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[RESENHA #244] Azul, por Marília Lima

quinta-feira, junho 28, 2018

/ by Vitor Lima
Foto: Divulgação/ Penalux

AZUL. LIMA, Marília. Guaratinguetá, SP: Penalux, 2018, 94p. ISBN 978-85-5833-343-6 // R$ 34


Na vida existe a ambiguidade, por um lado, as coisas mais simples e mais delicadas estendem-se à vista, no céu azul e aberto, na figura dos pássaros livres assoprando suas canções, no entanto, os passarinhos, figuras tão frágeis, perdem suas forças na impossibilidade de voar amplamente, sendo condenados pelas prisões das gaiolas e pela incapacidade de sustentação por seu corpo frágil e definhado.

            No mesmo sentido, os seres humanos são como pássaros, quanto mais livres e espontâneos, mais belos. Suas canções de felicidade conseguem encantar na simplicidade da sintonia entre natureza e humanidade, uma sincronia que existe quando o homem está assim, feliz e livre, no entanto, feito pássaro, a fugacidade da felicidade cede surrada para o pesado das frustrações, “Cortante como a rigidez / do cão morto na sarjeta, / o vizinho que / se suicidou”.

            A liberdade em co
ntraponto a prisão, são explanados no poema, no contraste entre a natureza magnética, quando o eu lírico, fica da sua janela, a contemplar o vento soprando a copa espessas das árvores, atitude observadora que lhe traz satisfação, e por outro lado, as prisões da humanidade surgem em versos com referências a mitos antigos, como o de Narciso, aquele que se encanta obsessivamente pela sua própria imagem.

            O “Azul” é infinitamente amplo, distante de uma forma incompreensível para o humano, no entanto é também sempre fixo acima da Terra. A obra reverencia e almeja esta coisa quase incognoscível chamada liberdade, mas a sobriedade de Marília Lima, a faz versar sobre a tristeza do fato das coisas mais incomensuráveis reterem-se nas pedras do caminho, “Mas a manhã estava fria / a calçada era de pedra, / sobre a pedra, teu corpo, os olhos fechados”.


Agora que a apresentação desta obra foi iniciada, tomo partido em apresentar um poema que coincidentemente casa-se muito bem com toda pluralidade exposta por Marília:

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
Mario Quintana


Marília Lima é o tipo de autora que trabalha com a noção do humano, da humanidade, do carnal, dos desejos e do que é passageiro. Em sua obra "Azul", a autora relembra-nos de toda fragilidade que toma conta de nosso ser. Utilizando-se genialmente de metáforas muito bem elaboradas, a autora conduz-nos à uma viagem de (re)conhecimento de nossas fraquezas por intermédio de sinais que nosso corpo e nossa vida dá, mas que ignoramos incansavelmente. 

A obra de Marília é como descreve Mario Quintana, o poema em si, é como um pássaro que alça voo. Após sua leitura, suas reflexões e suas indagações provocadas página por página, vagam sem rumo, sem destino certo, sem caminhos definidos, mas sempre se renovando de pessoa em pessoa, de experiência em experiência e de (re)conhecimentos que nos são necessários para continuarmos nossa caminhada. A obra é constituída por 94 páginas e 63 poemas, sendo cada qual, particularmente falando, cheio de vivências pessoais que me definem de ponto a ponto.

O livro narra uma busca incessante por satisfação pessoal e profissional (p.20), nossas incertezas (p.21), a solidão (p.31), rotina e exaustão (p.39)  nossos medos ao percebermos que tudo depende unicamente de nós e de nossos posicionamentos (p.43), nossas lágrima e aflições (p.48), nossa maturidade (p.50) e claro, a saudade (p.59).

E claro, como sempre deixarei aqui um poema que me tocou profundamente (mais que os outros), sendo este intitulado "Parece", confira:

Parece poema, mas é prece.
Parece poema,
mas é grito do que,
por não ser dito,
é assim dito: na página,
na linha e,
mais que isso,
na entrelinha.
E o poema,
Não parece,
mas é vida.
Não a da rotineira lida,
mas interna (eterna?)
 e, portanto,
mais vivida.
— p.72

A AUTORA
Marília Lima é  paulistana, licenciada em Letras pela PUCC (Pontifícia Universidade Católica de Campinas) e leciona Português para Estrangeiros. Participou de algumas antologias, entre elas: “Vento a Favor”, “Antologia Rio 2001” e “Painel Brasileiro de Novos Escritores 13 - Câmara Brasileira de Jovens Escritores”. Mantém a página “Chuva na Vidraça”no Facebook. E, sim, acredita totalmente na frase de Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida não basta”.

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