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[ENTREVISTA #106] Dois dedos de prosa com Fernando Andrade

Fernando Andrade conta-nos acerca de sua experiência com a escrita de seu livro “A perpetuação da espécie”. O livro foi lançado recentemente (19/07), e ao que tudo indica, as críticas alcançaram seus objetivos: A reflexão do sujeito acerca do “eu” e da supressão de uma vida vivida, e não externalizada de forma monótona.

quinta-feira, julho 26, 2018

/ by Vitor Lima
Foto: Acervo Pessoal | Fernando Andrade


Em sua obra “A perpetuação da espécie”, você traz a tona um olhar crítico sobre a fragilidade da vida. Sua escrita instiga o leitor a indagar-se sobre o automatismo social onde se está inserido, ao mesmo tempo, a obra faz referência ao que é rotineiro e padronizado na existência do humano.  Como você enxerga os valores e a existência humana?

Quis discutir os valores da existência humana, numa chave que muitos consideram quase uma norma atávica que é se perpetuar através de seus descendentes. Por isso tinha que passar por alguns conceitos como corpo biológico, como destino, livre-arbítrio, e principalmente identidade de gênero. Como através das escolhas nos construímos como pessoa física, afetando e sendo afetado, por meios sociais e pessoas. 

Como surgiu a ideia do título “A perpetuação da espécie”?

Um verso de um poema que praticamente junto com o poema Espécime fecha a primeira seção do livro. O poema chama-se Película. E dou um travelling cinematográfico no corpo humano. E no final num adendo irônico, último verso canta A perpetuação da espécie, logos depois do verso de cima “Não esquecendo dos genitais”. Além de ter fechado muito bem todo conceito do livro!

O livro foi lançado no dia 19/07, como foi à recepção do público com relação à sua escrita?

Foi ótima! Vendi 16 livros, e foram muitos amigos de coletivos do qual participo aqui no Rio de Janeiro. O espaço é ótimo, uma editora que funciona como bar no bairro do Flamengo.

Confira a resenha de "A perpetuação da espécie"

O “eu” é predominante em sua escrita. Sua poesia reflexiva leva-nos a pensar e discorrer sobre nossa existência, escolhas e atividade social. Poderíamos arriscar e dizer que sua obra é uma “crítica poética à civilização automatizada”. De que forma as pessoas podem viver uma vida plena, sem que haja uma padronização que tire o a emoção da vida?

Quis fazer uma espécie de odisseia de um homem contemporâneo, por isso era fundamental que os poemas fossem narrativos em seu cerne e também que ao aglutiná-los num livro, este conjunto de poemas pudessem ter um fio, uma urdidura que eles ficassem coesos quando lidos numa ordem editada. Muitos poemas são em 1 pessoa, fazendo deste homem uma ação em transcurso. Um homem exilado de sua vida, muito através de um cotidiano cinzento a automatizado. A natureza aparece muito em imagens durante o livro todo, mar, rio, árvores, flores. Para frisar uma natureza por baixo de uma civilidade ou civilização obtusa.     

Você acredita que viver uma vida monótona, leva outros indivíduos do nosso círculo social a se acostumarem com a ideia de que o padrão é aceitável, evitando assim, que ocorra uma mudança e quebra do ciclo de aceitação de uma vida vivida por instinto e não por momentos?

A vida é repetição, hábito, ação e reação. Até aí, tudo bem. Para muita gente é difícil levar uma vida criativa, inventiva. No decorrer da existência nos vemos presos dentro de uma rotina onde apertamos botões até como se estivéssemos numa fábrica, trabalho, família, impostos. A vida se tornou um tanto classificatória e o pior através de um ótica de gêneros. Produção e classificação, duas palavras que talvez eu faça uma breve sátira na perpetuação da espécie.

Quais são os autores que mais influenciam em sua escrita? Por quê?

Thomas Pynchon pela brincadeira com a própria língua. Italo Calvino, pela tentativa de clareza na especifidade da língua. 

Quanto tempo você leva para organizar um pensamento e transformá-lo em um poema?

Funciono muito por imagens ou palavras-chaves. Preciso encadear uma correnteza - ideia  para que coisa flua.

Sua escrita narra tempos tempestuosos da vida, gerando no leitor reflexões acerca de possíveis soluções ou simplesmente oferecendo-o a visão daquilo que muitas das vezes não enxergamos: a capacidade do corpo em se sobrepor a momentos de hostilidade extrema. Qual a principal mensagem desta obra? Ela é um adendo às pessoas que vivem o caos ou ela é apenas uma reflexão acerca do quão frágil a existência humana é?

Penso numa balada, quando releio o livro. Um espaço de cerceamento que os gêneros, o meio social nos priva, de sermos o que quisermos. No poema 34, que não nomeio descrevo com uma sutileza enorme uma relação afetiva entre duas mulheres. Tentei não situar espaço, tempo, nada que pudesse nomeá-las. Ao mesmo tempo aparece o que elas vestem calça (gênero masculino)? E uma saia. Aparecem livros gramaticais e uma coletânea de haicais. Queria o mínimo para localizar e descrever estas duas pessoas.

Pretende escrever novas obras dentro desta mesma temática?

Acho que não. Vou partir para a narrativa breve, contos, onde talvez mexa mais com a nossa língua portuguesa através de personagens desviantes e com uma linha poética forte.

E para finalizar, o que podemos esperar após o lançamento de “A perpetuação da espécie”?

Vida longa à perpetuação da espécie, rs. Quero trabalhar este livro em palestras, encontros com poetas, ser lido, trocar afetos com outros livros.

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