "o espírito que vivifica". E ao mesmo tempo responsabiliza o cristão para que seja um buscador e que o Novo Testamento seja seu mapa.

"Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.Sou eu o bom pastor.O bom pastor dá sua vidaem favor das ovelhas." (João 10, 10-11)

É importante citar também a presença de textos introdutórios à cada um dos livros que compõem o Novo Testamento. Divididos basicamente em origem, estrutura e temas, expõe discussões a partir do texto e relaciona aos aspectos presentes em outros textos, tornando a leitura mais fluida, enriquecendo os estudos e as abordagens possíveis, traçando roteiros detidos e atenciosos a partir da leitura em conjunto com as notas de rodapé explicativas no desenrolar dos textos.

Na introdução do Evangelho de Mateus, teremos essa estrutura básica, contendo explicações sobre o autor, as questões de identificação e outros detalhes que facilitam o entendimento básico já pra início de leitura.
Já no Evangelho de Lucas, teremos explicações acerca da peculiaridade deste evangelho e porque Lucas é considerado "o historiador".
Em João, o mais metáforico e poético dos Evangelhos, teremos um trecho a mais: a presença de chaves de leitura denota a preocupação com o entendimento dos leitores, não só pela vertente da fé e do coração, mas também pelo conhecimento dos aspectos poéticos da escrita deste evangelista.

"O Evangelho segundo João é conhecido como Evangelho espiritual ou como Evangelho do Amor. Tudo correto. É preciso, porém, acrescentar que este é também o Evangelho da encarnação e do serviço, que fazem da vida espiritual, uma vida concreta de amor atuante em favor do outro."
Ou seja, ele conclama à oração, mas também ao trabalho, à busca pela práxis da Palavra de Cristo na vida cotidiana e em comunidade.

A fé importa assim como o estudo da Palavra, mas "a fé sem obras é morta" (Tiago 2, 20). O apelo da Igreja Católica neste nova edição está para além da necessidade de contemplação, mas deseja confirmar e ser a reafirmação das práticas do Evangelho, da leitura, estudo, presença na vida comum, cotidiana, levando assim a uma ação coordenada e conjunta dentro e fora das paredes da Igreja.
Na introdução em Atos dos Apóstolos, teremos uma pequena análise sobre questões de autoria e também da estrutura, com seus títulos e devidas marcações de capítulos e versículos. Além disso, teremos em "gêneros e temáticas principais", um parágrafo demonstrando a dificuldade de situar Atos em algum dos gêneros literários da época, sendo, na verdade, uma junção deles, além de compartilhar algumas das temáticas com o Evangelho de Lucas.

Em Atos 9, seremos apresentados a Saulo, um exímio conhecedor da tradição judaica e perseguidor de cristãos, mas que após uma visão, mudará de nome e será Paulo, o apóstolo dos gentios. Seu trabalho de evangelização será conhecido até os dias de hoje pela linguagem firme e posicionamento radical que, muitas vezes, Paulo reflete em suas cartas. Assim, em Atos, acompanharemos não só ele, mas como também os outros apóstolos, a escolha de um outro nome para a lacuna de Judas e veremos suas pregações, caminhadas, martírios, sacrifícios e controvérsias com os outros povos.

Após Atos, a presença de Paulo está em suas cartas. Seu gênero mais utilizado e que demonstra sua busca na formação de laços e de uma doutrina conjunta e em diálogo, ainda que não estivesse presente fisicamente em todas as igrejas. Teremos 14 cartas de Paulo endereçadas aos mais diversos povos: romanos, coríntios, gálatas, tessalonicenses, efésios, entre outras comunidades.

A linguagem de Paulo revela uma preocupação não só em informar, mas mover os corações pela Palavra, sendo assim, ainda que seja doutrinário, revela esse desejo de coadunar sua linguagem firme à correspondente ação necessária e também ao diálogo com as pessoas. Até num puxão de orelha: "Não destruas a obra de Deus por causa de alimento. Tudo é puro, mas para quem come é mau por causa do tropeço que pode provocar. É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer o que quer que seja que leve teu irmão a tropeçar." (Romanos, 14, 20-21)

Ou para informar seu destino como em Romanos 15:24: "quando estiver me encaminhando para a Espanha, espero, de passagem, ver-vos e receber as provisões para prosseguir viagem até lá, não sem antes, por um pouco, gozar de vossa companhia."

Pra concluir: o Novo Testamento é um conjunto de livros. Sugiro a leitura detida de cada um deles, para todas as idades, independente de religião, mas é claro com um suporte adequado para compreender os desdobramentos da presença do cristianismo nas vidas de cada leitor. Contém poesia, lições, ensinamentos, conflitos e a presença desta figura marcante que é Cristo. Além disso, as exímias epístolas de Paulo, João e Pedro. Para futuros leitores de Nietzsche ou não, o Novo Testamento é leitura fundamental para compreender uma das bases da literatura e cultura ocidental, seja em suas controvérsias e farsas, seja em sua grande beleza, estrutura e notável forma.

Mariana Belize
Projeto Literário Olho de Belize

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