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[RESENHA #211] No limiar do mistério, org. Faustino Teixeira

sábado, dezembro 30, 2017

/ by Mariana Belize





Título: No limiar do mistério – Mística e religião, org. Faustino Teixeira
Páginas: 436
Editora: Paulinas
Autores presentes na obra: Faustino Teixeira, Maria Clara Lucchetti Bingemer, Luiz Felipe Pondé, Luiz Henrique Dreher, Dawy Bogomoletz, Monica Uddler Cromberg, Marco Lucchesi, Vitoria Pires de Oliveira, Pablo Beneito Arias, Monja Coen e Silvia Schwartz.
Ano: 2004
Sinopse: “ (…) Fruto de um seminário promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, em setembro de 2001, este livro busca apresentar em quatorze artigos um panorama da mística nas tradições judaica, cristã, islâmica e zen-budista. Trata-se de uma tentativa pioneira de traduzir e desenvolver o trabalho conjunto que vem sendo realizado em universidade brasileiras em favor de uma mística comparada, articulando-se com outras reflexões em curso no exterior.” (Faustino Teixeira)


Resenha

Na Apresentação, o professor Faustino Teixeira explica, dentro do contexto de época, sobre a presença cada vez mais significativa dos estudos sobre mística comparada nas universidades. Como o livro é de 2004 e foi feito a partir de um seminário que ocorreu em 2001, o contexto histórico que é pano de fundo e citado em alguns dos textos é o acontecimento de 11 de setembro de 2001 (em que as Torres Gêmeas foram destruídas nos EUA).
Como leremos no artigo da Monja Coen, isso leva diversos religiosos e estudiosos de religião a se questionarem:

“Assim, senti-me insuficiente”, nos diz ela em seu artigo, “em minha prática, preces, meditações, estudos, aula, vida, pois me pareceu que tudo o que venho fazendo, vivenciando, praticando, estudando, ensinando, não está servindo para abrandar o sofrimento do mundo, não está servindo para auxiliar no amadurecimento da espécie humana, que continua tolamente destruindo a si mesma e ao seu meio ambiente.”

Como compilado de artigos, seremos apresentados à diversas linguagens, o que, por um lado, é interessante, mas por outro também desafiador: existem trechos ininteligíveis nos artigos de Luiz Felipe Pondé, que são voltados apenas para um público familiarizado com uma linguagem filosófica mais intrincada. Muito diferente da abordagem de Pondé em “Nomen innominabile: a mística de Meister Eckhart” e “O método de Deus”, são os artigos de Davy Bogomoletz e Marco Lucchesi. Davy Bogomoletz em seu “O misticismo judaico: um cartão de visitas”, apresenta de maneira simples e para o leitor, ainda que leigo, alguns dos fundamentos do misticismo judaico, entremeados por parábolas, além de uma linguagem na qual importam a possibilidade de diálogo com o leitor e, principalmente, visa a cutucar a curiosidade do leitor para buscar sobre o misticismo judaico em outras fontes.

“Desta forma mínima, quase impalpável, atrevo-me a apresentar o misticismo judaico. Sobre esse tema já foram vertidos mares e mares de tinta sobre continentes de papel. Não sou digno da tarefa, mas não posso fugir a ela. Por isso a ousadia, por isso a insuficiência.”

E continua:
“(…) atrevo-me a apresentar a vocês um pensamento absolutamente primitivo, ingênuo, particularíssimo em seu etnocentrismo e totalmente desvinculado de qualquer interesse econômico: a mística judaica. Mas a mística judaica justamente notabilizou-se por ignorar as leis da natureza, inventando uma ‘tecnologia’ de grande eficácia (segundo dizem), por subverter a cultura na qual nasceu, por imaginar-se universal e, neste sentido, extremamente ambiciosa (seu projeto central: apressar a chegada do Messias, que mudaria o mundo e o re-transformaria no Paraíso), e por haver propiciado o surgimento de uma mudança social e econômica que bem mereceria o título de ‘ revolução’, para a qual não precisou em momento algum da ajuda de arma alguma. Nada mais contemporâneo, portanto, que ela.”

Curioso, não?

Já no artigo de Marco Lucchesi, que é poeta e por isso sabe conquistar o leitor pelo corpo, somos apresentados aos conceitos presentes na obra de Rûmî, místico sufi e também poeta, e a partir daí, Marco desenvolverá conceitos poéticos presentes nas obras de Rûmî, ao mostrar ao leitor as imagens que se apresentam na poesia de Rûmî e como estas são construídas de modo a aproximar o homem, cada vez mais, de Deus.

“Tudo se move para Deus. Mesmo a pedra. A sombra. O não-ser. Djins e demônios sonham a Beleza. E também os dervixes buscam altitudes.”

O diálogo entre Marco e a obra de Rûmî ultrapassa a fronteira da prosa, do gênero artigo, e termina dando ao leitor uma série de símbolos que nos transpassam de sensações, emoções, imagens do sagrado. O leitor é, assim, banhado por estes símbolos que, pontuados, obrigam-no a frear a leitura a cada símbolo e parar para visualizar. Este artigo de Marco é uma das pérolas do livro, também acompanhado do artigo/ fala da Monja Coen que é um exemplo de mansidão e sabedoria:

“A força do ensinamento de Buda me carregou até aqui, como num sopro de luz. Repensei valores e situações, refleti sobre a condição da humanidade, ou parte dela, que precisa de cura imediata, pois sofre de males graves e antigos, quase crônicos. Percebi que é exatamente por todas essas crises e dificuldades que estamos aqui. Somos pessoas de várias religiões empenhadas no diálogo, na compreensão, no respeito mútuo, abrindo portas para uma Cultura de Paz.”

Anterior ao artigo de Marco Lucchesi, temos o exemplo de didática do professor Faustino Teixeira, que, desde a introdução, nos apresenta as questões do diálogo interreligioso, passando para uma apresentação sobre o sufismo, indo desembocar em Rûmî, um dos maiores nomes dessa corrente de mística islâmica. Sendo assim, os artigos de Marco e de Faustino se completam e, acertadamente, foram postos um após o outro.
O livro também traz uma importante inserção da escrita e pesquisa de mulheres sobre ideias de mulheres como Teresa D’Ávila, Simone Weil e Edith Stein. Bem como também acompanharemos em que medida essas mulheres modificaram seus tempos e os nossos com suas atitudes, estudos, mas principalmente por suas ações em suas sociedades e, mais ainda, de que forma a dissonância delas com suas épocas se reflete na busca mística de cada uma.
“Com o olhar voltado para a questão inter-religiosa”, leremos no artigo de Maria Clara Bingemer “como a mística cristã é interpelada pelas experiências espirituais presentes em outras religiões”.
Seguindo a trilha com Maria Clara, também leremos sobre gênero, mística e da violência do Holocausto, “em artigo que busca resgatar a trajetória e história de três mulheres excepcionais: Simone Weil, Edith Stein e Etty Hillesum.”

“As três mulheres, cuja vida e reflexão constituem o objeto de nosso estudo, colocaram toda a sua força vital em assumir a responsabilidade pelo destino da humanidade como um todo. Isso o fizeram movidas por sua fé e por sua experiência de Deus, sem sequer deixar de ser críticas da própria instituição religiosa com a qual dialogavam em determinadas ocasiões. Lançaram, assim, as bases fecundas para uma ética do primado da alteridade que lhes permitiu não só enfrentar a violência da qual eram vítimas como deixar tais postulados éticos como legado aos seus contemporâneos e descendentes.”

Também conta com a reflexão sobre mística sufi da pesquisadora Vitória Peres de Oliveira (PPCJR-UFJF), apresentando uma das grandes personagens do início do sufismo, uma das mulheres místicas mais singulares do Islã, introduzindo “o tema do amor gratuito e desinteressado no ensinamento austero dos primeiros ascetas do sufismo”. Já o pesquisador e professor da Universidade de Sevilha (Espanha) Pablo Beneito Arias “aborda a questão do esoterismo diante do exoterismo: a linguagem das alusões no sufismo segundo Ibn’ Arabi de Múrcia”, outro expoente da mística sufi. Apresenta também conceitos atribuídos a esta mística como isara, que pode ser traduzida como “alusão esotérica”.

Ainda que pareça ser um livro cansativo, com muitas páginas (436, pra ser exata), o limiar do mistério é que sua leitura é fluida e diversificada, portanto leve e divertida. Por isso, toda aparência negativa deve ser descartada. Este é um livro que traz em suas páginas não apenas artigos acadêmicos, com sua linguagem ortodoxa (como a de Pondé), mas também preciosidades e belíssimos trechos que ficam na memória e, mais, no coração. Além disso, a proposta de uma Cultura de Paz transparece-se intrincada em cada leitura, trazendo afeto e empatia por cada religião que conhecemos, levando o leitor ao interesse de pesquisar mais e ler sobre cada uma.

É um livro para ser lido com grande calma, silêncio e tranquilidade, principalmente se o leitor é, como eu, um leigo nos assuntos. Também recomendo um papel e um lápis para rabiscar anotações. Tudo desse livro te leva a pesquisar, até o hermetismo de Pondé ao tratar de Meister Eckhart que é tão simples e belo quanto uma pétala de flor. Vejamos:

“Mas Deus não necessita sequer de qualquer imagem, tampouco possui Ele qualquer imagem que seja. Sem qualquer semelhança, intermediário ou imagem – Deus age diretamente na alma: naquele chão mesmo do qual falávamos, onde imagem alguma jamais penetrou, apenas Ele mesmo com seu ser. Isto não há criatura que possa fazer.” (Primeiro Sermão, Meister Eckhart)

Simples e profundo, não?

Fica então aqui o convite a todos para que leiam este livro. A Cultura de Paz faz-se não apenas de ações entre as religiões e seus líderes, mas também entre seus participantes.

Axé!

Mariana Belize
Projeto Literário Olho de Belize

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