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[RESENHA #251] Versos de imprecação contra o mundo, por Clayton Souza & Witalo Lopes

"Versos de IMPRECAÇÃO contra o mundo", é uma obra poética reflexiva que possuí como foco o Brasil dos últimos anos.

sexta-feira, julho 06, 2018

/ by Vitor Lima
Foto: Divulgação

Versos de imprecação contra o mundo. SOUZA. Clayton de Souza. LOPES, Witalo. Guaratinguetá, SP: Penalux, 2018, p. 120 // R$36

SINOPSE

 O mundo em desalinho é o que conduz a pena nesta obra. Entre tantas procuras, entre o saudosismo que vem da passagem do tempo, entre a vivência em um país que passou por tanta história, diversificada e ao mesmo tempo, quase sempre complicada, país do ufanismo, país da ditadura da corrupção. Mundo de rotina, de tédio, de fantasias e utopias, é este universo que é exposto no livro, como se as páginas incitadoras de mudanças e movimentação internas, refletissem agora, não somente o abismo íntimo de cada ser, mas também a situação tangível e perceptível deste Planeta, do seu funcionamento e de seus esquemas, “Talvez preveja ser árduo o caminho como é o termo de tais imprecações desvelando-lhe um Mundo em desalinho”.
            Este mundo refletido pela poesia é o mesmo que permite a existência carregada de contradições, situações conflituosas que tumultuam o interno dos homens. Neste espaço abrangente, no qual a vida de milhares de pessoas acontece, desenrolando-se e ignorando as diferenças das particularidades de cada um, as paixões dos homens e seus desejos incessantes obstruem-se repetidamente em confrontos. Os relacionamentos de um ser com outro, guardam a única semelhança do compartilhamento daquilo que é universal, o gemido de dor frente as mazelas humanas, “O mundo é um mar turbulento onde, opostas, as vagas-paixões se colidem, incessantes, e nas estreitas horas da existência, um lamento coincide”.
                O livro que se reparte nos segmentos “O Mundo”, “Os Contornos de Eva”, “Cronos”, e “O Gigante”, compõe a jornada do eu-lírico, no entanto, de uma maneira geral todas estas divisões se ligam e se relacionam numa estrutura tão fluída e dinâmica, que as formas do verso assumem a narração, a prosa, o lirismo, os versos longos, os curtos. Toda esta variedade de organização textual têm o fim último de capturar a essência do trabalho poético, que multifacetado e flexível consegue, por isto captar as nuances do mundo e assim expressá-las.     A poesia que escolhe o mundo como substrato para a produção de palavras, procura no externo o entendimento do interno, tentando dividir e organizar as impressões sensíveis, para assim descobrir o que de fato sustenta e compõe o íntimo do homens comum, e também entender, até que ponto, as diferenças entre os homens suprime-se pela universidade dos sentimentos humanos, semelhantes a todos, “Não somos parte senão de nós mesmos, e o que procuramos é nada além de um reflexo”.

RESENHA

"Versos de IMPRECAÇÃO contra o mundo", é uma obra poética reflexiva escrita pelo escritor e crítico literário Clayton de Souza em parceria com o pedagogo e poeta Witalo Lopes. Imprecação é um termo ambíguo que pode ser utilizado para expressar de forma clara e objetiva uma súplica ou um desejo de que algo de mal aconteça.

Esta não é uma obra qualquer, em nenhum aspecto. É comum notarmos obras literárias que criticam de forma aberta o estado, as pessoas, os sentimentos e a realidade, mas nunca de uma forma singela e esmagadora como nesta obra. Souza & Lopes criam uma linha tenue de pensamentos que contrastam o início, meio e fim de seu manuscrito, desenhando ideias e sentimentos acerca das questões exienciais que formulam a vida de um ser, dentre eles pode-se destacar claramente a solidão, a insatisfação, o engano, a raiva e o sentimento constante de mudança. O livro é sabiamente dividido em quatro titulações, sendo elas: o mundo, nos contornos de Eva, cronos e “O gigante”. Como se pode notar pelo nome das sessões, os autores criaram contornos sublimes que desenham suas insatisfações acerca do mundo, reflexões acerca de temas contemporâneos do universo feminino, “cronos” como sendo o capítulo responsável por narrar a insatisfação do ser humano com relação as suas realizações e “O gigante”, que nos remete aos tempos de #OGiganteAcordou, onde os autores trazem a tona os temas mais polêmicos e reflexivos acerca dos acontecimentos que marcaram o Brasil nos últimos anos, uma retrospectiva poética. A escrita adotada pelos autores é de estruturalismo poético livre, ou seja, não há comprometimento com tercetos, quartetos ou qualquer regra que estimule a hierarquização das linhas em um poema. Ao percorrer os olhos em uma leitura silenciosa, observa-se que temas voltados para injustiça, violência e desvalorização do sentimento humano, são constantes. Não há qualquer linha que seja vaga ou sem compromisso com um tema contemporâneo, todas as narrativas adotadas para esta obra se voltam para uma problemática social. E claro que antes de finalizar irei deixar o poema que mais gostei em todo o livro. Leia, releia, leia novamente e releia novamente e quantas outras vezes quiser, só não faça este exercício de consciência de forma vaga, permita-se pensar, refletir e viajar por questões tão presentes em nosso meio.  


As lágrimas de sangue emergirão
(vidas bastardas de uma semi-vida),
E em seu curso p’la face ressequida
Sonhos imergem, se esvaindo ao chão.

Meros sonhos, e sonhos são,
Mas nessa íntima pena despedida
De face, grita a essência reprimida
Que homens não sabem...nunca saberão.

Elegia vazia da existência;
Há um punhal por trás de idealizações,
Vida pulsante além das aparências.

Entre maiores, jazem ilusões
E a seca face rubra, em desistência,
Caminha co’os homens, só, entre milhões...
 — IDEALIZAÇÃO p. 24

Este livro é aquilo o que o grande sociólogo polonês Zygmunt Bauman advertiu em seu livro “44 cartas ao mundo líquido”, onde o autor substitui o termo “pós-modernidade” por “liquido”, onde o mundo tornou-se claramente e evidentemente liquido, onde os valores, os ideais e os sonhos se perdem muito rapidamente, onde a ética desaparece em uma fração de instantes, e, sobretudo, onde o “eu” toma conta daquilo o que deveria ser “nós”. Então, pode-se concluir que este livro é quase um estudo sociológico, onde todo seu escrito está de uma forma ou outra ligada a existência humana e a experiência do social.

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