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[RESENHA #265] A dissertação da minha loucura, por Giba Carvalheira

Emblemática, curiosa e instigante. Conheça a escrita de um autor louco, convicto e lúcido

segunda-feira, julho 30, 2018

/ by Vitor Lima
IMAGEM: DIVULGAÇÃO

A DISSERTAÇÃO DA MINHA LOUCURA. CARVALHEIRA, Giba. Guaratinguetá, SP: Penalux, 2017 78p ISBN 978-85-5833-234-7 // R$ 34

“A dissertação da minha loucura” é um livro de ensaios e relatos escrito pelo autor recifense Giba Carvalheira. Nesta obra, Giba descreve seu estado de loucura insólita, convicta e lúcida durante um agravante depressivo, em um ensaio esclarecedor – e conflitante – acerca da significação da loucura real.

IMAGEM: Hélvio Schobiner / DIVULGAÇÃO

Há duas formas de encarar esta leitura, e como sempre, farei-a iniciando pela capa. Na ilustração que dá vida a capa, observa-se uma série de pessoas reunidas, destas, uma delas está com o cérebro exposto, tendo uma massa cinzenta e uma massa destacada em vermelho, porém, todas estas pessoas estão submersas em um único recinto, onde, claro, há uma visão psicodélica das coisas, caracterizada, principalmente, pela arte que dá destaque ao plano de fundo da capa. Podemos encarar esta capa de duas maneiras, a primeira, e não tão óbvia, é a de que a personagem retratada com o cérebro exposto seja o autor na imensidão da loucura, parte de seu cérebro está cinza, esta, representa sua parte lúcida – o autor detém conhecimento de seu estado de loucura, até mesmo em seu maior pico/ápice, a outra metade, colorida de um vermelho muito vívido, caracteriza a loucura na qual o autor se encontra. Todos ali reunidos passam pelo mesmo processo enlouquecedor, só que um diferencial: enquanto todos estão sendo representados pela figura psicodélica do plano de fundo, Giba está inerente, a parte, de fora. Sua loucura é real, mas não é fruto do uso de drogas, bebidas ou alucinógenos — “E o mais intrigante de tudo é que nunca precisei tomar nenhum chá alucinógeno, nenhum chá de cogumelo. A minha endorfina cerebral me levou a esse completo e absoluto transe psicotrópico encefálico.” (p.35) —. Através de uma ótica paralela, outra ressignificação que pode-se obter lendo a capa, é a de que talvez, só talvez, todas as pessoas que estão reunidas naquele recinto não possuem conhecimento de sua loucura, não compactuando, claro, com a da personagem principal caracterizada pela loucura exposta, aparente e claro, lúcida. E complementaremos esta segunda análise com uma visão exposta pelo autor nas primeiras páginas de sua obra (18), onde o autor questiona sobre a loucura alheia: “quantos tinham a consciência de que de fato eram loucos?”. A partir daqui, todas as narrativas casam perfeitamente com a descrição inicial dada no prefácio, nas palavras do teólogo humanista, Erasmo Rotterdam:

“Ora, se me excluirdes da sociedade, não só o homem se tornará intolerável ao homem, como também, toda vez que olhar para dentro de si, não poderá deixar de experimentar o desgosto de ser o que é, de se achar, aos próprios olhos, imundo e disforme, e, por conseguinte, de odiar a si mesmo”. (Erasmo de Rotterdam)

E claro, reafirmado pelo autor na página 20: “Neste imundo planeta a minha loucura não tem vez, muito pelo contrário, tripudiam em cima dela como feras que querem me engolir a cada respiração. O sopro que nos faz continuar, para mim, é como se fosse um fim”.

Esta incompreensão da qual o autor fala-nos, tem motivo (e como tem). Analisa-se que sua visão louca do mundo, é meramente uma visão ampliada daquilo o que vivemos de forma autônoma e costumamos não argumentar sobre. A loucura do autor nos trouxe uma atmosfera filosófica, onde o leitor experimenta de uma forma única os sentimentos de um escritor que se encontra em um estado de lucidez ao mesmo tempo em que a loucura ataca sua mente. As reflexões abordadas pelo autor são voltadas – em sua maioria – para o humano, para a limitação do ser humano, do campo social e do seio familiar ao não aceitar, não somente a loucura, mas todo individuo em um coletivo, torna-se a partir deste ponto, a família, escola e o campo social equiparado a um sanatório:

E esse sanatório a que me refiro é o seio familiar, é o seio social, é a completa e absoluta desordem que observei ao abrir meus olhos. (p.21)

A reflexão mais interessante desta obra, ao menos para mim, é a pergunta que o autor traz a tona ao leitor sobre a imposição da definição do padrão de normalidade do sujeito, para que assim, se estabeleça uma linha tênue que nos permitirá dizer o que é ou não loucura, afinal “[...] para dissertar sobre a loucura, temos que traçar um parâmetro de normalidade”. Novamente, o autor faz-nos pensar sobre como lidamos com o diferencial no meio de tanta gente igual. Ao falar sobre seus pensamentos contemporâneos acerca da filosofia e da vida, o autor, diz-nos: “E um louco pode dizer de si, rotular-se, expressar-se da forma como ele quiser, pois ele é louco mesmo, e ninguém nunca vai questionar as besteiras que ele está escrevendo” (p.25).

Ao final desta obra, deparamo-nos com um emaranhado de questões socioculturais e éticas. A loucura de Carvalheira nos proporciona uma visão de mundo além do que estamos habituados e acostumados, uma visão realmente elucidativa acerca da realidade na qual vivemos. Uma leitura fluída e composta de questões que nos impomos.


O AUTOR
GIBA CARVALHEIRA Nasceu no Recife, em 1971. É jornalista, músico e autor de outros quatro títulos publicados: Universo Submerso, O Sacerdote da Medicina, A Maldição de Tourett e e Uma Temporada no Holiday.

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