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[ENTREVISTA #101] Alice Vieira, autora de “Open Source”, conta detalhes de sua primeira publicação

Alice é a mais nova autora da Editora Penalux com sua obra “Open Source”, que deve estrear em novembro deste ano.

segunda-feira, julho 16, 2018

/ by Vitor Lima
FOTO: Alice Vieira | Divulgação

Nossa entrevista de hoje é com a mais nova autora da Editora Penalux. Alice Vieira Barros é mestre em Literatura Brasileira pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Alice desenvolve pesquisa na área de Literatura Comparada, investigando pontos de contato e divergência entre a literatura simbolista produzida no Brasil e na Rússia. Possui poemas publicados nas revistas Germina (2016) e Em Tese (2018). Atualmente está se dedicando à organização de sua primeira obra literária intitulada “Open Source”, o livro deverá compor o catálogo da Editora Penalux, ainda este ano.

A autora abre seu coração para nossa linha editorial e nos conta como estão suas expectativas com relação ao seu primeiro livro. Confira abaixo:


Como está sua expectativa com relação ao seu primeiro livro?


ALICE: Estou muito ansiosa. Muita coisa envolvida: um livro é uma unidade significativa. Pode ser que alguns poemas que a gente escreve individualmente sejam bons, mas, organizados dentro de um livro, formem um todo desconjuntado. Existe sempre um abismo entre as nossas expectativas enquanto poeta e aquilo que efetivamente conseguimos fazer.



De onde vem o título “Open Source”?



ALICE: O título esquisitíssimo {Open Source} apareceu durante um período em que eu estava estudando linguagens de programação de computadores. Um software em “open source” (ou em código-aberto) é um programa cujo código está integralmente disponível para qualquer pessoa que queira modificar, aprimorar e alterar. Eu quis brincar com o que essa ideia de “abertura” poderia significar para um livro de poesia contemporânea e para as polêmicas discussões sobre a questão da “autoria” hoje. De qualquer maneira, um livro de poemas não é como um software. Por isso, dar esse nome a um primeiro livro de versos acaba sugerindo uma espécie de ironia. O desejo de um livro “em aberto”, que existe apenas “em potência” e que só se realiza ao longo da experiência de leitura é bonito, mas, levado às últimas consequências, um pouco utópico. Poetas são vaidosos. Não se dão por vencidos com facilidade. O resultado é que o livro acaba sendo um combate entre “autor” e o “leitor”, ou, correndo o risco de estar dizendo bobagem, a clássica disputa entre o “poeta” e a “turba”.



O que os leitores podem esperar de sua escrita?

ALICE: Acho que não sou uma boa leitora de mim mesma, mas vou tentar. É difícil escrever coisas que “soem bem”, por isso eu me preocupo bastante com a dimensão sonora e sensorial da poesia. Nem sempre sou bem-sucedida nessa parte. Quando consigo, fico muito contente. E, é claro, não dá para dissociar esse trabalho formal do conteúdo do poema. No meu caso, é curioso porque às vezes toco em questões significativas para a lírica do final do século XIX. Não nego minha raiz simbolista. Mas tampouco posso escrever como um poeta finissecular, nenhum poeta pode fugir ao seu tempo. Então, de certo modo, o leitor pode esperar uma poesia preocupada em transmitir a forma pela qual, enquanto poeta, eu me relaciono com o meu tempo. Não uma relação de subserviência a esse tempo, nem uma recusa absoluta – o que seria de um reacionarismo pouco razoável. Talvez uma relação de combate. É isto: uma poesia em permanente luta com seu tempo, mas nunca extemporânea.

A escrita sempre chega de uma forma inusitada e única na vida dos escritores. Como isto ocorreu com você? Em que momento de sua vida você percebeu que possuía dom e aptidão para escrita?

ALICE: Eu não gosto muito de chamar de “dom”, porque passa a impressão de que existe algo quase místico que diferencia os escritores das outras pessoas. “Aptidão” me agrada mais, porque sugere “ter a capacidade de”, “estar apto para”, então é algo “em potência”, que pode ser desenvolvido, trabalhado. Não consigo dissociar a ideia de escrever de “trabalho árduo”, acho que os escritores precisam “burilar” e “lapidar” as coisas. Apesar de que isso soa meio ridículo e parnasiano hoje.
Agora, falando de um jeito mais irresponsável – e por isso mais interessante -, da escrita enquanto um acontecimento na vida, um desvio, uma contingência (?), então posso dizer que estou burilando e trabalhando um bocado desde os seis anos. Foi meio que natural pra mim. Comecei a escrever quando aprendi a ler. É claro que, quando eu era criança, parecia mais fácil. Muito mais fácil...

Quando surgiram seus primeiros manuscritos? Sempre teve em mente a ideia de tornar a escrita um campo profissional?

ALICE: Estou entulhando coisas desde sempre. Algumas eu guardo por memória afetiva mesmo. Como um livrinho bobo que escrevi quando era pré-adolescente. Mas não sou muito organizada.  Já perdi poemas importantes porque saio jogando as coisas pela casa.  Comecei a levar mais a sério isso de escrever há poucos anos. Com um pouco de medo, inclusive. Isso de ser “poeta” está um pouco démodé.

Você tem alguma rotina ou exercício que segue para elaborar uma escrita ou dar continuidade? Como surgem suas ideias e inspirações? O que move você?

ALICE: Eu não consigo escrever todos os dias. De todo modo, escrever poemas, para mim, está totalmente atrelado a experiências de leitura. Às vezes leio alguma coisa e me demoro muito numa palavra ou imagem. A coisa martela na minha cabeça num loop. Daí acabo trabalhando em cima disso, escrevo, escrevo, mudo. É um exercício de autocontrole: é preciso tomar cuidado para não se entusiasmar demais e perder a capacidade judicativa/crítica. Um poema nunca está pronto num “jorro”.
Também não quero passar a impressão de que só escrevo a partir de experiências de leitura, não sou um “esteta lunático”, embora às vezes pareça. Eu gosto do mundo e das pessoas. O tempo é de decadência, mas, felizmente, os deuses se apiedam dos poetas e nos mandam umas Musas decaídas...

 Levando em consideração todo cenário literário e sua escrita: quais são seus planos para o futuro?

ALICE:  Eu estaria sendo hipócrita se dissesse que não quero publicar e que não ligo para isso. Eu quero publicar livros. Eu quero que me leiam, óbvio. Mas tenho consciência das dificuldades do mercado editorial de poesia hoje. 
Tento ter algum senso de realidade: se existirem duas ou três pessoas verdadeiramente interessadas por poesia que queiram me ler, estou mais que satisfeita.

Quando ocorreu seu primeiro contato com o universo dos livros? Algum livro ou autor te motivou iniciar seus próprios manuscritos?

ALICE: Essa pergunta é engraçada: quando eu me tornei uma criança leitora, comecei pelas narrativas. Se eu não me engano, o primeiro livro que eu li foi do Monteiro Lobato. Também gostava de escutar fábulas e histórias de bichos. E tentava imitar construindo pequenas narrativas.
Acho que a coisa mudou radicalmente quando eu me tornei leitora de poemas. Eu morava no interior da Bahia numa cidadezinha em que não acontecia muita coisa. Então eu ficava lendo o dia inteiro. Talvez isso tenha me “estragado” um pouco porque eu gostava dos poetas românticos. Crescer e descobrir que eu não podia ser o Byron: uma experiência triste. Também me lembro da loucura extática que vivi na primeira vez em que li Baudelaire: acho que eu tinha 12 anos e a tradução era péssima. Mas, na época, parecia lindo.

Sempre esteve seguro do que queria? O que te desmotiva quando olha para o cenário literário atual? E o que te motiva?

ALICE:  Eu sempre soube que queria ser escritora. Em determinado momento da vida, precisei reconhecer – com muita tristeza – que era incapaz de escrever prosa. Eu gostaria de escrever romances. Mas não consigo.
Eu vejo o cenário literário atual (vou tentar me restringir ao Brasil) como um desafio, meio cruel até. Existem grandes editoras que publicam sempre os mesmos autores para um mesmo público. Fora as panelinhas literárias (geralmente misóginas) que existem até em pequenas editoras: homens que escrevem, homens que leem homens, homens que escrevem críticas apaixonadas para homens. É meio difícil ser poeta, mulher e lésbica. Não quero baratear a discussão sobre questões identitárias. Aliás, eu nem escrevo poesia militante (muito antes pelo contrário). É só que, às vezes, é simplesmente mais fácil para um homem heterossexual publicar e ter repercussão na esfera pública.
Não quero parecer pessimista. Nem acho que eu possa reclamar tanto. Consegui publicar em algumas revistas. Estou fechando contrato com a Penalux – uma editora séria e genuinamente interessada na divulgação de novos autores.  Nem tudo está perdido. Aliás, se um dia estiver, ainda assim tentarei publicar. Sou obstinada.

O que você faz quando surge uma ideia de escrita no meio do nada (no trem, ponto de ônibus, faculdade, fazendo compras e etc)?

ALICE: Geralmente fico construindo e modificando o poema mentalmente. Escrevo quando chego em casa. A parte ruim é que parece que ando 24 hs no mundo da lua.  Sou mesmo muito distraída. Não é por mal...

Quando você decidiu que iria profissionalizar sua escrita? Quais foram seus medos ao lançar seu primeiro livro? O que te motivou (e motiva) a continuar escrevendo?

ALICE:  Faz uns dois anos que eu penso em lançar um livro. Mas nunca tinha criado coragem de entrar em contato com uma editora. Meus amigos me motivaram a insistir nessa ideia. Se tudo der certo, mais para o final do ano lançarei meu primeiro livro. Os medos são múltiplos. Medo de não ser lida, medo do fracasso editorial – e, principalmente, medo de, daqui a 40 anos, estar arrependida e profundamente envergonhada. Mas é divertido correr esse risco.

Pretende lançar uma nova obra dentro do mesmo gênero literário ou pretende explorar novos horizontes?

ALICE: Como eu disse: fico triste por não conseguir escrever prosa.  Queria ser uma romancista séria. Ai de mim!  Só consigo escrever poemas.

 O que mais te irrita na hora da escrita?

ALICE: São tantas coisas.  Acho que uma das piores é o medo de se repetir. Nós corremos esse risco. Já me peguei escrevendo versos parecidos com outros versos que já escrevi.  Não podemos nos repetir assim nem enganar as pessoas que querem nos ler. Por isso que escrever é um trabalho um tanto quanto doloroso.  Eu não digo “repetir” tanto no sentido de usar os mesmos “temas”, mas sim as mesmas imagens, palavras.
A poeta Marina Tsvetáieva, num texto de crítica literária, divide os poetas em duas categorias: os poetas “com história” e os poetas “sem história”. Os dois têm suas, digamos, “vantagens”. Os poetas “sem história” são os poetas líricos por excelência. E sua maior virtude é, apesar de tocar nos mesmos temas, nunca serem monótonos ou repetitivos. Dar vida nova à linguagem ou “dizer o mesmo sem dizer o mesmo”.  É difícil.

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