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[RESENHA #235] O psicopata – Um camaleão na sociedade atual, de Vicente Garrido

quinta-feira, abril 26, 2018

/ by Mariana Belize
VICENTE GARRIDO. O psicopata - um camaleão na sociedade atual. São Paulo, SP: Paulinas Editora, 2018. Terceira Edição. // R$35,60

Este livro contém um valioso acréscimo científico e um grande desafio social: esclarece importantes questões a respeito da gênese da psicopatia, denunciando a urgência de se tomar medidas para evitar a propagação desse transtorno patológico. Com estudos de casos reais, proporciona, à universitários e pesquisadores, um farto material de campo, coletado transversalmente a diversos segmentos da sociedade, o que favorece a perspectiva de diagnósticos mais precisos e amplia as possibilidades de tratamento. A interessada no assunto demonstra como a psicopatia pode estender-se para além dos crimes violentos e converter-se em uma forma de depredação mental sofisticada. O objetivo, segundo o autor, não é levar a “descobrir” psicopatas em toda parte e, sim, oferecer parâmetros para esclarecer quanto cada um de nós está contribuindo para promover uma cultura na qual esse transtorno encontra um campo propício. Porque é uma ameaça para todos, como indivíduos, e para o modelo de sociedade de sociedade que pretendemos legar a nossos filhos.

  
Um livro sobre tema tão complexo que é a psicopatia e que foi escrito originalmente em outro idioma, merece ter parabenizado, primeiramente o trabalho da tradução e manutenção da linguagem acessível ao público leitor, não apenas universitários/estudiosos, mas também oferecendo informação a pessoas leigas que, por outras questões, são levadas ao interesse pelo tema e, consequentemente, à leitura.

A obra não se pretende um dossiê, e isso é sim, importante dizer já que as informações sobre o tema também não são completas, nem se pretendem verdades absolutas. A complexidade do tema, seus desdobramentos, tipos e como se manifestam na vida interna e nos contextos social dos indivíduos é o grande dilema a que Vicente Garrido mergulha para tentar, não compreender de todo, o que é impossível, mas para que alertados possamos caminhar mais seguros ante à presença camaleônica destes seres no mundo, além de compreender a estrutura que os protege nas instituições e também na própria malha social, que é falha em unir verdadeiramente seus cidadãos e protegê-los dos perigos.

Ainda assim, a responsabilidade de Vicente Garrido está na exatidão de seus critérios e de seu senso de dever ao apontar que o livro não se destina a diagnósticos fugazes e leigos, mas aos possíveis estudos sobre os aspectos que constroem a estranha persona do psicopata, bem como seu habitat natural, para que nós, leigos ou não, compreendamos de que maneira facilitamos ou não, como sociedade, a presença e manutenção destes indivíduos em lugares de poder e acesso a nossas mentes, seja na família ou no trabalho ou etc.

Vicente Garrido demonstra também não só a complexidade do tema inserindo-o no contexto da Psicologia/Psiquiatria, mas também num outro ponto que é o da Cultura a que estamos vinculados por mal ou bem. Sendo assim, ele desnuda traços psicopatas a que estamos submetidos por ordem e força das regras sociais a que, submetidos, devemos seguir para sobreviver dentro de uma sociedade de facínoras e de regras tão absurdas quanto um conto de Kafka. Assim, teremos a tese fundamental do livro: a de que o psicopata nasce assim, mas as regras sociais, se justas e coesas, tratando a todos com igualdade e promovendo a justiça e concórdia, dificultaria o trabalho do psicopata, bem como a manutenção de suas atividades de manipulação e perfídia dentro da malha social. É o distanciamento e o egoísmo que permeiam as relações, bem como a indiferença pós-moderna, que facilitam, abrem espaço e dão ao psicopata o acesso de que ele, ou ela, necessitam para chegar aos seus fins. Assim o camaleão, termo utilizado para explicar o comportamento do psicopata, às vezes nem precisa se disfarçar. Está completamente em consonância com o cenário de sua época.
Um réptil encantador.

Vicente Garrido apresenta o contexto histórico dos estudos sobre os psicopatas, bem como as mudanças de terminologias, na psicologia e na psiquiatria, bem como a dificuldade de um tratamento justo e que resulte em cura para esses indivíduos. Assim como também apresenta o as constelações de traços na personalidade do psicopata, se valendo de exemplos reais, bem como aplicando uma abordagem não só psicológica, mas também sociológica pois critica a construção e o contexto social no qual não só o psicopata, mas todo nós estamos inseridos. Um contexto que fortalece os traços de indiferença e frieza nos indivíduos, exaltando as capacidades de distanciamento e egoísmo nos seres, abafando empatias e solidariedades. Lei da selva, capitalismo selvagem, neoliberalismo volátil e venenoso, que vivemos e respiramos todos os dias.

O autor também critica a forma como a cultura, seja pela literatura, seja pelo cinema, fez com que as características deste transtorno fossem envoltas numa aura de encantamento, magia e, mexendo com o desejo de quem está em contato com estas características, que se transforme pouco a pouco num ser cada vez mais parecido com esse absurdo, ainda que não seja um psicopata congênito. Mas fortalecendo traços narcisistas nos seres, a cultura favoreceu a que nós todos abandonássemos cada vez mais um desejo de auxílio mútuo e déssemos lugar em nós mesmos a todo um desejo de sobrevivência a qualquer custo, despejando sobre nossos inconscientes a ideia de que figuras como Hannibal Lecter e Patrick Bateman são encantadores, infatigáveis e instigando um glamour que, longe de os tornarem assustadores como são, na realidade, torna-os desejos de consumo e exemplo, espelho e modelo para formação de personalidade, ações e pensamentos.

O cinema não está isento das responsabilidades sobre suas criações, bem como a literatura e seus escritores também não estão. Vicente dá a cada um o peso da responsabilidade social de suas criações, seja a Camus, seja a Sade. Sem anacronismos, sem endeusamentos. Fatos sobre fatos, encará-los todos é mais do que necessário e urgente. Dedicando um capítulo aos crimes de guerra, Vicente Garrido nos apresenta a mais uma face do horror, do absurdo e da complexidade da “banalidade do mal”, termo de Hannah Arendt, a que seremos apresentados como também uma face do transtorno tema do livro. A partir das reflexões filosóficas de Arendt sobre Eichmann, Vicente desdobra não só o nazismo, mas em que medida medidas fascistas se mantém enraizadas em padrões de comportamento e pensamento inseridas na sociedade atual, como consequência do agravamento desse abismo entre os humanos e suas relações.

A partir daí, Vicente entrará na intituição base da sociedade, que á a família, marcando bem as personagens que vazão aos seus transtornos em âmbito privado, transformando a família em um verdadeiro inferno. Vicente, é importante destacar, marca bastante o gênero dos psicopatas neste caso, mantendo tanto no título quanto na escrita do texto a questão do homem psicopata atuando como “pai” e “marido”. Depois disso, trará à baila o assunto de “filhos”, também marcando o gênero. É preciso demonstrar que o assunto das “mães narcisistas” também tem vindo à tona com uma grande força e que os relatos de suas vítimas, as filhas e filhos de mães narcisistas, comovem e ressaltam a urgência de trazer cada vez mais não só o estudo e combate ao transtorno em homens, mas também desmistificar uma série de ideias com relação às mães, de que estas são perfeitamente amorosas e acessíveis aos filhos. Isso parte de uma crença social difundida não só pela Igreja, mas também pelo senso comum de que mães são dedicação exclusiva e que amam os filhos acima de tudo. É importante ressaltar que existem sim mães que odeiam seus filhos, que os maltratam e que, acima de tudo, obtém prazer e benefícios a partir destas ideias errôneas a que a sociedade defende. É preciso validar as vítimas de relacionamentos abusivos, não só com maridos e pais abusadores, narcisistas e psicopatas, mas também observar que mulheres podem ser tão ou mais cruéis do que seus pares masculinos. A psicopatia, bem como o narcisismo, não tem rosto. Sua dinâmica se divide apenas em captores e reféns, vítimas e algozes.

A partir da página 265, Vicente Garrido apresentará o ponto de vista da Igreja Católica a partir de diversos fatos ocorridos no mundo e no último capítulo teremos contato com o texto altamente esclarecedor da especialista em Psicopatologia Clínica e Psicologia da Delinquência, Juliana Teixeira, que em seu texto, nos trará atualizações da área sobre os casos do transtorno no Brasil, bem como traçará eixos diversos para estudo, não só histórico, mas também das perspectivas de gênero neste assunto.

SOBRE O AUTOR

Vicente Garrido é professor titular da Universidade de Valência, Espanha, grande incentivador do desenvolvimento da psicologia criminal e da pedagogia corretiva, além de autor de trabalhos científicos de ampla repercussão no âmbito da criminologia. Desenvolve programas de prevenção de condutas antissociais e promove tratamento de agressores implacáveis e sistemáticos. Este seu livro, na Espanha, é recorde de venda desde a primeira edição.

Mariana Belize
Projeto Literário Olho de Belize

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