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{CRÍTICA} Que horas ela volta?

sexta-feira, fevereiro 16, 2018

/ by Vitor Lima
Que horas ela volta? | Google Imagens |

Uma análise inteligente, profunda e muito bem elaborada acerca da desigualdade social no Brasil.

Escrito e dirigido por Anna Muylaert, o drama brasileiro desenvolvido no ano de 2015 narra os conflitos que ocorrem na vida de uma empregada doméstica e seus patrões de classe média. O roteiro do filme obteve uma recepção tão positiva por parte do público que o Ministério da Cultura optou em escolhe-lo para representar o Brasil na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro. Mesmo sendo um dos roteiros mais bem recebidos na época, o filme sequer chegou a ser indicado ao prêmio.

Em dezembro de 2015, a "National Board Of Rewiew" — uma organização norte-americana especialista em crítica cinematográfica — elegeu o filme como sendo um dos cinco melhores roteiros de cunho reflexivo social do ano de 2016. Subsequentemente, o filme acabou indo parar na lista dos cem melhores filmes brasileiros segundo a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).

O roteiro escrito pela Paulista Ana Muylaert narra à vida de Val (Regina Casé), uma mulher simples que decide sair de seu estado (Pernambuco) para obter condições favoráveis para criar sua filha Jéssica, que por um acaso, acaba ficando com a avó. Val parte em sua jornada rumo à cidade de São Paulo, e acaba trabalhando em uma casa de classe média para ajudar na criação de sua filha.

Após um período de aproximadamente dez anos, Jéssica liga para sua mãe e avisa que está indo para São Paulo tentar o vestibular em uma das mais conceituadas universidades (FAUP), no curso de sua vida: arquitetura. Só que por um acaso do destino, Jéssica acaba optando em cursar o mesmo curso que Fabinho — O filho que Val ajudou a criar desde que tinha três anos — e isso gerando um certo desconforto na residência.

O roteiro é muito bem elaborado, desenvolvido e escrito principalmente em sua fidelidade com relação aos fatos que se compromete a entregar: uma verdade nua e crua sobre a desigualdade social no Brasil. Na maior parte do tempo, nota-se que Val é vista como uma figura “muito amada”, “parte essencial da família”, “incrivelmente indispensável”, por seus patrões, porém, os mesmos não transparecem em atos suas palavras. É comum percebermos o quanto a protagonista sofre com seus patrões, mesmo sendo completamente fiel e presente. Tantos anos se foram, e ela ainda era apenas aquilo o que foi contratada para ser: uma serviçal. Val não tinha voz ativa, visibilidade, folga ou direitos, ela simplesmente não tinha o básico que o ser humano merece para viver: dignidade intacta.

Cartaz Oficial da obra de Anna Muylaert.
Em dado momento, Val se dirige para Jéssica e comenta a seguinte frase: “Você não vê que quando essa gente — Val percebe nitidamente que existe uma separação imensa entre ela e seus patrões oferece algo para comer, é por que eles têm a absoluta certeza de que diremos não? Eles oferecem por pura educação”.

Demora demasiadamente para que Val perceba que todos os preceitos, conceitos de vida e ideais estão trocados. Ela acaba entregando-se de corpo e alma ao trabalho, esquecendo-se até mesmo de si, e isso gera um desconforto muito grande no espectador, não somente pelo fato de que nossa protagonista não possui voz ativa na residência, mas por não possuir absolutamente nada. Porém, tudo começa a mudar quando sua filha Jéssica chega de Pernambuco para morar com sua mãe. A filha de Val simplesmente não se adapta ao ambiente de trabalho da mãe e nem a forma como a mesma é tratada no dia-a-dia, impondo-se severamente contra as ordens da mãe para “se colocar em seu devido lugar”.

A personagem Val possui características extremamente fortes. Ela é uma mulher forte, brava, guerreira e muito bem disciplinada em alguns aspectos, porém, ela também se mostra muito maleável, onde qualquer um consegue tirar proveito de seu carisma, porém, ela tem seu complemento indispensável — sua filha — que chega com novidades com relação à comportamento e estilo de vida, impondo-se contra todas as normas que regem aquela casa, principalmente aquelas que tiram os direitos de sua mãe possuir voz, visibilidade ou descanso.


A ausência de comunicação toma conta da família | Google Imagens
O mais interessante nisso tudo é a ausência de comunicação que existe entre a família da casa onde a protagonista trabalha. Todo o cenário é trabalhado minuciosamente para demonstrar a ausência do afeto maternal e paternal dentro daquela família. Uma família que não se comunica e permanece quase o tempo todo em um infinito particular, onde cada integrante possui seu espaço — e este, não deve ser invadido —.  A ausência de afeto e comunicação entre a família é o aspecto mais visível entre mãe e filho, quando Fabinho acaba deixando sua mãe de lado para apoiar-se no colo de Val.

O final do filme encerra todo o ciclo que iniciou-se por receios, medos e arrependimentos. Agora, não existem mais dúvidas sobre qual caminho seguir. Um roteiro incrivelmente doce, puro e simples. Apaixone-se, assista.

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