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[RESENHA #249] Mais uma xícara de café, por Milton Rezende

sexta-feira, julho 06, 2018

/ by Vitor Lima
Foto: Penalux | Divulgação

MAIS UMA XÍCARA DE CAFÉ. REZENDE, Milton. Guaratinguetá, SP: Penalux, 2017, 200p ISB 978-85-5833-237-6/ R$ 36,00

Milton Rezende e sua capacidade prolífica em narrar, contar e esmiuçar o cotidiano e coloca-lo dentro de um contexto poético em forma de prosa. “Mais uma xícara de café”, é um dos livros marcantes que ficarão destacados na estante este ano, eu digo — e sem bafejo — que tive quase a plena certeza de que estava lendo uma espécie de diário escrito por mim. Isso se deu a partir do momento em que percebi que a proposta do autor era criar uma narrativa não linear, onde delinear o dia a dia era o foco, e deixa-lo atrativo, convidativo e pessoal era a chave para contextualizar-se dentro de cada encontro, acontecimento e página descrita.

Aqui, diferente do que se encontra em outros livros que carregam a mesma temática, o autor nos oferece uma visão ampla de seu cotidiano. Em narrativas leves, mas ao mesmo tempo carregadas de uma linguística forte e muito bem elaborada e estruturada, o autor cria uma linha do tempo capaz de transmitir reflexões no interlocutor, por meio de uma escrita que conta, narra e transmite acontecimentos que todos nós já tivemos: Um encontro inesperado com amigos, um café em uma tarde reflexiva sobre a existência e vida. Ah, claro, como eu poderia me esquecer de citar que esta é uma obra apaixonante? Não apenas no quesito de possuir uma escrita instigante, mas de realmente ser uma obra onde o amor é encontrado até mesmo nos pequenos detalhes. Nosso protagonista narra toda sua trajetória em primeira pessoa, contando-nos de suas frustrações amorosas e de seus sentimentos com relação a duas lindas moças: Paulina e Mildred. Cada uma com seu jeito peculiar de ser, porém, ambas completam de uma forma ou de outra o nosso locutor, que acaba sempre perguntando-se como isso se deu — Não o amor, ele sabe o que sente e o porque, só não sabe como sair deste mar de incertezas —.

Mas talvez eu fale alguma coisa ao final deste item, afinal, para o bem ou para o mal é o amor que nos impulsiona, que nos incita a segurar a peteca por um tempo maior ainda, esgotar as últimas energias, acreditar nas possibilidades remotas como se num passe de mágica fosse possível compartilhar uma felicidade que de tão escassa precisa ser somada, acrescentada de uma figura feminina (p.113)

Mas esta narrativa agridoce não conta apenas os pequenos detalhes das frustrações amorosas de nosso protagonista, narra também suas incertezas com relação ao passar dos dias, e claro, suas ânsias e desejos de que tudo terminasse bem. Realmente, uma narrativa que apresenta-nos um contexto forte onde o personagem possui incertezas, ama, chora, fica angustiado, magoado e entediado, faz-nos sentir em casa e de bem com nós mesmos.

“São 18:00 h e acabo de chegar do trabalho. Poucas vezes estive tão deprimido em minha vida. Não consigo controlar as lágrimas. Entrei em casa e fui logo devorando as xícaras de sempre. Há 16 dias, desde que voltei, a minha vida converteu-se em um tormento”. (p.137)

Aqui, vamos de encontro a alguém tão preocupado com seu sentimental, quanto com sua instabilidade financeira.  Nosso protagonista preocupa-se em conseguir, quem sabe um dia, viver apenas de seus manuscritos, amar e ser amado, e conseguir finalizar um dia sem nenhuma frustração.

“Quero ver se as xícaras de destilado amargo me estimulam a escrever. Sair desta letargia de muitos dias. Expectativas que não se cumprem e são permanentemente adiadas. Até quando? Navego num espelho de contradições. Não sei bem o que quero, nunca soube, mas sempre quero demasiado aquilo que, por não saber, talvez por isso me seja negado”. (p.146)

Talvez o maior aprendizado que possamos extrair deste livro seja: viva intensamente cada instante, ame sem arrependimentos, arrisque-se naquilo o que almeja e mude para que algo possa de fato acontecer. Sem mudanças, não há resultados diferentes, apenas ciclos viciosos. 

SOBRE O AUTOR
Milton Rezende nasceu em Ervália (MG), em 23 de setembro de 1962. Viveu em parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF. Funcionário público, atualmente reside em Varginha (MG). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de dez livros publicados: “O Acaso das Manhãs” (Edicon, 1986), “Areia (À Fragmentação da Pedra)”, (Scortecci, 1989), “De São Sebastião dos Aflitos a Ervália – Uma Introdução” (Templo, 2006), “Uma Escada que Deságua no Silêncio” (Multifoco, 2009), “A Sentinela em Fuga e Outras Ausências” (Multifoco, 2011), “Inventário de Sombras” (Multifoco, 2012), “O Jardim Simultâneo” (Penalux, 2013), “A Magia e a Arte dos Cemitérios” (Penalux, 2014), “Um Andarilho Dentro de Casa” (Penalux, 2017).

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