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[RESENHA #186] Padre Pio - um santo entre nós

PADRE PIO – UM SANTO ENTRE NÓS. ALLEGRI, Renzo. Editora Paulinas, 2017. 613p.


Sinopse: A Igreja declarou, em 1997, que Padre Pio “viveu heroicamente as virtudes cristãs, desde os primeiros anos de seu sacerdócio.” Era assim reconhecida oficialmente a santidade desse religioso tão popular e tão amado, que, no entanto, foi alvo de inúmeros ataques e incompreensões. Padre Pio foi o religioso “mais badalado” pelos meios de comunicação. Sua vida foi tema de inúmeros livros, artigos, entrevistas de rádio e televisão, motivando calorosas discussões, que procuraram sondar a personalidade e os mistérios daquele a quem todos chamavam “o frade dos estigmas”. Depois da declaração da Igreja, tornava-se imperioso refazer a biografia de Padre Pio. O reconhecimento da sua santidade veio revolucionar quanto tinha sido escrito anteriormente. A clamorosa fenomenologia mística que caracterizou a sua existência terrena (estigmas, bilocações, curas, visões celestiais, viagens ao além, leitura de pensamento, o dom de perscrutar os corações e as suas premonições) tinha sido sempre posta em questão ou era motivo de chacota. Agora se deve considerar autêntica, depois de anos de processos e pesquisas; que tiveram um desfecho tão positivo e edificante! Esta biografia foi estruturada à luz do reconhecimento da santidade de Padre Pio, por parte do Vaticano, e é enriquecida com uma grande quantidade de material inédito, recolhido ao longo de muitos anos de pesquisa. Uma obra fundamental para conhecer Padre Pio, que, com os seus portentosos carismas e mistérios, suscita nos leigos um interesse inusitado e, em toda a cristandade; a urgência de viver com o coração em Deus.



Resenha:
Hic transire cave nisi prius dixeris ave” (p.82)
Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto de seu ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém.”
Tristeza e melancolia fora da minha casa.” (Pd Pio, p.78)
Ele era a lâmpada que ardia e iluminava e vós quisestes vos alegrar por um tempo com sua luz.” Jo 5, 35
Vós estais mortos e a vossa vida está escondida, em Deus, em Cristo.” (p.82)
Ó Deus, avistaram tuas procissões, as procissões de meu Deus, de meu rei no santuário.”
Sl 68, 25


Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa,
Sem outra luz nem guia
Além da que no coração me ardia.”
São João da Cruz, Canções da Alma em A noite escura da alma

As vidas dos santos não são iguais. Cada caminhada revela habilidades e dificuldades pela escolha do caminho da santidade. Porém, algumas coisas são iguais: a Igreja que deveria acolhê-los, normalmente, é a primeira a condená-los; as perseguições, calúnias, as doenças inexplicáveis que afligem esses homens e mulheres, entre febres inumanas e dores supra humanas, além de milagres e curas para os outros, jamais para eles mesmos, são traços que os unem, além, claro, da fé.
Frei Pio amava tanto o silêncio prescrito aos noviços, que não se ouvia uma única palavra da sua boca Ese, de vez em quando, tinha de transmitir aos seus confrades noviços obrigações importantes, ou de lhes fazer notar seus defeitos, comunicava o seu pensamento por meio de gestos, da expressão do olhar ou das suas atitudes.” (p. 87)
Não podeis, ó malditos escravos do dinheiro, gloriar-vos na cruz do nosso Senhor Jesus Cristo e ao mesmo tempo colocar vossa esperança nos tesouros, suplicar por fortuna e experimentar o quanto o Senhor é doce; e então com certeza O temerão muito, quando O verdes, Aquele cuja lembrança não vos pareceu cheia de doçura”
Bernardo de Claraval “Tratado sobre o amor de Deus”
Padre Pio foi o primeiro sacerdote estigmatizado da Igreja Católica. O fenômeno das estigmas, as marcas de Cristo que se desenvolvem em determinadas pessoas, também marcou o corpo de São Francisco de Assis, fundador da Ordem Franciscana.
Ninguém nasce monge.” (p.86)
No livro, acompanhamos o processo ascético da mística que envolverá Francesco, antes mesmo de se tornar Padre Pio, e, com isso, visualizaremos alguns dos mistérios que envolvem essa história. Vale a pena ler para acompanhar a jornada de Padre Pio e sua luta íntima contra demônios, além de sua luta cotidiana contra as perseguições dos homens de sua própria Igreja.
No seu epistolário, encontram-e, de vez em quando, passagens inspiradas por uma serena autoironia. Escreveu certo dia a uma filha espiritual: ‘Rio-me de suas penas, como você tantas vezes ria das minhas. Assim, cada um chora e ri, verificando-se também, nesse caso, as palavras do sábio: ‘O riso mistura-se com a dor.’ Se for possível, ria comigo, de si mesma e reza para que também eu possa rir de mim, com você.’ ”
(Padre Pio – um santo entre nós, p. 484)
Hagiografia é a biografia de um santo. A Igreja Católica utiliza a vida dos santos como faróis e alertas para os cristãos, como exemplos de aprendizado e vivência do evangelho do Cristo. Se acreditamos que seguir o caminho de Cristo é impossível, pela vida dos santos podemos vislumbrar o que o verdadeiro encontro com a santidade é capaz de fazer com um ser humano, mortal como cada um de nós.
Também não devemos esquecer que, da vida de um noviço religioso, faz parte uma componente particular, que tem grande influência e uma enorme importância: a ajuda vinda do alto. O silêncio, a oração e a meditação são vários meios para dialogar com Deus. E Deus responde sempre.
Abandonando-se às sugestões do interlocutor sobrenatural, o noviço é encaminhado através de experiências que superam as da vida normal, e penetra nos meandros da ascética e da mística. O seu conhecimento da vida e da realidade terrena aumenta e enriquece-se com novos e vastos parâmetros. A sua sensibilidade torna-se mais aguda e fina. Nasce um homem novo, com novas visões da realidade, visões ilimitadas.” (p. 91)
E creiam, minhas filhas, que, para vosso bem, deu-me o Senhor a entender um poucochinho dos bens que há na santa pobreza e, as que o experimentarem, entendê-lo-ão; talvez não tanto como eu, porque não só eu não tinha sido pobre de espírito, ainda que o tivesse professado, mas sim louca de espírito, porque experimentei o contrário. É este um bem que encerra em si todos os bens do mundo.” Caminho da perfeição – Santa Teresa D’Ávila
Encontrava-me muitas vezes com o Padre na varanda. Por vezes, ouvia-o falar, e então lhe perguntava: ‘Padre, que foi que disse?’.
Alguém lhe perguntou alguma coisa?’
É que o senhor estava falando...’
Mas não com você! Cuide da sua vida!’” (p. 462)
A hagiografia de Padre Pio é um relance em que vislumbramos os passos do vocacionado e, além disso, um caminho de santidade calcado na dor, na vivência com o outro e, sobretudo, na fé. A partir da história de Padre Pio, o cristão pode aproximar-se do que seria uma experiência de fé levado ao máximo, ao encontro mais íntimo com a figura de Cristo e de Maria.
A cruz é o estandarte dos eleitos. Quando o Senhor nos põe uma cruz às costas, fortalece-nos de tal forma que, suportando o seu peso, sejamos elevados com ela.” (p. 93)
Certo dia, a uma fiel que lhe confiava: ‘Padre, eu quero ser santa.’, respondeu, sorrindo: ‘Está bem, minha filha, mas olhe, você vai ter uma vida de cão.’” (p. 482)
Está vendo? Todos vêm aqui para que lhes seja tirada a cruz. Nenhum pede ajuda para levá-la.” (p.563)
É curioso observar que, se antes, a preocupação da Igreja com os santos era transformá-los em seres acessíveis apenas pela oração e pela fé, como exemplos de vocacionado, na biografia de Padre Pio teremos o contrário, a parte mais importante de sua biografia é sua parte mais humana: o humor, os aspectos de temperamento e comportamento, seus diálogos com as mulheres como um pai, sua preocupação com os doentes.
Ah, meu caro, não é a justiça de Deus que eu temo, porque dessa posso defender-me. O que me aterroriza é a sua misericórdia.” (p. 94)
“ ‘A ascese’ - explicou-me ele - ‘ é como uma pirâmide. Quanto mais o indivíduo sobe para o alto, mais se manifestam nele, de forma espontânea, fenômenos paranormais, como, precisamente, a possibilidade de ler o pensamento, viagens fora do corpo, precognições...’
A santidade encontra-se no vértice da pirâmide de que me falava o Professor Servadio. Por isso, nos santos, estão quase sempre presentes os vários fenômenos extraordináriosque são observados nos médiuns, nos carismáticos, nos gurus e nos homens iluminados, com a diferença de que, nos santos, esses fenômenos são mais frequentes, mais intensos; o ‘maravilhoso’, neles, é bastante mais benéfico e reconfortante.” (p. 534)
Essa busca por humanizar o santo, traz a reboque uma questão complicada que é a de que o santo teria defeitos humanos. Bom, tem. Mas a perfeição não é uma possibilidade humana, somente a Deus pertencendo. Isso não torna a figura de Padre Pio menos interessante ou passível de crença, curiosidade ou admiração.
“ ‘A minha alma’, escreveria o Padre, evocando as experiências místicas vividas durante aqueles dias, ‘foi subitamente arrebatada e levada a fitar, com o olhar da inteligência, objetivos diferentes daqueles que se veem com os olhos do corpo.’ Viu ao seu lado um homem majestoso, de rara beleza, resplandecente como o sol. Este tomou a sua mão e disse-lhe: ‘ Venha comigo porque precisa combater como um valoroso guerreiro’. Conduziu-o até um campo vastíssimo, onde se encontrava uma grande multidão de homens. Estes estavam divididos em dois grupos.
A alma, ou seja, o jovem Francesco, que mais tarde viria a ser Padre Pio, viu-se situado entre dois exércitos: homens lindíssimos e vestidos de branco, de um lado, e homens horrendos, com vestes negras, do outro.” (p.75)
Seja por curiosidade diante das polêmicas que o envolveram, e foram muitas!, seja por piedade pelas chagas e por toda dor que sofreu, o leitor, cristão ou não cristão, se verá diante de uma figura enigmática apresentada pelo autor com uma escrita leve, ainda que o assunto muitas vezes se torne tenso. A cada capítulo da hagiografia acompanhamos explicações do autor sobre assuntos mais profundos que perpassam a obra e a vida do santo, além de questões pertencentes à constituição da própria Igreja Católica, partes dividas com o título “Para compreender melhor”.
As lágrimas… Dom e carisma.” (p. 106)
Não é apenas um chamado aos vocacionados ou um livro de ensinamentos, mas também um roteiro cheio de momentos tensos e divertidos, demonstrando que padres também tem senso de humor, como podemos ver no capítulo 22, “O bom humor de Padre Pio”, e também em todo decorrer do livro, no qual o autor pontua aqui e ali os comentários e piadas do padre.
A todo momento o autor vai modificando pela linguagem a visão negativa sobre Padre Pio, comparando e trabalhando a estrutura da narrativa com a mesma estrutura da história de Cristo, para demonstrar que Padre Pio estava seguindo um exemplo maior. Do pai, segundo o autor, Padre Pio herdou uma "forte sensibilidade instintiva", da mãe "a grande e profunda fé religiosa, sentida e assimilada": as descrições são de um olhar fotográfico, vivo e detalhista.
Essas lágrimas fazem lembrar São Francisco de Assis. Os seus biógrafos contam que o “poverello”, com o coração incendiado de amor pelo seu Deus, deambulava pelos bosques e pelos campos, chorando e gritando: ‘O amor crucificado não é amado’.” (p.108)
Em infância, segundo o autor, foi absolutamente normal, “não se encontra nada que possa fazer prever a sua futura existência". Tornar um santo uma figura próxima do humano secularizado e comum, é uma estratégia de forma que diz ao homem comum que pode chegar a esse ponto também, se seguir os passos deste santo. É uma questão didática da teologia. Já neste relato da primeira infância de Padre Pio, seu biógrafo critica a negação dos outros biógrafos em falar sobre a presença de satanás na vida de padre pio. "Muitos biógrafos abordam superficialmente a presença das forças do mal na vida de padre pio." p.31
O biógrafo não se exime de escrever sobre os enfrentamentos do padre com satanás. diz que: "se nos recusamos a tocar esse tema, grande parte da vida de padre pio continua a não ser compreendida." E segue sua escrita apresentando um pequeno resumo das lutas, inclusive físicas, entre o santo e satã.
Encontro-me nas mãos do demônio, que se esforça por me arrancar dos braços de Jesus. Quanta guerra ele move contra mim, Deus meu! Gostaria de ter, querido Padre, não digo bastante tempo, mas pelo menos uma hora de repouso por dia.” (Padre Pio em carta ao seu padre confessor, p. 157)
Sendo assim, entre narrativas das perseguições e relatos de pessoas que o conheceram, a leitura deste livro é intensa e profundamente transformadora. Impossível não sair cativado com a figura de Padre Pio, sua aversão a advogados e sua ironia ao tratar os membros da própria Igreja. Uma figura humana sim, mas que permitiu que sua santidade não o tomasse apenas, mas também cativasse e tocasse a cada um que o conhecer, ainda que pela leitura de sua biografia.
O amor dos santos é um amor ardente, que os leva a praticar atos heroicos a fim de testemunhá-lo.” (p.108)
Isto se verifica, sobretudo, nos místicos. Estes passam, com perigosa frequência, por experiências espirituais tão fortes, que são capazes de entrar em verdadeiro estado de choque. Uma visão celeste, um estado de êxtase, uma oração intensa, que leva à união com Deus, podem ser comparados a um choque elétrico de altíssima voltagem. A alma fica inebriada, mas o físico sofre muitíssimo.” (p.114)
Disse também o Padre: ‘O dever do cristão é não colocar o seu coração nas coisas deste mundo. Deve trabalhar com vista aos bens eternos.’ Devemos fazer isso mesmo. De outro modo, o Padre dizia que seria nosso ‘advogado de acusação’, e não ‘de defesa’. Minha Nossa Senhora!” (p. 582)
Este livro, de uma forma ou de outra, não passa despercebido. Padre Pio parece conversar conosco a cada palavra e, nas entrelinhas, podemos ouvir seu riso sobre nossas bobas reclamações diárias. Ele nos convida a seguir o caminho da santidade, não por uma tola vaidade de sermos Santos.
Mas por amor a Deus. Por uma saudade do Pai.
Então, que por essa leitura, possamos ter essa saudade aumentada. E que nossa busca e seus percalços tenham a benção e a mão de Padre Pio.
Amor significa amargo, ou seja, sofrimento: se queremos verdadeiramente amar, temos de sofrer.” (p.78)
“ ‘Ensine-me um atalho para chegar a Deus.’
O atalho é a Virgem Santíssima.’” (p.576)
Mariana Belize

Projeto Literário Olho de Belize
olhodebelize.wordpress.com

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