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[ENTREVISTA #102] Beatriz Bajo, autora de “A face do fogo”

Mãe, professora, escritora e uma apreciadora das artes por natureza. Beatriz Bajo abre seu coração, e conta-nos a respeito de sua escrita, vida e inspirações.

quinta-feira, julho 19, 2018

/ by Vitor Lima
FOTO: DIVULGAÇÃO


Beatriz bajo,
(37), começou a escrever desde nova, enquanto moradora da cidade do Rio de Janeiro (RJ), onde descobriu-se uma poetisa e autora nata. Desde então, dedicou-se às artes, como a música, dança e escrita. Atualmente trabalha como professora de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira (UERJ) e Gestão Escolar (FCE-PR), sempre, claro, dedicando-se ao prazer das artes. E hoje compartilha conosco sobre sua trajetória como escritora, vida e prazeres.

1.                 A escrita sempre chega de uma forma inusitada e única na vida dos escritores. Como isto ocorreu com você? Em que momento de sua vida você percebeu que possuía dom e aptidão para escrita?

Lembro-me dos livros de poesia em casa, de uma antologia do Vinícius de Moraes e a perfeição dos sonetos era assombrosa para mim. Sempre escrevi rimas desde muito pequena, para meus pais...depois, na escola, para amigos e a fim de, na poesia, preencher a falta de musos e da voz feminina para dançar o amor. Assim fomos caminhando a poesia em mim e eu...participei de concursos, levei os poemas pra faculdade, fui incentivada por professores. Na pós, já me apresentava como poeta. Tomei para mim o que eu era.

2.               Quando surgiram seus primeiros manuscritos? Sempre teve em mente a ideia de tornar a escrita um campo profissional?

Aos 12/13 anos. Sempre tive em mente que era poeta, que era uma necessidade visceral escrever poemas para dissimular os sentimentos sob as imagens. A escrita de forma profissional era um sonho muito distante, mas muito querível. No entanto, sempre escrevi e escrevo no sentido não profissional, no campo do amadorismo. O significado de “profissional” soa mal para mim porque a poesia é o caminho à curiosidade, ao diletantismo e não de aprisionamentos e distâncias causadas pela mecanização com o fim lucrativo.

3.               ? Como surgem suas ideias e inspirações? O que move você?

Não há rotina nem exercício, infelizmente. Sou uma pessoa desorganizada, com filho pequeno e correria na vida. A única coisa que normalmente acontece é ter tempo para leituras e escritas do fim da noite para a madrugada, quando há noites e madrugadas livres.

Livro "A face do fogo", EDITORIAL [E]
4.                Levando em consideração todo cenário literário e sua escrita: quais são seus planos para o futuro?

Planos!? Não faço planos. A vida é um livro a ser lido e escrito e vou assim, observando tudo, sentindo ainda mais, registrando. Ser lida é um sonho também...O Outro é fascinante.

5.                Quando ocorreu seu primeiro contato com o universo dos livros? Algum livro ou autor te motivou iniciar seus próprios manuscritos?

A antologia do Vinícius de Moraes, foi muito marcante. Poemas da Cecília Meireles, de Drummond sempre... Mas, escrevia antes da leitura, posso assegurá-lo. Os livros são fundamentais para o mergulho neste mundo imagético das palavras, no entanto, as palavras são nossos instrumentos de pertencer ao mundo e interagir com ele. Tudo o que leio (ler também é ver, ouvir...) me motiva. Algos alavancam o processo, mesclados. Assim como estalos... De repente, ouço (leio, vejo, cheiro...) algo que me toca como se iluminasse por dentro do “pensamento/sentimento”... Assim, parto a escrever. Hoje, parece que o mundo todo já leu Clarice Lispector e, constranjo-me de mencioná-la porque tenho a impressão que seu entre lugar é Copacabana no verão, todo mundo já foi ou, ao menos, viu em fotos, mas “Água viva” ardeu minha pele e alma ao contato. Eu estava cursando a faculdade de Letras, um amigo me presenteou e acabei monografando sobre essa obra.

6.               Sempre esteve seguro do que queria? O que te desmotiva quando olha para o cenário literário atual? E o que te motiva?

Sempre. Queria o que tinha, nasci com essa falta. Ahh, é triste o poema ser menos importante do que o poeta, valer menos do que uma assinatura ou um nome. Todos os eventos, concursos, prêmios, do mais mequetrefe ao mais pomposo, todos servem para levantar a bola já levantada do jogador. Quem está no banco, fica pra sempre no banco. No entanto, isso é motivo para escrever também e permanecer entre.

7.                O que você faz quando surge uma ideia de escrita no meio do nada (no trem, ponto de ônibus, faculdade, fazendo compras e etc)?

Sempre carreguei caderno e caneta na bolsa. Hoje, tenho celular com Word e gravador de voz, que é muitíssimo prático. Depois, só transcrever!

8.               Quando você decidiu que iria profissionalizar sua escrita? Quais foram seus medos ao lançar seu primeiro livro? O que te motivou (e motiva) a continuar escrevendo?

Não decidi profissionalizar. Sempre decidi que queria ser lida. Nesse sentido, queria ser publicada por um editor que eu respeitasse. Assim se deu. Quando mandei meu primeiro livro, Vanderley Mendonça já tinha ouvido falar de mim, topou na hora. Eu não imaginei que seria tão simples, achei que levaria uma vida toda para ter um livro meu chegando pelo correio, todo lindão. Depois disso, descobri que publicar é algo muito fácil mesmo...o difícil é distribuir o livro, fazê-lo chegar até as pessoas. Ainda hoje não aprendi essa lição. Também nunca tive medo, hoje tenho muito mais. O senso crítico é mais intenso conforme o tempo passa. Hoje, arrependo-me de muitos versos, até de poemas... No entanto, era o que eu era. Não é o que sou. Isso basta para me conformar. O que me motiva é viver, estar aqui.

Beatriz Bajo, Ed. Patuá (2017)
9.               Pretende lançar uma nova obra dentro do mesmo gênero literário ou pretende explorar novos horizontes?

Gostaria muito de passear por outras formas (gêneros?) de escrita, mas, confesso, é muito difícil para mim. Sofro de abreviamentos intensos.

10.            O que mais te irrita na hora da escrita?

A falta de tempo para tal. O tempo está escasso para o silêncio e a solidão. Isso me irrita muito. Se bem que muitas vezes escrevi na multidão alvoroçada...acho que outro foco tem me exigido mais.

11.               De onde vêm os personagens? De alguma forma se relacionam com alguém que conhecem?

Mesmo os poemas possuem personagens, acredito. Também escrevi algumas prosas poéticas...essas, sobretudo. Sim, pessoas que conheço, que imagino ou eus desdobrados.

12.           Qual é a sensação de ir a uma loja e encontrar um livro vosso à venda?

Não me causa uma sensação inquietante. A seção de poesia é sempre escondida, se meu livro estiver lá, poucos verão, ou ninguém. Arrebatador mesmo é encontrar alguém lendo seu livro. Isso sim é extraordinário!

13.           Já conheceu/encontrou alguém que leu uma de suas obras? Como foi a experiência?


Já. Acho bárbaro! Sobretudo quando não entendem nada (é o que normalmente dizem: é bonito, mas complicado). Seria interessante ser simples...acho espantoso alguém simples e bom. Eu não sei fazer isso.

14.           Você elabora um roteiro para seguir e desenvolver a criação de seus cenários e personagens ou você simplesmente escreve e deixa fluir?

Segunda opção. Fluir com ritmo, fluir com suingue.
15.            Você considera primordial dedicar-se sem cessar na escrita de um livro? Você possui uma rotina de escrita?

Alguns livros foram intensos assim do início ao fim. Considero-os mais coesos, acho-os melhores que os demais. Não possuo rotina.

16.           Gosta de trabalhar em silêncio absoluto ou prefere ouvir música enquanto trabalha?

O silêncio absoluto é o de dentro. Esse considero fundamental para trabalhar com palavras. Do lado de fora, tanto faz.

17.            Como você se vê daqui a dez anos dentro do cenário literário?

Não tenho esse poder de projeção. Não consegui imaginar meu casamento, meu filho, minha casa. Tenho planos opacos neste sentido. Vejo com cores e sentimentos bons, sem formas. Sempre me enxergo EM e não COMO.
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A AUTORA
Autora do livro de poemas Sobre nossas línguas a carne das palavras (Patuá, 2017), BEATRIZ BAJO (São Paulo/SP, 1980). Poeta, diretora-geral da Rubra Cartoneira Editorial, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ). Seus livros são domingos em nós (Rubra Cartoneira Editorial: PR, 2012), : a palavra é (Atrito Art e Kan: PR, 2010) e a face do fogo (Annablume: SP, 2010). Traduziu os livros Respiración del laberinto, do poeta mexicano Mario Papasquiaro, pelo Coletivo Dulcinéia Catadora (2009) e uma novela, também mexicana, pela editora LetraSelvagem ainda não publicada. Esteve com um verso na mostra POESIA AGORA, do Museu de Língua Portuguesa (jun/dez 2015). Participa de antologias e revistas. Mantém o blogue Linda Graal (http://lindagraal.blogspot.com/). Morou por 17 anos no RJ e vive há 10 em Londrina-PR.

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