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[RESENHA #194] Estado Terminal, de Dylan Ricardo

Arquivo Pessoal | All Print Editora | Divulgação

ESTADO TERMINAL, RICARDO, Dylan. Rio de Janeiro: All Print Editora, 2017. 124p ISB 978-854-111-311-3 / R$ 25

“Os que conheceram a morte por dentro perdem todo medo da morte”. — Osho 

SINOPSE

ERA UMA VEZ um dedicado leitor que queria ser escritor, pois achava que tinha o que dizer, mas não só isso, ele precisava expor, era muito mais que apenas um exercício de arrogância inconsciente. Era vital. ´
O MONSTRO QUE LHE HABITAVA AS ENTRANHAS estava a cada dia mais barulhento e preenchia cadernos com medos, desejos, lembranças e revoltas. Ele queria registrar tudo o que havia vivido, precisava deixar compiladas suas experiências, como uma marca do que passou durante a existência. Uma prova de que havia vivido.
ELE QUERIA ARRANCAR SEUS ESCRITOS DAS GAVETAS e atirá-los ao mundo. Queria tocar em sua obra publicada, pegar nas folhas, sentir o peso das frases, o cheiro do livro e o aguilhão de cada letra.
NÃO LHE BASTAVA MAIS ESCREVER PARA SI, ele desejava mostrar a todos o que acontecia pelos fumegantes e devastados campos inóspitos do seu cérebro. Queria cuspir, vomitar, arremessar tudo o que lhe carcomia as vísceras.
E COPULANDO COM A DOR, partejou poemas. Cem poemas que compõem esta pequena obra, fruto de noites em claro, de ácidas lágrimas vermelhas, de espelhos quebrados, paredes esmurradas, pulmões nicotinados, garrafas esvaziadas e torturantes lembranças. Caros leitores, Bem-vindos ao meu cérebro."

Arquivo Pessoal | All Print Editora | Divulgação

Certa vez, Clarice citou Não, é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus”.

A literatura é sem sombra de dúvida a manifestação artística e cultural que mais se renova, modifica e se transforma com o passar do tempo. Ainda existem autores capazes de se renovar, modificar e se transformar a cada nova obra lançada. Dylan Ricardo é participante de um time de autores que a cada livro lançado renova-se por inteiro, mas mantendo inteiramente sua capacidade descritiva excedente de toda e qualquer expectativa.


Dylan Ricardo é o resumo de uma vida de descobertas. Após viver na Palestina, Montreal e Canadá por quase dez anos, Dylan estudou psicologia, filosofia e literatura a fundo, a ponto de descobrir toda a mágica presente por trás das palavras, da escrita e do saber. Com sua experiência de vida, o autor de “Do Inferno” (Cultura em Letras, 2017. 114p), retorna com uma escrita nova, diferente e transformada. Diferente do que podemos ler em sua obra anterior, esta porém, é uma manifestação repleta de gritos silenciosos, ou como diria Charles Baudelaire “Toda pessoa traz em si uma dose de ópio natural incessantemente secretada e renovada”. Podemos sentir através da linhas de cada poema um grito, um grito que ecoa de diversos cantos que nos leva a refletir acerca da existência, do saber, do sonhar, das mágoas, dos ímpios, dos pecadores e até mesmo da morte.


Escrita

Arquivo Pessoal | All Print Editora | Divulgação

A escrita desta obra não poderia ser mais precisa, afinal, Dylan não é somente um grande escritor com uma bagagem de vida extensa, ele é também um poeta nato, um escritor e um observador atento ao que a maioria das pessoas não enxerga (ou não querem enxergar): O Obvio, pois as pessoas tornaram-se reféns de seus medos, e nesta obra, os medos tornaram-se reféns da escrita visceral deste icônico autor. Seguindo a mesma linha de raciocínio de sua obra anterior, mas com uma escrita inteiramente renovada, Dylan mostra-nos sua capacidade de ver e descrever os diversos ângulos de uma mesma situação, e descrevê-las como de fato são: cruas, verídicas, inefáveis e torna-las palpáveis para aqueles que arriscam mergulhar em suas páginas sintam a angustia de um luto, da morte, da perda, da dor, das consequências, do peso de uma mente barulhenta e, sobretudo, o peso da realidade.

ANÁLISE

Se o medo da verdade for algo que te persegue, este livro não é para você. Como dito anteriormente, o autor trabalha com assuntos que nos rasgam de dentro para fora, assuntos estes, que a maioria evita, pois é melhor viver no conforto de nossas mentiras, do que ser removido de nossa zona de conforto.

Sou finita vestimentada de poeira,
Que sangra  e gradativa apodrece.
Roupa débil que cobre e não aquece
O frio eterno da minha caveira

Sendo velho casaco que envelhece,
Tecido de duração passageira,
Aguardo pela caixa de madeira,
Lixo vindouro onde tudo desaparece.
[...]
— Carne, pag. 110

  Sem dúvida um dos poemas mais cativantes de todo o livro — opinião pessoal — é “Marte”, presente na página 67, que diz:

Espalha-se
Como batom derretido
E toma meu lenço
Quando a tosse é forte.
Um planeta vermelho
No branco tecido,
Sujo pelo beijo da morte

Trapo úmido e pesado
Pelas vísceras besuntado,
Melhor seria usado no chão,
Talvez mais limpo estivesse
Do que o lixo que apodrece
Em meu aniquilado pulmão

— Marte, pág. 67

Observemos a figura de linguagem adotada pelo autor para expressar seu sentimento com relação ao “beijo da morte”, que aproxima-se sorrateiramente de uma pessoa que cospe e tosse sangue em um lenço, causado por seus problemas pulmonares. O poema tem a proeza de encurtar situações que tomariam laudas e laudas em um livro, e aparentemente, nosso querido autor consegue dominar esta façanha em todas as 124 páginas de seu livro.

Há na noite pecepções que poucos desfrutam.
Uma brumosa languidez que a emoção eleva,
Qual suave e encantada harpa tangida na treva
Que apenas os melancólicos âmagos escutam.

Há na noite belo e estranho enigma contido.
Um silencioso, guardado e ancestral segredo
Pelos milênios arquitetado. Misterioso enredo
Que dissipa-se quando a alvorada traz seu ruído.

— Há na noite, pág 47

COMENTÁRIOS PESSOAIS
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Sinta-se convidado a enxergar a vida por um novo ângulo: o ângulo da verdade nua, crua, rasgada e transformada. Sem tabus, sem mitos e sem pausa para piedade.


Aventure-se e permita-se descobrir uma litura pura e transformadora. Compre, leia, viaje e experimente as sensações que outrora não sentiste.  

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