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[RESENHA #207] Ética, de Adolfo Sanchez Vazquez

Foto: Acervo Pessoal

ÉTICA. VAZQUEZ, Sanchez. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017, 304p 4ª edição. ISB 978-852-001-014-3 / R$40,76


Ao elaborar este volume, o grande objetivo de Adolfo Sánchez Vázquez foi introduzir o leitor nos problemas fundamentais da ética nos dias de hoje. Além de abordar temas clássicos como o 'objeto da ética', 'a essência da moral', 'o determinismo e liberdade' e 'a avaliação moral', o autor discute questões cruciais e pouco exploradas como moral e história, e forma lógica e justificação dos juízos morais. Usando uma linguagem clara e acessível, mas mantendo o rigor teórico e observando as exigências de fundamentação e instigação sistemática, Sánchez Vázquez examina os diversos fatores sociais que contribuem para a prática da moral. Ele mostra que a moral é uma forma do comportamento humano que se concretiza apenas quando as pessoas estão vivendo em sociedade: a moral existe necessariamente para cumprir sua função social. Assumindo corajosamente posições pessoais, analisando criticamente opiniões díspares e evitando o dogmatismo que transforma a ética em um código de normas, Vázquez delineia o conceito de uma nova moral: uma que esteja de acordo com as necessidades e possibilidades presentes e contribua para levar o homem a uma moral verdadeiramente universal.


Entender a ética, valores morais e o comportamento humano nunca foi uma tarefa fácil, principalmente para aqueles que participam ativamente do meio social como civis, não como observadores. E talvez seja por este motivo que “Ética”, tornou-se um livro tão indispensável no acervo literário de qualquer cidadão. Neste volume (Civilização Brasileira, 2017) Adolfo Sanchez Vázquez conduz o leitor aos problemas fundamentais da Ética. Por meio de uma linguagem clara e acessível, mas sem perder todo o rigor teórico e as observações da exigência da fundamentação, Vazquez examina os fatores sociais que contribuem para a prática da moral.

Antes de iniciarmos uma análise profunda acerca da obra do autor, primeiro temos que tomar conhecimento dos tópicos principais abordados em sua escrita: Ética e Moral.

Ética:

1. parte da filosofia responsável pela investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo esp. a respeito da essência das normas, valores, prescrições e exortações presentes em qualquer realidade social.
2. p.ext. conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa e moral de um indivíduo, de um grupo social ou de uma sociedade.

Moral:

1.        concernente a ou próprio da moral.
2.        pertencente ao domínio do espírito do homem.
3.        que denota bons costumes segundo os preceitos estabelecidos por um determinado grupo social.
4.        conjunto de valores, individuais ou coletivos, considerados universalmente como norteadores das relações sociais e da conduta dos homens.
5.        cada um dos sistemas variáveis de leis e valores estudados pela ética, caracterizados por organizarem a vida das múltiplas comunidades humanas, diferenciando e definindo comportamentos proscritos, desaconselhados, permitidos ou ideais.

À diferença dos problemas práticos-morais, os éticos são caracterizados pela sua generalidade. Se na vida real um indivíduo concreto enfrenta uma determinada situação, deverá resolver por si mesmo, com a ajuda de uma norma que reconhece e aceita intimamente, o problema de como agir de maneira a que a sua ação possa ser boa, isto é, moralmente valiosa. Será inútil recorrer à ética com a esperança de encontrar nela uma norma de ação para cada situação concreta. A ética poderá dizer-lhe, em geral, o que é um comportamento pautado por normas, ou em que consiste o fim — o bom — visado pelo comportamento moral, do qual faz parte o procedimento do indivíduo concreto ou de todos. (p.17)


Para ilustrar sua afirmação anterior, Vazquez recorre aos estudos de um dos filósofos mais conhecidos do mundo: Aristóteles.

Aristóteles se propõe o problema teórico de definir o que é bom. Sua tarefa é investigar o conteúdo do bom, e não determinar o que cada indivíduo deve fazer em cada caso concreto para que o seu ato possa ser considerado bom. (p.18)

Definir o que é bom ou moralmente ético nunca é uma tarefa fácil, e Vazquez — mais uma vez — coloca o interlocutor contra a parede, quando evoca situações problemáticas do dia-a-dia, onde a prática da ética/moral se evidencia. Ilustremos da seguinte forma: “Se em uma ocasião de guerra, meu amigo “z” estiver compartilhando informações com o inimigo “Y”, devo manter segredo em nome da amizade, ou devo acusa-lo de traição?”. Certamente existem escolhas que podem afetar a vida de um indivíduo, mas outras podem salvar uma nação.

O comportamento prático-moral se transforma e sofre mutações com o passar dos anos, estas mudanças acabaram ocasionando uma qualidade de teoria moral, tornando-se um objeto de estudo e reflexão. Quando nota-se que estamos enfrentando um problema ético-moral, começamos adentrar em um dos poucos problemas na esfera dos problemas teórico-morais ou éticos.

Na ética não há uma norma de ação para cada situação esta seria um problema prático-moral, a ética investiga o conteúdo do bom e não o que cada indivíduo deve fazer, mas o significado de bom, muda de teoria para teoria, sendo às vezes pautado por um momento de felicidade, desejo etc. Estudar a moral é uma tarefa árdua que nos leva para outros problemas práticos/teóricos sociais, por exemplo, só se fala em um comportamento moral quando o sujeito é responsável pelos seus atos.
Os problemas éticos se diferenciam dos morais devido a sua generalidade, portanto pode contribuir para fundamentar ou justificar certa forma de comportamento moral. A ética rejeita o comportamento egoísta como moralmente válido, deve ser feito em prol do bem da sociedade, visando o que é moralmente válido.
Certamente, o estudo de muitas éticas tradicionais partes da ideia de que a missão do teórico neste campo é dizer aos homens o que devem fazer como fazer, lhes ditando as normas ou princípios pelos quais devem pautar seu comportamento. O ético transforma-se em um legislador de comportamento moral do indivíduo ou da comunidade.
Deve-se sempre ter em mente que a ética não cria a moral. A ética depara com uma experiência histórico-social no terreno da moral, ou seja, com uma série de práticas morais em vigor e partindo delas procura encontrar a essência da moral, sua origem, as condições objetivas e subjetivas do ato moral.
A ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade.
A definição indica o caráter científico desta disciplina, ou seja, corresponde à necessidade de uma abordagem científica dos problemas morais.
A ética é a ciência da moral, sendo a ética objeto da moral, podendo dizer que exista ética científica não atribuindo a mesma qualificação à moral. Não existe uma moral científica, no entanto, há uma moral compatível com os conhecimentos científicos sobre o homem e a sociedade. Este ponto em que a ética serve para fundamentar a moral, sem ser em si mesma normativa ou preceptiva. A moral não é ciência, mas objeto da ciência. A ética não é a moral não podendo ser reduzida a um conjunto de normas e prescrições, a sua missão é explicar a moral.
(AUGUSTO, Deoclides, 2006 p.6)
Assim como qualquer outro preceito de caráter humanístico, a moral está sujeita a falhas e progressões. Se compararmos o meio social em que vivemos com o mundo social de cinquenta anos atrás, iremos perceber que a moral sofreu uma progressão, talvez este seja um dos motivos pelos quais a moral tornou-se um objeto de estudo: compreender sua essência e constantes modificações com o decorrer no tempo. O progresso da moral pode estar relacionado a características próprias da sociedade de cada tempo, não sendo assim, um avanço para muitos, mas um retrocesso.
Quando falamos em progresso moral estamos falando da sucessão de formação econômica-social-política, mas sempre com um enriquecimento — fator, denominador — comum responsável pela respectiva ação da moral no campo social. Em suma, o progresso da moral não se trata de um progresso independente — isolado — mas de um progresso que se relaciona, fomenta e condiciona mutuamente com o evoluir do homem social. O progresso moral no estudo histórico envolvendo todas suas vertentes, envolve também atividade produtiva do homem em um coletivo, ideia esta que enfatiza a frase disposta na capa traseira da obra “A moral existe necessariamente para cumprir uma função social”.

Foto: Acervo Pessoal

A moral efetiva compreende normas, regras e padrões de comportamento social e como o mesmo deve ser em prática.

Vejamos três aspectos fundamentais da qualidade social da moral:

A) Cada indivíduo, comportando-se moralmente, se sujeita a determinados princípios, valores ou normas morais. Nesta comunidade vigoram, admitem-se ou consideram-se válidos certos princípios, normas ou valores. Ao indivíduo como tal não é dado inventar os princípios ou normas, nem modificá-las de acordo com uma exigência pessoal.
Nessa sujeição do indivíduo a normas estabelecidas pela comunidade se manifesta claramente o caráter social da moral.
B) O comportamento moral é tanto comportamento de indivíduos quanto de grupos sociais humanos, cujas ações têm um caráter coletivo, mas deliberado, livre e consciente. Trata-se de uma conduta que tem consequências, de uma ou de outra maneira, para os demais e que, por esta razão, é objeto de sua aprovação ou reprovação.
C) As ideias, normas e relações sociais nascem e se desenvolvem em correspondência com uma necessidade social. A sua necessidade e a respectiva função social explicam que nenhuma das sociedades humanas conhecidas, até agora, desde as mais primitivas, tenha podido prescindir desta forma de comportamento humano.
Logo podemos chegar à conclusão de que a moral existe para regular, intervir e contribuir garantindo uma ordem social. Porém, a investigação da moral também busca explicar os motivos que levam indivíduos a não aceitarem de forma voluntária e íntegra a moral de forma livre.
De acordo com Sanchez Vazquez:

O comportamento moral é um comportamento obrigatório e devido; isto é, o agente é obrigado a comportar-se de acordo com uma regra ou norma de ação e a excluir ou evitar os atos proibidos por ela. Por conseguinte, a obrigatoriedade moral impõe deveres ao sujeito. Toda norma funda um dever. (p.179)

Tendo em vista que a ética nada mais é do que uma função social pode-se chegar ao veredito de que se não houvesse sociedade não existiria um padrão ético a ser seguido, ou melhor, não haveria ética ou conceitos derivados ligados a um padrão "x" de comportamento. Este pensamento é tão fruto de uma vida social, quanto à própria ética em si.

Na obra "Ética e moral — A busca dos Fundamentos", de Leonardo Boff, o estudo comportamental das ações relacionadas ao homem, nos permite conhecer e reconhecer que o homem é um ser que parte de princípios e ideais voltados para si: ganância, ausência de altruísmo e vontade exacerbada de se sobrepor a outros seres. A falta do sentimento, compaixão e solidariedade é o principal indicador de uma crise generalizada de valores. Tanto Vazquez quanto Boff conseguem enxergar a moral como um complemento da ética. Enquanto a ética é algo adquirido com experiências reais livres de julgamentos terciários, a moral é o complemento que rege o homem e suas ações, e a ética torna-se então a afirmação explicita na capa traseira do livro de Sanchez Vazquez "Ética é uma função social". 

Já na obra, "O que é ética", de Álvaro Valls, o autor define a ética como:

Tradicionalmente a ética é entendida como um estudo ou uma reflexão científica ou filosófica, e eventualmente até teológica, sobre os costumes ou sobre as ações humanas. Mas chamamos de ética a própria vida [...] A ética pode ser o estudo das ações ou dos costumes, e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento (p. 7).

Em suma, quando falamos de ética não estamos falando apenas de teorias e práticas, mas estamos colocando em ação a filosofia do saber, a importância da teologia na fomentação histórica do conceito humano de ética, e subsequentemente da própria vida. O termo ética é derivado do grego ethos, que significa “caráter” ou “modo de ser”, então podemos presumir que a ética não é apenas uma ferramenta necessária para se exercer a função social, ela também é constituinte do comportamento humano.

Não podemos nos esquecer do conceito mais conhecido no meio acadêmico e social acerca do que vem a ser ética, a de Aristóteles. Em sua obra "The etics of Aristotle", o filósofo grego defende a ideia de que a ética é regida pelo sentimento de felicidade humana, neste sentido, considerando a ética como um padrão de virtude, o autor define a moral como sendo um ato de disposição — agir de forma deliberada em conformidade com a razão. Após estabelecer a moral como resultante das emoções humanas, Aristóteles explica a diferença entre as virtudes (moral e intelectual). Em suma, podemos afirmar que a Aristóteles acreditava tanto quanto o Sanchez Vazquez que a moral (virtude e ética) é um padrão de vida adquirido e um campo a ser estudado.

“A natureza nos dá a capacidade de recebê-las [as virtudes], e tal capacidade se aperfeiçoa com o hábito” (ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, II, 1103 a 26).

Conclui-se então que o ato moral de forma resumida constitui-se em sua totalidade uma unidade indissolúvel de aspectos e elementos que regem o comportamento humano no campo social. A obra de Sanchez Vazquez é indispensável para universitários e alunos dispostos a explorar o universo sobre uma nova ótica.

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