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[RESENHA #197] Virginia Berlim, de Luiz Biajoni

Foto: Divulgação/Editora PENALUX
Publicado originalmente pelo selo independente "Os viralata" em 2007, Virginia Berlim consolidou-se como sendo uma novela intrínseca e imprevisível.  Virginia abandonou o selo independente e agora conta com uma edição comemorativa especial de dez anos, publicada através da editora Penalux. A primeira edição da obra física contava com apenas 44 páginas, enquanto a edição comemorativa conta com 78. É realmente algo tentador.

Luiz Biajoni é conhecido na atmosfera literária por seus trabalhos excepcionais com sátira e humor, destacando seu trabalho na trilogia "A comédia Mundana". Leitores que estão habituados com a escrita efervescente do autor terão que se adaptar e se render as melancolias dispostas em “Virginia Berlim — Uma experiência”. No livro, ainda na apresentação o autor conta-nos como surgiu a ideia de uma reedição do livro:

Nos últimos dez anos sempre surgia alguém perguntando quando o livro teria uma reedição. Não tinha pensado nisso até recentemente, quando a amiga Vivien Morgato, num evento, lembrou que a primeira edição já caminhava para o décimo aniversário. Depois, navegando pela internet, encontrei um desenho do artista Miguel Cordeiro que me chamou a atenção – pensei: daria uma bela capa para  “Virgínia Berlim”. Depois, conversando com o amigo Gorj, da Penalux, veio a sugestão. E aqui está o livro. (p.9)

O ENREDO
Escrito basicamente em primeira pessoa, o personagem narrador é dotado de uma linguagem peculiar – talvez transferida diretamente do autor, sem pedágios ou intermediários – abrandada em relação ao primeiro romance de Biajoni (Sexo Anal). Uma novela para quem já teve o pé machucado ou já viveu uma grande paixão. Para quem já arrancou os cabelos ou foi ao médico. Para quem já sorriu e disse adeus.

Eu ainda me pego pensando nos mistérios que envolvem Virginia. Como uma mulher tão despretensiosa pode causar tanto efeito sob um homem? Ela era simples, comum até demais, não tinha nada de tão nítido que fosse capaz de prender ou hipnotizar alguém. Não era feia, nem bonita, também não era uma estrela de Hollywood, mas algo nela o prendia. Ele — O locutor — narra e pensa a todo instante em como seria se estivesse com Virginia, e quando está, não consegue pensar em mais nada. Não sabe-se muito sobre quem ela é, ou de onde veio, a única informação que detém-se sobre Virgínia é que ela consegue despretensiosamente dominar a mente de um homem que narra uma vida de encontros e acasos com alguém que ele não sabe nada a respeito, aliás, ele não domina nem os próprios sentimentos, não os define, apenas mostra saudade pela ausência de Virginia e excitação quando está por perto.

Um locutor que aparentemente é pego desprevenido em um ponto de ônibus, após sair de um bar após o expediente, tem um beijo roubado por uma mulher que se vai com a mesma facilidade que chega. Os lapsos de memória, as insônias e os pensamentos frenéticos e frequentes centrados em Virginia começam a tomar conta do homem que sente-se arrebatado pela figura daquela mulher tão misteriosa.


Eu pegava ônibus ali perto para ir embora – poucos tinham carro. E, numa noite, umas garotas ficaram por lá... E tinha essa garota, chamava Virgínia. E estava calor, era uma noite quente, legal, a lua estava bonita, tinha estrelas. E. Nós ali, descendo a rua, despreocupados. Então, de repente, sem aviso nem nada, Virgínia pulou em minha frente e me beijou. Passou os braços nas minhas costas e enfiou sua língua em minha boca; aquela saliva quente e doce, um certo resquício de álcool. Fiquei estarrecido, desorientado. O beijo foi demorado e, quando acabou, Virgí- nia saiu correndo me deixando lá, parado, no meio da rua, o pau duro e a boca melada (p.16)



Trazendo conforto e dúvida, Virgínia traz consigo um vento impetuoso de questões que permeiam a mente de nosso narrador, que já não se imagina mais longe daquela figura. A cada novo encontro, uma dúvida, um palpitar mais forte dentro do peito.

Pensei tudo isso, mas disse apenas não sei. E, de novo, aquele silêncio e ela foi se aproximando de mim e meu coração estava disparado. Pensei em evitar aquilo, aquele novo beijo, dizer que foi tudo um engano, a gente era amigo e essa relação, ela com o namorado, eu de estepe, sei lá, trabalhando juntos, ia ficar tudo muito complicado... Mas não deu e o 30 novo e bom beijo rolou de novo. E dessa vez demorou mais e foi uma sequência deliciosa de beijos. (p.29)

O livro possui uma beleza característica com relação a escrita do autor, podemos sentir a suavidade com a qual ele quis transmitir toda melancolia presente na trama, e nesta edição comemorativa o livro apresenta-se mais detalhado do que a primeira edição. Algo que realmente chama a atenção é o fato do livro possuir uma trilha sonora própria. Bacana, não? Isso me lembrou bastante o livro "O ultimo Adeus", da autora americana Cynthia Hand, que também possui uma trilha sonora, assim como o primeiro livro pelo qual me apaixonei "Selvageria Urbana", do autor Diogo Cysne.

Enfim, esta edição está impecável, vale a pena conferir a escrita do autor e delirar-se por Virginia.

O AUTOR


Luiz Biajoni, nasceu e vive em Americana, SP. Escreveu três novelas policiais sacanas, publicadas em um único volume, intitulado A Comédia Mundana (Língua Geral, 2013) e A Viagem de James Amaro (Língua Geral, 2015), ambos editados também em Portugal, pela Chiado Editora. Publicou ainda Elvis & Madona – Uma Novela Lilás (Língua Geral, 2010).

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