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[RESENHA #202] Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto

Ensaios para a queda, Fernanda Fatureto | Acervo Pessoal


ENSAIOS PARA A QUEDA. Fatureto, Fernanda. Guaratinguetá, SP: Penalux, 2017, 74p ISB 978-85-5833-244-6/ R$ 35,00

Como diria Friedrich Nietzsche: “A grandeza do homem consiste em que ele é uma ponte e não um fim; o que nos pode agradar no homem é ele ser transição e queda”. Todas as pessoas estão habituadas a se preparar para um dia de glória e vitória, mas ninguém nunca está pronto para sucumbir-se pela queda, pelo fracasso, desânimo ou pela condição de falha.

Ensaios para a queda é um livro do gênero poesia escrito pela jornalista e poetisa Fernanda Fatureto. A obra constitui-se de um conjunto de poesias reflexivas acerca das condições de limitação humana. Utilizando uma seleta gama de temas, Fernanda usa uma linguagem quase que romântica para tratar de assuntos que além de provocarem momentos de reflexão, leva-nos ao encontro de nosso subconsciente, permitindo-nos quase que de modo automático autorizar a nossa própria queda, mas não para a desgraça, mas para habituar-nos com as questões de falibilidade imposta pela vida aos seres humanos.



Permita-se experimentar das doces escritas da autora, permita-se ser tocado pelo beijo do despertar, pela doce brisa da realidade e pela tentação de superação, superação de nossas próprias falhas. Permita-se cair.

Como a própria nota de imprensa da editora responsável pela publicação da obra disse: “A queda nada mais é que uma abertura à surpresa e às possibilidades infinitas da linguagem: o poema emerge da escavação interior.”

O livro conta com uma nota de abertura muito bem elaborada pelo historiador André Caramuru Aubert (USP/SP), a respeito da escrita, linguagem, temas, contornos e nuances adotadas por Fatureto em suas escritas. “É assim que numa estofe ouvimos os ecos de Paul Celan ou de Marguerite Duras, numa outra vemos a tatuagem deixada, nas leituras juvenis, por Cecília Meireles e Clarice Lispector; em alguns momentos percebemos as angústias herdadas por Ana Cristina Cesar, em outros notamos a sensualidade de Hilda Hilst; vez por outra percebemos as marcas deixadas pela delicadeza de Mariana Lanelli ou pelo Hermetismo de Maria Gabriela Llansol”.

 O livro é divido em três partes distintas: Travessias, Miragem e Polifonia. Em todas as três divisões encontramos o sentimentos que correspondem ao título do capítulo. Em travessias, nos deparamos com uma escrita suave, repleta de reflexões entre a transição de uma posição/postura para outra.

III
Ações mínimas preenchem o dia,
Um rio passou pela cidade e deixou seu rastro
A vergonha de existir numa dor não nos cabe
Ficamos rubros ao olharmos no espelho.
Como encarar estranhos na calçada,
Manter o ritmo acelerado,
Arcar com as consequências de estarmos ali
Entregues ao que o acaso ditar — como vento,
Soletrar a alvorada, refazer o papel das folhas
Reconfortar o corpo na entrega. (p.29)

Em “Miragem”, encontramos poemas que se remetem ao sentido metafórico da linguagem, como diria Aurélio “Miragem é aquilo que se apresenta como algo muito bom, mas que não é verdadeiro; falsa realidade, ilusão, quimera, sonho”.

IX
Nunca estivemos no limite do que se chama
Humanidade;
O reflexo no espelho nos garante isso.
Minhas duas mãos tateiam
O reencontro em cada marca:
Algumas pessoas passaram.
A somatória do tempo nos trouxe até aqui.

Já em “Polifonia”, encontraremos poemas em forma de sonetos, como em um conjunto harmonioso de sons. Uma mistura da escrita doce de Hilda Hilst, com toda avidez de Clarice Lispector.

XII
Refaço caminhos longos,
O calor queima o corpo no leito obscuro da memória.
Murmúrio e martírio sobre o mesmo rosto
Refletido no espelho.
Tudo o que pesa adquire nova vida ao alvorecer.
Trilhas repetidas pelo ciclo infinito do tempo
Permanecem no centro do peito
Como tiro de canhão à meia noite —
Traço marcado para a morte e renascimento.

A estilística adotada pela autora é louvável, assim como o uso sintático das palavras e os léxicos utilizados durante a produção textual imposto em suas criações poéticas (e sonoras). Levando em consideração o fato de Fernanda Fatureto ser uma jornalista, poderemos chegar ao veredito de que ela — mais do que ninguém — conhece a importância de uma escrita cativante, que instigue, massacre e aprisione o leitor, e devo dizer, que ela conseguiu com maestria redigir um livro puro, doce, sensual e cativante com excepcionalidade.

Um livro que todos devem conhecer e torço imensamente para que outras pessoas tenham o prazer de ter acesso à esta obra prima, tanto quanto eu tive. Este é um dos poucos livros de poemas que leigos poderão se apaixonar, talvez a escrita de Fatureto aprisione e crie novos leitores para continuidade da poesia no meio literário, não somente pela sua escrita, mas sobretudo, por sua sonoridade e profundidade. Indicado para absolutamente todos os apaixonados por livros [...]

A AUTORA

Fernanda Fatureto é poeta e jornalista. Bacharel em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Participa das antologias poéticas 29 de Abril: O verso da violênciaSubversa 2 Senhoras Obscenas. Seu livro de estreia, Legitimidade Inconfessável, foi publicado em 2014 pela Editora Patuá. Possui poemas em diversas revistas literárias do Brasil e na revista InComnidade de Portugal. Nasceu em Uberaba (MG) em 1982.

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