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[RESENHA #255] O abraço dos cegos, por Chico Lopes

segunda-feira, julho 09, 2018

/ by Vitor Lima
Foto: Penalux | Divulgação


O abraço dos cegos. LOPES, Chico. Guaratinguetá, SP: Penalux, 2018. 122p. / / R$ 38

SINOPSE

Chico fala belamente da solidão em suas crônicas-contos. Nesta obra, o corriqueiro das relações, a sina da vida, os planos, da existência não aparecem utopicamente por sobre frases impactantes, marcantes, cheias de epifania, mas sim, com sobriedade transbordante, de alguém que retira as cortinas da esperança ingênua, para sobriamente escrever, pincelar, refletir, sobre a condição humana, sobre o destino nem sempre desejado, e principalmente expor a os rastros de desolação fincados pela percepção sensível em relação a vida.
            As relações sociais são descritas na obra, como incompletas, sempre vacilantes pelos limites psicológicos, das insatisfações individuais, das dores psicológicas de cada um, condições existenciais que engessam a fluidez e naturalidade necessárias para a comunhão de uns com os outros. A solidão é apontada como verme a roer o âmago do coração, pois, é na própria constatação do isolamento, na incapacidade de encontrar aconchego em uma total identificação com o outro, que se erguem as paredes duras, cheias de cal deste retiro sentimental, que estorva os relacionamentos.
            Com a bagagem cultural de Chico, os nomes de grandes escritores como Proust e Virgínia Woof são resgatados pelo contexto temático, uma vez que estes intelectuais fomentaram uma intensa reflexão acerca da própria existência, com toda a sua dose de voracidade em decorrência da intensidade dos sentimentos experimentados no decorrer da vida, tristeza,  amor, melancolia.
            Deste modo, a crônica é construída de uma maneira nem tão usual, não culminada para o fim de uma conclusão poética, mas sim, feita para trabalhar maneiras de se lidar com as emoções do viver, mostrando que o cotidiano adulto, é em sua maioria um espaço-tempo de grandes dilemas e desafios.

RESENHA
O abraço dos cegos é um livro de crônicas escrito pelo paulista Chico Lopes, lançado este ano para compor o catálogo da Editora Penalux. O título é uma referência ao “abraço” que nós somos submetidos ao nos sentirmos sós.
Esta resenha poderia ser mais objetiva, mas eu não conseguiria falar desta obra se não tivesse meu próprio estilo de escrita e minha maneira de dizer. Ao ler esta obra eu consegui me encontrar de novo, consegui entender os diversos “porquês” que ecoavam em minha mente, e talvez agora eu consiga controlar minha inquietude acerca de determinados assuntos. Gostaria de iniciar esta escrita com um trecho do segundo conto desta obra —“O abraço dos cegos” —, que diz o seguinte:


Olhar para fora, à procura de um sinal que nos liberte de nós mesmos, às vezes é olhar para o mais opaco dos muros. Sim, existe uma clausura, um limite de chumbo imposto às intenções de sairmos de nós. Mas tão forte quanto a clausura é o desejo de fugir dela. Esta urgência de libertação só passa despercebida aos outros porque todos nós sofremos um treinamento social ininterrupto para ignorar-nos mutuamente com cuidado e cumprimo-lo à risca, pagando muito caro em solidão por isso.

Agora que observaram bem este trecho, convido-os a ler este:

Maturidade é talvez percepção de que a vida está se encurtando e de que tudo o que antes era prodigalidade, desperdício, leviandade de forças, agora deve ser recuperado com a densidade da síntese. Pois a síntese é a necessidade de se organizar a vida vária, dispersiva, ociosa, numa direção ainda mal definida (parece que o alvo de qualquer coisa jamais ficará claro) e numa ordem nova, capaz de unificar os fantasmas difusos do desejo. A síntese é uma luta contra o tempo e um tributo à densidade do momento. A síntese é a esperança resumida num gesto. Único, vigoroso, abrangente.

Estes dois trechos nos dão os caminhos necessários para compreender a mensagem implícita na capa, na arte, no título e nas linhas desenhadas por Chico. A poesia que delineia suas palavras em meio aos contos e crônicas toma conta de todo cenário. É necessário abrir os olhos para compreender de que o tempo passa, e cada vez que ele passa a solidão toma ainda mais conta de espaço do que no momento anterior. E ai talvez esteja o significado do “cego”, ele pode remeter às pessoas que desperdiçam duas vidas e não tomam proveito daquilo o que devem no momento oportuno e deixam o tempo passar. “O abraço dos cegos”, é o sentimento de vazio que fica quando tudo se vai, é o desabafo de quem não viveu a vida, apenas assistiu ela passar.  

Um livro que fala abertamente da experiência do viver, da vida que deixamos passar e dos momentos que deixamos de aproveitar.

O fato é que, envelhecendo, passamos a frequentar mais certos espaços e situações do passado do que viver no presente, ou este se tinge de anacronismos de tal modo que já não sabemos, caminhando em algumas partes, se estamos ali ou nalgum outro lugar muito remoto, sensações contraditórias e outrora. O grande tempo vivido nos roubou o frescor e a inocência, mas nos tornou inflados de coisas a contar, a explicar, a compartilhar, e naturalmente nos deixa mais lentos, mais reflexivos.

Acho que este livro é um dos poucos que qualquer pessoa, de qualquer idade poderá ler e se identificar. Nós sempre estamos em busca de um ideal e quase sempre vazios.


A obra possui 29 contos (e crônicas) no total, porém, o conto chave que dá vida a todas as outras obras está localizado na página 13, nela Chico argumenta que nós estamos sempre em busca de um sinal que nos liberte de nós mesmos, de nossa condição, porém, sair deste estado significa esbarrar no empecilho, naquilo o que nos impede: nosso caráter construtivista social. Somos programados à ignorar-nos mutuamente, mesmo que de forma desapercebida, e a solidão é o preço desta busca incessante por liberdade. E quando nós estamos imersos nesta solidão decadente, além de não percebermos, não conseguimos sair, afinal, não há saída pelos fundos e não existe alternativas, afinal, a única coisa que podemos fazer (ou querer) é saltar para “outro”, porém, sair da zona de conforto da solidão é algo impregnado que nos impede, tornando-se algo extremamente desejado e ao mesmo tempo, evitado. E o que encontraremos fora destas tateações unilaterais em que vivemos? Deixemos que o próprio autor conduza:

Um dia tatearemos não pedra, espinho e pó, mas algo finalmente humano: um rosto. Aos poucos, roçando-o, arranhando-o, apalpando-o na obscuridade, movidos mais pelo antigo desejo do que por qualquer certeza, adivinharemos: é o rosto de outro cego. E o que ele fará, por seu lado, também será apalpar-nos, roçar-nos, arranhar-nos, adivinhar-nos. Assim, exaustos e reconhecidos, rosto a rosto, acabaremos abraçados. Não curados da cegueira, mas finalmente redimidos por outra espécie, totalmente imprevisível, de visão.

Eu não tenho palavras de como prosseguir ou do que dizer a mais, existem obras que tiram totalmente nosso fôlego e nossa capacidade de expressão, e esta, é uma delas. O abraço dos cegos é um emaranhado de questões voltadas para existência, realização pessoal e busca pelo encontro de si próprio. Talvez esta obra seja tão filosófica quanto poética, é realmente algo palpável e próximo de nossa realidade. Chico consegue descrever minuciosamente os desejos que possuímos acerca da vida e dos sentimentos, tudo isso poeticamente.


O AUTOR
Chico Lopes nasceu em Novo Horizonte, SP, em 1952, está radicado em Poços de Caldas desde 1992. Em Poços, é programador e apresentador de filmes do Cinevideoclube do Instituto Moreira Salles desde 1994. Tem vários livros inéditos de ensaios sobre filmes e literatura, além de ter publicado três livros de contos: “Nó de sombras” (2000), “Dobras da noite” (2004) e “Hóspedes do vento” (2010). Em 2011, publicou a novela “O estranho no corredor”, pela editora 34. Em 2012, publicou seu primeiro livro de memórias, “A herança e a procura” (editora Ler, Brasília). Tem inéditos um romance e ensaios. E-mail: franciscocarlosl@yahoo.com.br

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