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[RESENHA #260] Cantigas de ninar dragões, de Rogério Bernardes

quarta-feira, julho 25, 2018

/ by Vitor Lima
Foto: Divulgação

Cantigas de ninar dragões. BERNARDES, Rogério Viana. Guaratinguetá, SP: Penalux: 2017, 160p ISBN 978-85-5833-xxx-xx // R$ 37

SINOPSE

Os Dragões, metáforas das angústias, das dores silenciosas, são bem domados na lírica sutil da poesia, nestas cantigas de Rogério Bernardes, dar a voz aquilo que entrava a garganta em forma de frustração e perplexidade, torna o processo do viver, de inevitavelmente se circundar com alegrias e perdas, mais maleável, a medida que existe uma forma de transcender as aflições na forma sofisticada do verso. A poesia de Rogério traz de volta as memórias da infância, com uma linguagem que resgata pela simplicidade os nomes dos doces, a imaginação do menino, as vontades, os desejos mais inocentes, mas também, nesta busca pelo relembrar torna-se primor a sinceridade e seriedade de encarar, que a visão de menino choca-se inevitavelmente com a realidade que envelhece as utopias infantis, “ O menino descalço com olhos nas nuvens /  Tinha uma enorme vontade de desafiar dragões, / destruir castelos com sopros e estilingues”. Como o autor afirma ser o processo da produção poética o “curar ao falar de dores”, veste sua poesia com a nudez de se saber barco ao naufrágio, sem rumo, sem leme, sabendo que para drenar a vida que se esconde entre as batalhas perdidas, dos desamores, da morte, da aflição, é necessário por em holofote quaisquer índoles de sentimento, “ à deriva e sem vela / O barco sou eu / E o vento me leva”. Na trajetória da vida individual existe um longo caminho a se percorrer, numa jornada sempre iminentemente ameaçada, visto a fragilidade da felicidade aberta em um mundo de tantos dragões ameaçadores, mas se existe o antídoto que para Rogério, tem o afeito intenso de acalmar as feras estancando as feridas da pele, é a poesia a mais sublime forma de cantiga, solta, lírica, rítmica, encantando mesmo as desilusões e as mais cruéis feras.

RESENHA

Cantigas de ninar dragões é o segundo livro de poesia do autor Rogério Bernardes. Possuindo 160 páginas e oitenta poemas, a obra retrará a visão crítica do autor com relação ao mundo contemporâneo e suas inquietações acerca do sentimento humano, das relações liquidas, e, sobretudo, do intimismo presente no desejo e na família.
Brilhante. Nada do que eu diga fará o menor sentido, não importará, está tudo tão claro, tão explícito, tão lúcido, tão palpável, tão real e próximo de nossa realidade. A impressão que tenho ao ler Bernardes, em especial esta obra, é que ninar dragões tornou-se uma referência à infância do autor, uma obra extremamente intimista. Já nas primeiras páginas conseguimos observar e captar uma essência de um âmago, saudade, de uma nostalgia impregnada nas memórias, é como se ele construísse seus versos e rimas livres e intercaladas levando em consideração um monte de outras questões após este período de infância. Tornar-se um domador de dragões talvez seja entender que tudo passa, mas que a forma como encaramos estes medos – do que passa, do que não volta, do que nos deixa ou do que simplesmente ocorre sem que queiramos – é inevitável, mas é possível conviver com este sentimento, e domá-lo em nós. O primeiro contato com os dragões ocorre em seu poema de abertura intitulado “Doce de leite”, que por si só, já nos remete á lembranças de uma infância, destacando os seguintes versos:

O menino descalço com olhos nas nuvens
Tinha uma enorme vontade de desafiar dragões
Destruir castelos com sopros e estilingues
[...]
Descobriu aos poucos
A proibição de fazer tudo isso
Neste mundo de carne-osso-regras
Que o obrigou a crer que lirismo é enfeite
 No intervalo da escola que o faria adulto
Guardou todos os sonhos Em uma lata vazia de doce de leite

Nesta parte, eu sinto como se algo me faltasse. Estes poemas me trouxeram a realidade, dura, imbatível e indissolúvel do crescer. Eu sinto falta de tanta coisa quando percebo que a realidade do mundo me foi apresentada de uma forma tão difícil, era um período de mudanças constantes com a descoberta da limitação da vida. E o livro seguiu novamente até o poema da página 23, intitulado “revoada”, onde o autor nos diz:

Vontade de contar nova história Igual às anteriores
Com palavras diferentes
[..]
Dar voz ao silêncio que incomoda
Curar ao falar de dores

Embora a obra seja uma coletânea de poemas que abarcam diversas temáticas do cotidiano, talvez, para mim ao menos, a mais presente foi o sentimento de saudade, não há como ler Bernardes e não ser submetido àquele velho sentimento nostálgico, aquela saudade que não volta. O próximo trecho eu nem irei comentar, mas não posso deixar de cita-lo, eu realmente me sentiria infeliz em não compartilha-lo:

[...] Sou o que sei e desconheço o que não é
Sou o que vivo e a morte chega aonde estou
Sou riso e pranto, o paradoxo é a minha fé
Sou o que queiras, então diz logo quem eu sou.
(p.35)

E agora, a síntese de tudo o que senti em um único poema, localizado nas página 76, que me sussurra ao ouvido:

Cortei com faca o horizonte ao meio
De suas bordas meu sonho escorreu
É agridoce o sabor do meu anseio
De atravessá-lo e encontrar um novo eu [...]
Nosso futuro é costurado em incerteza
As linhas finas de uma teia, seda viva
Somos a fome em um banquete sem mesa
Não temos braços, mas dançamos como Shiva

Em síntese a tudo o que li, vi e senti, só posso dizer que não há o que se dizer. Existem leituras que falam por si só, existem sentimentos que existem para nos lembrarmos de nossa vida, meta, raiz, sonhos, sentimentos, desejos, para nos lembrar que nós temos todos os dias uma nova oportunidade de recomeçar. Esta obra é prolífica naquilo o que se propõe a fazer, ela tece brilhantemente um mar de questões acerca do existencialismo, acerca do EU e das experiências do humano.  Uma obra poética repleta de uma imensidão. 


O AUTOR

Rogério Viana Bernardes nasceu em São Gonçalo, RJ. Desde criança, viu nos livros não apenas um conjunto de palavras formando sentidos, mas o sentido de sua própria vida. A paixão pela poesia tornou-se um caminho sem volta. Desde 2009 morando em Brasília, encontrou na Capital Federal mais do que um novo lar: a inspiração para criar os poemas aqui contidos. Olhar de Andorinha, seu primeiro livro, é o voo inaugural de um homem que se descobriu poeta ao sonhar ser passarinho.

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