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    terça-feira, agosto 22, 2017

    [RESENHA #182] Padre Cícero - Santo dos pobres, santo da Igreja


    Autora: Annete Dumoulin
    Editora Paulinas
    Ano: 2017
    Padre Cícero é, sem dúvidas, um dos santos mais populares do Brasil. Assim como popular, também está envolvido em polêmicas desde antes de sua canonização. O livro que temos em mãos, desmistifica muitas delas, propondo uma visão histórica e panorâmica deste homem, que a cultura popular deu santidade mesmo que a história, múltipla, muitas vezes lhe sacrificasse.
    Muito interessante o caminho narrativo que Irmã Annete, a autora, nos propõe em seu livro. Ao iniciar o livro com explicações acerca da própria biografia, ela nos mostra em que medida sua caminhada se cruzou com a história de Padre Cícero e com o próprio território de Juazeiro do Norte. Além disso, demonstra responsabilidade e alegria em sua tarefa, o que transparece na sua escrita tão afetuosa e, ao mesmo tempo, com um tom de detetive que nos incita a querer saber mais, e caminharmos junto a ela nessas investigações e descobrimentos, entre cartas, documentos, viagens e diálogos.
    Na introdução, a partir de seis sinais, Annete apresenta uma linha de tempo curiosa e franca sobre suas descobertas a partir de acasos em que se encontra diante da figura de Padre Cícero como presença viva na fé dos romeiros e do povo nordestino. A partir daí, junto com irmã Teresa, Annete iniciará sua jornada para compreender um pouco dessa figura tão cheia de dualidades que é o Padre Cícero.
    Sua estrutura de escrita é leve e fluida e, embora sua voz se faça presente, principalmente na introdução, isso jamais atrapalha a leitura pois compreendemos a personalidade dialógica da escritora e nos deixamos levar por sua narrativa. Isso torna a leitura leve e, ao mesmo tempo, dinâmica, ainda que o assunto seja intrincado e possa ser visto por mil formas diferentes.
    Padre Cícero é uma figura polêmica, além de icônica. Ainda que escolhido para ser um dos 100 maiores brasileiros de todos os tempos, sua posição política conservadora e anticomunista deixou como legado a visão ruim de muitos de seus biógrafos, ainda que para o povo isso não importe muito, já que colocam a fé acima de sua posição política como homem.
    Porém, o livro não é apenas isso. Se fosse, já seria apaixonante. Para que o leitor compreenda a multiplicidade de Padre Cícero, na primeira parte do livro, teremos o ponto de vista de Annete, a partir de suas pesquisas, uma apresentação de sua visão pessoal como psicóloga, contando detalhes que transformam a lenda em homem. E isso é fundamental, para além deste detalhe, mas também para o entendimento de que o santo também e principalmente é humano, um religioso de carne e osso.
    Na segunda parte, a partir de uma carta de Padre Cícero, Annete nos traz a visão do próprio padre sobre sua própria vida, ele mesmo dividindo-a em várias fases. Além disso, Annete transforma em diálogo com outros dois romeiros, trazendo para o leitor a leveza do diálogo para uma figura que, normalmente, é posta como distante, já que é um santo. O que ela acrescenta ao diálogo foi retirado de arquivos, fatos e provas que confirmam o que Padre Cícero confia ao amigo na carta original. Transformado em diálogo, a carta se realiza, aproximando o leitor do Padre e, as letras, do coração, no qual vamos imaginando este diálogo entre o padrinho e seus romeiros.
    Já na terceira e última parte, um texto de Papa Francisco nos apresentará sua visão desta figura. Em seu texto, de tom conciliador, que corresponde à marca de seu pontificiado, o papa descreve em diversos pontos, que, ainda que a figura de Padre Cícero seja controversa, ele “viveu uma fé simples, em sintonia com o seu povo e, por isso mesmo, desde o início, foi compreendido e amado por este mesmo povo.”
    E continua: “A sua visão perspicaz, ao valorizar a piedade popular da época, deu origem ao fenômeno das peregrinações, que se prolonga até hoje, sem diminuição tanto no número como no entusiasmo das multidões que acorrem, anualmente, a Juazeiro.”
    Além disso, o papa dispara: “utilizando-se de palavras do próprio Padre Cícero, inúmeros cantos de romaria traduzem o conteúdo da fé e da moral cristã para a compreensão dos simples e dos pobres, constituindo-se, dessa forma, instrumentos úteis de formação na fé”.
    O papa também destacará o trabalho de Padre Cícero com relação à devoção do povo por Maria Santíssima, especialmente à Maria das Dores, sendo assimilada pelo povo fiel e acolhida em seus ritos e corações. As procissões dedicadas a Maria, destaca o papa, constituem momentos altos de formação católica.
    Mais do que isso, o papa reforça a posição de Padre Cícero com a oração e respeito pelos mortos, que é mais um elemento importante da fé católica. Essa dimensão de fé, normalmente esquecida pelas gerações mais atuais, faz com que o ser humano defronte seu fim com esperança e não com medo. O findar da existência humana ser encarado de maneira corajosa e, sobretudo, com fé, principalmente por uma vida marcada por tantos sofrimentos e dificuldades, a expectativa da bem-aventurança sendo consolação e estímulo.
    Essa dedicação ao respeito pelos mortos traz ao povo uma religiosidade sincera e harmoniosa do princípio humano com seu fim, longe de ser uma presença lúgubre para o fiel católico. Encarar a morte de maneira respeitosa libera o humano do desespero pelo fim, fazendo com que o ser humano encare seus próprios atos e questões não mais com o peso arrogante de uma impossível eternidade, mas leva-o a pesar seus atos e palavras com a verdade da morte que, pacificamente, virá. Inevitavelmente.
    Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá.”
    Segundo o papa, “Deus serve-se sempre de pobres instrumentos. Padre Cícero, na sua complexa história humana, não privada de fraquezas e de erros, é um claro exemplo disso. Sem dúvida alguma, foi movido por um intenso amor pelos mais pobres e por uma inquebrantável confiança em Deus. Ele teve, porém, que viver em um contexto histórico e social pouco favorável, empregando todas as suas forças e procurando agir segundo os ditames de sua consciência, em momentos e circunstâncias bastante difíceis.”
    A conclusão a que chegamos na leitura é que não resolveremos esse mistério. Seja por questões históricas, documentais ou de fé, as respostas são múltiplas, como é também a figura de Padre Cícero. Sendo assim, aconselho a leitura para uma compreensão não só dele, mas também de toda discussão que sua história gera, além de um passeio pelos relatos e pela escrita de Annete, que nos contagia a cada página.

    https://www.paulinas.org.br/loja/padre-cicero-santo-dos-pobres-santo-da-igreja#!prettyPhoto[mixed]/0/
    Mariana Belize
    Projeto Literário Olho de Belize
    olhodebelize.wordpress.com

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