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    quinta-feira, agosto 10, 2017

    [RESENHA #176] Quando eu era invisível, Martin Pistorius

    Acervo Pessoal | Divulgação

    Quando eu era Invisível. PISTORIUS, Martin. São Paulo: Astral Cultural, 2017. 268p. ISB 978-858-246-473-1 / R$ 31,40



    Até aos 12 anos, Martin Pistorius era um menino igual aos outros, feliz e saudável. Ninguém nunca imaginaria que um dia ele fosse adoecer gravemente e que, em pouco tempo, pararia de andar e falar. Para os médicos, Martin tinha entrado em estado vegetativo. Porém, lentamente, Martin começou a recuperar a consciência e a perceber tudo o que acontecia ao seu redor. Preso em seu próprio corpo, ele era incapaz de mostrar isso para a sua família e àqueles que cuidavam dele. 

    Depois de 12 anos de encarceramento, Martin conheceu Virna, uma terapeuta que viu além do corpo preso a uma cadeira de rodas e que apenas movia os olhos. Ela conseguiu enxergar um ser humano na plena posse das suas faculdades mentais. Este foi apenas o princípio de um extraordinário renascimento e o primeiro impulso para que Martin despertasse, gradualmente, para a vida. De um menino que dependia completamente dos outros, Martin Pistorius transformou-se em um homem independente, que se formou na faculdade, conseguiu um emprego e casou com o amor da sua vida. A vida de Martin é uma surpreendente história real de superação que vai mexer com todas as suas emoções. Você vai torcer, chorar e reconhecer nele uma inspiradora força de vontade para realizar o impossível.


    Acervo Pessoal | Divulgação

    As pessoas não tomam ciência da dor de outrem, até que este, decide falar sobre suas dores e limitações. Porém, o que deve-se fazer quando a pessoa em questão não pode falar, dizer ou simplesmente contar o que está acontecendo consigo por uma simples limitação? Esta é a história verídica de Martin Pistorius.

    Até os doze anos a vida de Martin era perfeita. Ele era uma criança como qualquer outra, ia para escola, brincava na porta de casa e corria de um lado para outro, porém, um dia tudo muda drasticamente. Aos doze anos de idade, Martin é diagnosticado com a síndrome do encarceramento, uma condição neurológica degenerativa considerada grave que acometeu sua juventude por três anos, tendo inicio quando ainda tinha doze anos. Esta síndrome se parece em diversos aspectos com a ELA (Esclerose lateral amiotrófica), onde a musculatura do corpo vai se atrofiando de forma involuntária e gradativa até que o individuo em questão perca todos os movimentos do corpo. Tanto a condição de Ela e da Síndrome do encarceramento não afetam as funções cerebrais, diferindo-se em apenas um aspecto: Enquanto ELA é uma doença degenerativa que afeta todos os setores do corpo humano levando o indivíduo ao óbito quase que certeiro, a síndrome do encarceramento possuí um tratamento que auxilia e ajuda na qualidade de vida do paciente.

    Quando eu era invisível é o diário/relato de Martin Pistorius escrito no ano de 2002 com o título original de "Ghost Boy", e publicado no Brasil através da Astral Cultural este ano (2017). O livro não é somente a história de Martin, é um relato triste e doloroso de uma fase conturbada de sua vida, onde as pessoas que deveriam cuidar de si, preferiram abusar de sua condição para violá-lo, desrespeita-lo e até mesmo abusá-lo sexualmente e de como superou suas limitações para iniciar uma família, superar traumas e claro, escrever um livro.

    No início é tudo muito mais complicado do que aparenta ser. Martin, um garoto que sempre aparentou ser muito saudável, começa á apresentar sintomas de paralisia, onde seu corpo começa gradativamente a parar de obedecer seus comandos. Seus pais, sem saber o que fazer e sempre muito ocupados com a vida, optaram por deixar Martin aos cuidados de uma clínica. Estando em uma condição neurológica grave que o impedia de falar, se mover ou se expressar, Martin começou a sofrer abusos por parte de seus cuidadores nas clínicas e nada podia fazer com relação a isso, nem mesmo pedir socorro aos seus pais. Comida quente, longas horas sem beber um copo de água e maus-tratos nas refeições foram apenas o início de sua desgraça.


    A vida começa finalmente a acontecer para mim enquanto os meus pais conversam sobre qual será e melhor forma de me ajudar. Agora as ambições deles com relação a mim vão muito além dos símbolos, no papel e eles decidiram me comprar um aparelho eletrônico, para comunicação, como a caixa preta que nós vimos durante a minha avaliação. É um salto de fé e eu gostaria de poder agradecer — pág.53

    Como se estar em uma condição neurológica degenerativa não fosse o suficiente, Martin tinha que enfrentar um dilema em sua família: sua mãe jogara sua responsabilidade ao ar, e entregou completamente seus cuidados ao seu pai. Martin possuía outros dois irmãos, David e Kim, que obviamente começaram a sentir ciúmes dos "cuidados excessivos" que o irmão recebia dos pais.

    Após ser transferido de clínica duas vezes, Martin é finalmente levado para uma clínica onde ele passava apenas as tardes, e lá, ele era bem cuidado e tratado por todos. Nesta clínica havia uma enfermeira muito atenciosa, que conversava e ria pelas tardes conversando com Martin, até que ela percebeu que havia algo de diferente no olhar de Martin, ele entendia o que ela dizia perfeitamente, e foi ai que ela percebeu que sua consciência estava intacta [...]


    As pessoas também se revelam de outras formas: Em um toque amável e carinhoso, ou rude e impensado, nos pés cansados que se arrastavam quando entravam em uma sala. Se estavam impacientes, suspiravam enquanto me lavavam ou alimentavam; se estavam zangadas, me despiam de forma agitada [...] — pág. 105

    "Nesse momento, percebi que o garoto invisível estava finalmente voltando a vida."


    A próxima coisa de que me lembro é estar deitado de lado em uma cama de hospital fria. Estava me mexendo e não conseguia ver direito, eu me sentia completamente desorientado enquanto tentava compreender onde estava (...) — pág. 89

    Assim que os pais foram notificados pela enfermeira da condição de consciência de seu filho, foram logo em busca de uma tecnologia que fosse capaz de restabelecer a capacidade de comunicação do filho. A mãe sempre mostrou-se relutante com relação ao filho, que agia muito diferente do pai, que sempre mostrou-se uma figura paterna de extrema preocupação com o bem estar mental e físico do filho.

    A partir do momento em que Martin começa a progredir, sua história começa a virar do avesso, pois agora tudo estava caminhando de forma magistral e sua vida parecia ter dado uma volta completa. A narrativa é sem sombra de dúvidas uma das mais tristes que você irá ler durante este ano.

    Sempre que leio uma obra biográfica como esta, lembro-me dos motivos pelos quais biografia (e autobiografia) tornaram-se meus gêneros favoritos. 


    COMENTÁRIOS PESSOAIS

    Acervo Pessoal | Divulgação

    Este livro é uma das biografias mais impressionantes com a qual eu tive o prazer de entrar em contato. Martin é o retrato perfeito das milhares de pessoas que encontram-se debilitadas e repleta de problemas familiares. Quando a doença surgiu em sua vida, Martin mostrou-se inquieto, porém, não insatisfeito e completamente grato pelos ensinamentos que conseguiu com o passar dos anos. Emocionante, impossível não se emocionar e questionar-se sobre sua própria existência. 

    Esta obra foi por muito tempo objeto de estudo e exploração de professores, cientistas e curiosos. O caso de Martin tornou-se um best-seller de extremo sucesso nos EUA, a partir do momento em que sua história como o "garoto invisível", começou a ser contada pela mídia, e seus problemas ganharam uma solução: sua vida serviu como porta de entrada para uma atenção maior aos pacientes acometidos pelo mesmo problema de saúde.

    Indicado para todo bom amante de um livro transformador [...]