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[RESENHA #245] Remorsos para um cordeiro branco, de Reina María Rodrígues

quinta-feira, junho 28, 2018

/ by Vitor Lima
Foto: Tomo Literário | Divulgação

REMORSOS PARA UM CORDEIRO BRANCO. RODRÍGUEZ. Reina Maria Rodrigues, Guaratinguetá, SP: Penalux, 2018, 132p ISBN 978-85-5833-348-1 / R$35

Remorsos. Tudo o que nos resta ao vivermos uma vida com a qual não compactuamos ou desfrutamos ao máximo de nossas oportunidades, desejos, vontades e acasos, resultam em remorso. Remorso é a dor pelo sentimento que poderia ter sido. Pela tristeza por não ter sido feliz, pelo fracasso em não conseguir caminhar ou obter cem por cento de tudo aquilo o que se almejava. Remorso é o sentimento que fica quando tudo já se foi, é a música que toca no silêncio de nossa consciência quando paramos para refletir sobre o que seríamos ou onde estaríamos se nossos posicionamentos tivessem sido diferentes. O reconhecimento de que o agora é a intensificação, crescimento e reconhecimento de que o ontem foi e não é mais é apenas uma etapa para que cresçamos com nossos erros e arrependimentos. Remorso talvez seja um pouco de inquietação, quando não se sabe o que se busca, ou melhor, quando não se sabe onde buscar ou procurar. A busca incessante pela vontade de ser, ter, possuir e fazer é um sentimento constante, mas que por infelicidade, nunca anda só. Um sonho sempre anda de mãos dadas com uma frustração.

Talvez o contraste mais fiel ao remorso seja a figura de um cordeiro. O cordeiro, símbolo da pureza, da purificação, da paz, dos desejos concretos e abstratos limpos de qualquer dor ou arrependimento. O cordeiro é a parte essencial do remorso, pois se eu reconheço que sou um cordeiro e que tenho em mim todas as certezas e virtudes de que sou o que sou, é por que talvez no fundo eu seja apenas isso: o que sou, e não o que gostaria de ser ou o que eu poderia ter sido. E é exatamente nesta parte que o cordeiro se unifica ao remorso do ontem, de meia hora atrás ou até mesmo do amanhã, pois nos remoemos com incertezas e acasos que ainda não ocorreram.

Reina Maria Rodrigues trás em si uma essência fortíssima, tão forte como um abalo — em todos os sentidos possíveis — escrever sobre arrependimentos, vontades e desejos frustrados é um desafio que toca gerações, e que claro, nos rasga de dentro para fora. Todos nós possuímos incertezas e sonhos que não realizamos ou que gostaríamos de realizar. A leitura capilarizante do agora é intensificada pela figura do sentimento manifesto na forma de arrependimento, pois ninguém vive plenamente consciente e concreto do que se obteve ou do que se tem, nem mesmo um cordeirinho.

Este livro poderia ser facilmente dividido em três categorias: O reconhecimento, a dor e a contentação. Uma narrativa que busca introduzir em você o reconhecimento de que talvez, só talvez, outrora tivéssemos mais vida, mais sentimentos ou mais sonhos. Em dado momento, após introduzir em nós estas perguntas e incertezas que nos são geradas no peito em meio ao reconhecimento de nossa falibilidade, nasce à dor. A dor rasga tanto quando o reconhecimento, só que ela nos faz crescer e amadurecer de dentro para fora, e é assim que esta autora trabalha, cicatrizando. A terceira fase/etapa/parte/classificação desta obra é o reconhecimento de que o agora também possuí seus valores, de que o hoje possa vir a se tornar uma versão melhor do que foi (ou do que fomos) com todas as suas ressignificações.


Talvez o poema chave (além daquele que dá título a esta obra) seja “Dívidas”, que pode ser encontrado na página 11-12. Aqui, Reina fala-nos das infinitas dívidas que vamos colecionando ao caminhar e fluir de nossa vida. Como é complexo viver, todos os dias e a todo momento nos colecionamos dívidas que nunca poderão ser pagas (talvez, quem sabe) sobre as oportunidades que deixamos passar.


Uma leitura fantástica em todos os sentidos possíveis. A obra é o mais novo lançamento da autora através da Editora Penalux, e conta com 132 páginas e 59 poemas. Uma leitura hipnotizante, absolutamente complexa em diversos sentidos, pois ela mexerá com seu íntimo de uma forma incontestável no seu melhor ou pior estado, não importa, dentro de nós sempre há algo para ser lembrado e reconhecido, e talvez, esta escrita seja a chave que nos falta para compreender tudo o que sentimos, porém ignoramos. 

A AUTORA
Reina Maria Rodriguez nasceu em Havana em 1952. É formada em Licenciatura e Literatura Hispano-americana e em Museologia. Poeta e narradora, tem mais de vinte livros publicados. Foi traduzida em diversas línguas, como o inglês, o italiano, o francês, o alemão, o russo, o árabe, o vietnamita, entre outras. Deu cursos e palestras nos Estados Unidos e na Europa. Recebeu muitos prêmios importantes, entre eles o Casa de las Américas de 1984; o Prêmio Nacional de Cuba de 2013; o Pablo Neruda do Chile,em 2014. Vive em Havana, na cidade velha, próximo ao Malecón, bem perto do ma

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