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[RESENHA #213] A identidade envergonhada, de Alain Finkielkraut

A identidade envergonhada, de  Alain Finkielkraut | Divulgação

A identidade envergonhada. FINKIELKRAUT, Alain. São Paulo: Difel, 2º ED. 2017, 158p


“A identidade envergonhada” é um ensaio de descontentamento do filósofo francês Alain Finkielkraut acerca da realidade contemporânea enfrentada pela França em meio ao multiculturalismo e a realidade por trás da imigração. O livro além de ser um estudo de suas observações com relação à sociedade Francesa é também uma análise sobre como a política vigente da França tem se importado com relação à nação, aos imigrantes e os problemas sociais recorrentes, fatores estes, frutos de uma sociedade multiculturalizada desprovida da intervenção política.

O livro é dividido em sete capítulos, sendo eles: Leigos contra leigos; miscigenação francesa; a vertigem da desidentificação; A lição de Claude Lévi-Strauss; “Uma coisa bela, preciosa, frágil e perecível”; a guerra dos respeitos; o regime enxague e o processo inexorável.

O autor incia o livro com algumas palavras que criam uma linha de argumentação sucinta e abrangente com relação aos acontecimentos que são descritos nos próximos capítulos. A nota de abertura e a iniciativa do autor em adota-la, torna a leitura fluida, breve e agradável. Ao abordar as questões histórico-político-sociais na França com o decorrer dos anos, cria-se então uma análise temporal, onde poderemos entender de forma clara o problema do multiculturalismo na França moderna com relação ao “Antigo mundo” — como o autor refere-se ao país em diversos pontos no decorrer da narrativa —.

A narrativa inicia-se abordando a vida do autor durante o período escolar e os protestos dos estudantes que exigiram uma reforma no setor educacional da França, que acabou tornando-se também uma batalha que envolveu outros setores, o que ocasionou em uma greve de trabalhadores durante a presidência de Charles De Gaulle em 1968.

“Na França Anterior, acreditava-se na política. Nessa França de outros tempos, a história já tinha que responder por seus crimes, mais ainda parecia ter sentido”. p.9

“De volta a Paris depois dos primeiros confrontos entre os estudantes e a polícia, vivi plenamente esse momento de graça, essa interrupção sabática da vida corrente, na qual as pessoas não se cruzavam mais, mais ouviam e disputavam a palavra. Com a participação de todos e para o espanto geral, o formigueiro se transformava em ágora. Nada escapava a crítica; era embriagador repensar tudo, recomeçar tudo”. p.10

Neste capítulo o autor relembra como tudo aconteceu de forma gradativa em 1989, quando três alunas muçulmanas foram expulsas por se recusarem a retirar o lenço que cobria suas faces, o que gerou uma série de protestos envolvendo o governo e as instituições religiosas sitiadas na França, em sua maioria, imigrantes. A partir deste momento começou-se a especulação acerca do que viria a ser a liberdade de expressão ou proselitismo radical.

Judeu e de origem polonesa, Alain Finkielkraut nasceu em 1949 em Paris. Como estudante, ele participou dos eventos de maio de 1968. A descoberta dos crimes do comunismo nas décadas seguintes exigiu-o, como tantos outros, a questionar suas ideias revolucionárias da juventude. Mais de vinte anos após o desaparecimento da União Soviética, Finkielkraut descobre que, mesmo para os movimentos políticos mais radicais, o mundo hoje se tornou insuperável.

Através da identidade infeliz, há um desejo de preservar o que é bom nos séculos passados.  O autor está preocupado com o advento de uma Europa desencarnada, desprovida de qualquer origem cultural ou cristã, cuja única tradição seria não ter nenhuma. Culpabilizado pelo colonialismo, a Europa abandonou, entre outras coisas, seus ideais universais herdados do Iluminismo, deixando ao resto do mundo apenas o que o Finkielkraut chama de “romantismo para os outros”. Em troca da Europa e da França, nada resta senão "oikofobia", o ódio ao local de nascimento: doravante proibido falar do cristianismo. No geral, este livro exige uma defesa da escola, onde mais e mais professores devem sacrificar seus ensinamentos para não prejudicar uma classe cada vez mais refratária. A cultura geral construída ao longo de vários séculos desaparece em favor da experiência de hoje, os livros cedem às últimas tecnologias de ponta, a arte do pensamento, considerada muito aristocrática, sufoca o “senso comum”. Finkielkraut também está preocupado com a separação da França, que geraria o comunitarismo, por um lado, e uma nova forma de antissemitismo, por outro.

O livro é basicamente um emaranhado de pensamentos e estudo acerca do que se tornou a França com o passar dos anos e o reflexo e impacto causado pelos imigrantes que fizeram com que o país perdesse suas origens, sua identidade, sua luz — caracterizada, própria do Iluminismo —. Indicado para todos que quiserem aprofundar-se na história da França contemporânea. Recomendo também os livros — e o documentário no serviço de streaming Netflix — a história e vida de Emmanuel Macron, atual presidente da França, que saiu vitorioso com 66% dos votos sobre Marine Le Pen em maio de 2017.

O AUTOR

Alain Finkielkraut é um filósofo francês de origem polonesa. Finkielkraut é um antigo aluno da Escola Normal Superior de St. Cloud, onde entrou em 1969. Ensina cultura geral na Escola Politécnica.

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