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[RESENHA #252] A perpetuação da espécie, por Fernando Andrade

sexta-feira, julho 06, 2018

/ by Vitor Lima
Foto: Penalux | Divulgação

A PERPETUAÇÃO DA ESPÉCIE. ANDRADE, Fernando. Penalux: Guaratinguetá; SP: 2018, 68p. ISBN 978-85-5833-385-6 / R$34

SINOPSE


 “A perpetuação da espécie” parece significar padronização, frivolidade, animalidade, e do contrário pouca utopia, otimismo, no entanto, as questões trazidas por questionamentos que se originam do mais âmago das incertezas humanas, trazem profunda reflexão.
            Na abertura da obra o autor traz uma proposta, um desafio para o leitor de que ele concentre o seu olhar em questões que atualmente são desprezadas devido a se sombrearem no automatismo do cotidiano. Se o pensar for intenso, a observação das manias e padronizações de estilos de vida serão associadas a uma dor primeira e universal, o viver sofrido, pungido, desperdiçado em estilos de existência condenados a vontade de sobrevivência.
            Esse marasmo do viver tem algo de assassino, pois em sua maioria é experimentado pelas pessoas distanciadamente, sem emoção, sem o aproveitamento dos prazeres e da felicidade, neste sentido a própria vida se torna somente um acaso mantido pelo instinto da espécie. O autor enquadra a vida no filme fotográfico de “uma câmera mortuária”, o filme das fotografias revela o movimento da existência monótona, tumultuada nas trilhas de trens que conduzem “humanos fugidos de guerras Persas”.
            Feito atavismos, a perpetuação da espécie é uma lei, uma conduta seguida por gerações que transmitem os mesmos valores de: brevidade, de sequestro, de roubo, de fugacidade. Não há espaço e oportunidade para se olhar a vida nos seus fenômenos mais universais, “por que o sol nasce às seis?”. Não importa, seria até mesmo irônico querer filosofar e refletir quando as condutas dos homens revelam tanta frivolidade em relação a tudo o que os rondeia, casa, poltronas, esposa, família.

RESENHA

          Fernando Andrade expressa à pluralidade de toda uma vida em cinco cantos que ressignificam a existência do eu. Não existe uma receita de vida a ser vivida, mas a receita daquilo o que se foi vivido (bom ou ruim) está pronta, e você pode ou não querer dar continuidade ou segmentação aos fatos ou simplesmente encerra-los, a vida nos dá oportunidades de melhorar situações, nunca de mudá-las, por que o ato da mudança é sempre feito em primeira pessoa, sou sempre eu o indivíduo responsável pelas mudanças que quero alcançar em minha vida, sou sempre o responsável pelos caminhos que tomo e pelos atalhos que pego, e claro, também sou o protagonista e o coadjuvante de todo meu sucesso (ou fracasso) ainda que eu tenha recebido ajuda ou incentivo, ainda sim, sou eu.
Esta obra está elaborada e dividida sabiamente em cinco partes, cada qual com sua importância. O detalhe que importa está nas entrelinhas, está na capa, está no prólogo e até mesmo (sobretudo) nos sentimentos do leitor que navega por estas páginas tempestuosas. Uma obra que recorre a todas as etapas nas quais somos submetidos, a primeira, narra toda experiência de vida vivida no ato de nossa existência (prole p.14) e das experiências que acumulamos de acordo com o desenvolvimento. Neste primeiro capítulo são abordadas questões sociológicas, racionais e emocionais voltadas para a existência e para vivência que cada indivíduo coleciona com o fluir da vida.

Sou ou não sou a minha sombra?
 Estou ou não dentro deste filme?
 Qual?
É minha quarta parede, e onde acho a saída?
— /2 caixa

A segunda divisão desta obra retrata uma tragédia da qual não irei falar. Esta é a parte mais breve da obra e por este motivo não será analisada minuciosamente, porém, deixarei um trecho para que haja uma profunda reflexão:

Perdeu pequeno
Dos dedos, sobrou gestos.
 Cresceu perto
 Do que pode ser a próxima.
Revelou a casa
 E a máxima
Aproximação, contigo.
 Cresceu, usou a caça e o vinho,
Subiu em árvores
 Flores, acolheu.
                                                Dos dedos, sobrou os gestos.      
— infância p.32

A terceira parte ganhou uma titulação que nos causa inquietação “Lembranças”.
O tempo é fala o tempo é folha

O templo do sono, árvores idôneas.
Sai deste castelo cavalo lustroso
E diz que as palavras que te dou: anarquizam.
Lira revira o canto
Atravessa o avesso da folia
De um arlequim triste.
— p.38

A quarta parte desta obra recorda imagens, momentos, sentimentos de outrora. (p. 44)


Parte da louça
Virou vidraça.
Uma parte só aqueceu
A outra, quebrou silenciosa.
A que sobrou viciou-se em analgésicos.
A parte que partiu uma carta destinou-se,
A outra feriu-se na despedida.
Cacos, e silêncios se ouviram...
E por falar em solavancos físicos.

E a quinta divisão desta obra retrata uma espécie de "despedida":

Nunca nos movemos
De uma morte
Agora nós temos é
Muita sorte
Alguma vez Vimos a que porte
Chega o que queremos.
— p.56


Confesso que quando recebi este livro em mãos eu não tinha ideia do que tinha por vir. Geralmente quando lemos um número superior à cinco de obras por semana, acostumamo-nos a acreditar que livros com poucas páginas parecem-nos mais breves e mais fáceis de serem finalizados, quando na verdade ao fazermos este julgamento estamos tirando a credibilidade - de certa forma - de um gênero que exige uma profunda reflexão e amadurecimento psíquico e sentimental: O poema. Ler uma obra que retrata uma tragédia ou a vida como sendo nunca é uma tarefa fácil. É sempre mais fácil para o leitor agarrar-se à suas esperanças de que o conto de fadas é mais divertido e simples de se encarar, mas existem linhas que nos rasgam e nos dilaceram de uma forma com a qual nós não estamos habituados — ou simplesmente não esperamos.

SOBRE O AUTOR
Fernando Andrade, 50 anos, é jornalista, poeta, e crítico de literatura. Faz parte do Coletivo de Arte Caneta Lente e Pincel. Participa também do coletivo Clube de leitura onde tem dois contos em coletâneas: Quadris no volume 3 e Canteiro no volume 4 do Clube da leitura. Colaborador no Portal Ambrosia realizando entrevistas com escritores e escrevendo resenhas de livros. Tem dois livros de poesia pela editora Oito e Meio, Lacan Por Câmeras Cinematográficas e Poemoemetria , e Enclave ( poemas) pela Editora Patuá. Seu poema "A cidade é um corpo" participou da exposição Poesia agora em Salvador e no Rio de Janeiro.

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