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[RESENHA #254] Jaha ñade ñañombovy’a, por Marcelo Ariel

segunda-feira, julho 09, 2018

/ by Vitor Lima
Foto: Penalux | Divulgação


Jaha ñade ñañombovy’a. ARIEL, Marcelo. Guaratinguetá, SP: Penalux. 2018, 160p // R$ 38

SINOPSE

Falar de morte faz tremor, traz medo, no entanto, Marcelo Ariel não vacila frente a tendência a adensar-se por tal tema, fazendo-o de maneira provocativa, lançando a pergunta ao leitor: “Você está preparado para morrer?”. O autor esclarece dilemas humanos, viver é bambear-se entre a realidade e o sonho, quando o corpo, presente, manipulável e tangível, guarda nas suas entranhas a pergunta estarrecedora? O ser humano está ou não preparado para morrer. A morte, na poesia de Ariel, anda de braços dados com o sonho, a ausência e o silêncio da mente quando ela se despoja dos pensamentos está em consoante ao transe experimentado nos sonhos, o poeta afirma ainda, que existem diferente tipos de consciência, algumas, talvez a mais preponderante delas é aquela que está continuamente aprisionada nos pensamentos. Encarada por Ariel como condição bruta, a realidade da mente dos brasileiros, e dos humanos espalhados ao redor do mundo, é a fatalidade de um povo que vive em formigueiro humano, com todos imersos na barbárie da violência e da alienação. A poesia do autor é sincera quando levanta questionamentos acerca do estilo de vida moderno, configurando um primeiro passo para desvencilhar de tal situação demasiadamente doentia de viver sem viver realmente, apenas para cumprir as cotas de obrigações sem sentido.

RESENHA

Viver é um extraordinariamente extraordinário. Marcelo Ariel traz em sua poesia uma carga reflexiva imune de devaneios e utopias, aqui, cá entre nós, só resta à verdade. Esta é uma obra poética reflexiva, um dos vários lançamentos a integrar o catálogo da editora Penalux neste ano de 2018. Esperamos que nossa análise/resenha/crítica acerca desta obra impulsione nossos leitores e fãs da poesia contemporânea a navegar por estas águas.

O título desta obra casou-se bem com a imagem escolhida para compor a arte da capa. Nota-se o cuidado do autor para com a realização deste icônico projeto. A titulação não poderia ter sido melhor “Jaha ñade ñañombovy’a”, é um termo em tupi-guarani que significa “vamos nos maravilhar”, o nome acompanha uma arte infinitamente peculiar e muito descritiva se levarmos em consideração todo apanhado poético construído em todas as 160 páginas escritas pelo autor. Esta obra fala de libertação. A vida é uma jaula que nos prende, e o pássaro é o símbolo maior desta liberdade da qual gostaríamos de ter, e adotando uma linguagem metafórica, o autor, leva-nos a indagações acerca da existência e do ser humano. Será que somos de fato livres? Será que podemos nos maravilhar com mais alguma coisa neste universo tão vasto que é o planeta e as descobertas que surgem de nós para o mundo? O que nos move? Enquanto fazemos estas perguntas apenas baseados na arte da capa e na titulação, o autor convida-nos a responder uma questão intrigante, forte — a qual todos nós evitamos responder— Você, está preparado para morrer?  A vida tem muitos sentidos, mas a morte tem um único sentido, ou talvez não, e esta obra tem esta finalidade: mostrar-nos o caminho acerca da existência. Talvez nós só passemos a vida ignorando-a da forma com a qual melhor nos convém, através de um bom livro, da literatura e da arte vívida que a poesia nos traz, como disse, certa vez, Fernando Pessoa: “A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida”.

ENTUSIASMO é a condição inicial da riqueza ontológica,
É o dentro dentro do dentro ou o próprio entre
Timorístico a primeira coisa que notei foi o olhar de
Alheamento dos brasileiros, caminhando como se não existissem no presente.
SLOTERDIJK p.26

A segunda parte desta obra me estilhaça, confesso. Aparentemente tudo o que foi dito na primeira parte desta obra é construído reflexivamente em uma base idealista de vida, carregada de proposições.
Os movimentos respiratórios e os movimentos
Dialógicos são os únicos que importam
Temos muitos eus e muitas almas nômades,
Impessoal, inominável e sem forma.
p.61

ainda não foram escritos livros de autoajuda suficientes para me ajudar a engolir estas palavras, ainda não consigo me encontrar aceitando-as todas de uma só vez. Eu realmente gostaria, não como blogueiro, nem como leitor, mas como pessoa de conseguir processar absolutamente todas as palavras e reflexões que me são apresentadas. Gostaria — ah, como gostaria — que houvesse um tutorial de como não sofrer lendo sobre a liberdade expressa nesta obra, ou sobre como o desejo de tê-la se personifica e se apresenta visceralmente a cada linha lida. Existe um delineado que não possui forma na capa, existe uma nuance que não nos é apresentada a primeira vista, mas só a primeira vista, afinal, tudo toda forma nesta belíssima narrativa.

O recurso metafórico utilizado pelo autor em sua escrita é algo que me fascina da capa a contracapa.  O que dizer da página seguinte e de todos os aforismos que nos são apresentados? Ou seriam sonhos? O que dizer das expectativas elucidativas que possuímos acerca das certezas que pensamos ter?  WOW. Um livro que dispensa apresentações, ele fala por si só.


As misérias crescem em todas as direções até atingir a riqueza, retirando dela qualquer grandeza, convertendo o ouro em crueldade e alheamento o tempo é uma sombra do espaço.

Deixemos que esta narrativa fale por si:

A consciência começa na insônia, disse a história.

O estranhamento é uma porta aberta par ao entranhamento

“Narcisismo , narcolepsia e narcotráfico podem ser abreviadas por estas 4 letras: narc"

Quando acaba a projeção, começa a vida

O vento irá dissolver o evento, no lugar do eu, um oceano.

Ingovernável como um dente de leão no vento

O eu é uma porta que só abre por fora

Pode-se resumir esta obra com um termo utilizado em um livro belíssimo escrito pelo inglês Aldous Huxley “Admirável mundo novo”, afinal, esta poesia é tudo o que o mundo contemporâneo almeja encontrar: respostas. Um misto de bailas, sonetos, gritos, voos livres, danças e metáforas aforísticas.

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